Um ato político entre um minuto de silêncio e muita música

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Berimbaus congresso 2

Um minuto de silêncio e berimbaus para homenagear mestre Moa do Katendê

O Congresso da UFBA 2018, evento em que a Universidade se coloca em debate e expõe sua produção científica e cultural à sociedade, começou com silêncio. O reitor João Carlos Salles pediu à audiência que lotou o teatro Castro Alves um minuto de silêncio em homenagem ao artista e mestre de capoeira Moa do Katendê, assassinado após manifestar seu posicionamento político no último dia 8 de outubro. O silêncio foi quebrado pelo som de berimbaus e cantos emocionados, puxados por um grupo de capoeiristas, que entoaram o canto “mataram um nêgo, mas não vamos no calar”. O público respondeu: “Mestre Moa, presente!”.

João Carlos Salles apresentou o Congresso como um evento de afirmação da universidade enquanto espaço de liberdade e de combate ao fascismo e à barbárie, lugar para a interação das pessoas e para o diálogo, que deve ser habitado pelo povo e pelos movimentos sociais em uma sociedade democrática. O conferencista convidado para a abertura do Congresso foi o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Muniz Sodré, doutor honoris causa pela UFBA.

O reitor também condenou as pichações racistas e homofóbicas identificadas naquele mesmo dia na Faculdade de Arquitetura da UFBA. “Essas pessoas não estão no nível que é próprio de uma universidade”, afirmou o reitor, que acredita que “estamos diante de um lodo ameaçador que nos afetará independente de qual seja o resultado (das eleições)”. Ele identifica como grande problema, hoje, o fato de a sociedade estar dividida e um desses campos se negar ao debate democrático. “A indiferença é cúmplice da barbárie e não podemos aceitar essa cumplicidade”, disse.

O presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e reitor da Universidade Federal do Espírito Santo, Reinaldo Centoducatte, ressaltou a importância do Congresso da UFBA do ponto de vista acadêmico e também para demonstrar o papel da universidade brasileira para o desenvolvimento político, econômico e social do país. Sobre a atual conjuntura de crise, em que oportunistas se apresentam como solução, ele observa que “hoje vivemos um perigo maior de perdermos a democracia conquistada com tanta luta e até mesmo com o sangue daqueles que lutaram contra ditadura militar”.

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Apresentação da Orquestra Sinfônica da UFBA: obras de Villa-Lobos, Paulo Costa Lima e Luã Almeida

Coordenador geral do Diretório Central dos Estudantes, o estudante José Neto falou do significado de representar um novo perfil universitário, fruto de políticas educacionais que incluíram negros e negras e populações LGBTQI+ na universidade. Contudo, criticou o cenário de retrocessos e ataques aos direitos da população, especialmente as minorias sociais e mandou o recado “se fere a nossa existência, nós seremos resistência!”.

A coordenadora de Políticas Sociais e Anti-racistas da Assufba Sindicato, Lucimara Cruz, observou que a universidade floresceu e se expandiu a partir da luta de muitos e alertou para a escalada dos discursos de ódio no Brasil. “Nunca mais nos olharemos da mesma maneira depois desse momento”, disse.

A presidente do Sindicato dos Professores das Instituições Federais de Ensino Superior da Bahia (Apub) trouxe o posicionamento da entidade na eleição presidencial. Contra o fascismo e pelo fortalecimento da democracia e dos direitos sociais, o documento repudiou medidas como o congelamento dos investimentos públicos e investidas contra os direitos humanos e o estímulo a preconceitos de raça, gênero e sexualidade. “Nossa democracia está ameaçada”, afirmou.

Também participaram da mesa de abertura do congresso o vice-reitor da UFBA Paulo César Miguez, a ex-reitora Dora Leal Rosa, o reitor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UNIRIO) Luiz Pedro San Gil Jutuca, e a secretária estadual da Igualdade Racial Fabya Reis, o secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação Rodrigo Hita, e a secretária de Políticas para as Mulheres da Bahia, Julieta Palmeira.

A cerimônia teve apresentação da Orquestra Sinfônica da UFBA, com um programa exclusivo de músicas brasileiras, incluindo a composição “Alá”, do professor da Escola de Música da UFBA e assessor especial da reitoria Paulo Costa Lima, e Bachiana brasileira nº 2, de Heitor Villa-Lobos, e Amálgama, de Luã Almeida. A solista Ana Paula Albuquerque também se apresentou junto à orquestra.

A noite de abertura seguiu com a conferência do professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré que teve como tema “Instituições Públicas na defesa da cultura e produção do conhecimento”. Antes, o professor recebeu uma saudação do Mestre Nenel, filho de Mestre Bimba, que tocou o hino da capoeira regional e avisou: “A esperança nunca morre!!”.

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