A arte contemporânea como instrumento de protesto em tempos de crise

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Para compreender e refletir sobre a utilização da arte contemporânea como instrumento de transformação sociopolítica nos tempos de crise, integrantes do grupo de pesquisa Urbanidades da Universidade Federal da Bahia levantaram a discussão na mesa de debate “A crise do Comum”, que aconteceu no auditório da Biblioteca Universitária de Saúde da UFBA durante o Congresso da UFBA de 2018.

De acordo com Ines Ferreira, artista plástica e coordenadora do grupo de pesquisa Urbanidades da UFBA, “a arte contemporânea realiza processos artísticos que focam a relação com o público a fim de produzir sociabilidade e interatividade, enquanto questiona o sistema social e político vigente”. Esse fator é importante por ser capaz de contribuir para a utilização da arte como instrumento de luta em favor de uma transformação social que visa justamente o bem comum. “As discussões sobre sociabilidade e sistemas também colaboram para a gente pensar em liberdade, autonomia e soberania”, afirmou a pesquisadora.

Ines Ferreira, citou os protestos de cidadãos norte-americanos contra a guerra do Vietnã e as produções artísticas do período ditatorial brasileiro como exemplos de manifestações artísticas que, em conjunto com as ideias de ocupação do espaço urbano e de busca pelo interesse em comum, apresentaram o potencial da arte para modificar cenários políticos tensos e antidemocráticos.

Para Juliana Lopes, psicóloga e mestranda em Artes Visuais pela UFBA, a ocupação dos espaços urbanos feitos através dos grafites e pixos, ao mesmo tempo que representam uma manifestaçã20181018_092914o individual, colocam também um ideal coletivo apresentado, muitas vezes, de forma inconsciente, através de elementos simbólicos.

E para entender como ocorre este processo e quais são os significados deste simbolismo, é preciso investigar a relação entre intrassubjetividade e intersubjetividade, ou seja, compreender o que há de comum entre as perspectivas individuais e a perspectiva de coletividade. “Em nossa estrutura, temos o nosso inconsciente pessoal que fala sobre toda a nossa história de vida e temos o inconsciente coletivo que fala de toda história da humanidade. Atualmente estamos começando a interrelacionar estes dois fatores, não só o que é interno ou externo, mas a perspectiva da relação que é estabelecida, o que há de comum entre o externo e o interno”, explicou Lopes.

Para Juliana Lopes, essa nova concepção é importante no contexto urbano por colocar que tanto o indivíduo interfere na cidade, quanto a cidade interfere no indivíduo. E através das manifestações e intervenções artísticas, no atual momento de crise, inclusive da linguagem, um grupo social não escutado transmite a mensagem de conteúdo coletivo para um grande número de pessoas, despertando assim reações conscientes e inconscientes de cada pessoa que observou a imagem.“Muito além de uma simples intervenção ou uma simples tatuagem nos muros da cidade, o grafite e o pixo estão em um lugar de gritar aquilo que de alguma forma nós não estamos conseguindo ouvir ou falar, pois o grito está para voz, assim como o grafite está para a pintura”, disse.

Segundo o jornalista cultural, Gustavo Salgado Leal, a utilização da arte como forma de protesto é fundamental, já que para ele “Os artistas subvertem a linguagem para novas maneiras de problematizar e denunciar o mundo”. Desta forma, o jornalista explica que, diante do atual cenário político brasileiro, cada manifestação artística tem seu valor, não só como obra, mas também como instrumento de luta e transformação da realidade. “A maneira de você se manifestar, de falar e de se posicionar são atos políticos. Tanto a imagem visual, a ação artística, quanto o próprio uso das palavras para anunciar essas ações, são instâncias políticas e posicionamentos sobre o mundo”, explicou o jornalista.

Gustavo Leal também comenta que diante do sentimento de falta de esperança e medo surgido com a ascensão de ideias fascistas, é necessário não desistir de buscar o interesse em comum, mesmo que a situação contribua para sentimentos de ódio e desunião. “Temos que ter coragem, porque mesmo que a gente não vença agora, precisamos de pessoas para quando o pesadelo acabar e precisarmos reconstruir o país”, afirmou.

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