A biblioteca de Babel do professor Aurino Ribeiro Filho

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Doação do acervo de mais de 4 mil livros do ex-diretor Aurino Ribeiro Filho à Biblioteca Central marcou o aniversário de 50 anos do Instituto de Física. (Foto: Ricardo Sangiovanni / Ascom UFBA)

O escritor argentino Jorge Luis Borges sonhou uma biblioteca total, que contivesse todos os livros, em todas as línguas, detendo todas as respostas para todos os problemas de todos os mundos e eras possíveis e impossíveis, verdadeiros e falsos, existentes e não, e mais todas as suas respectivas refutações, confusões, análises, sínteses, profecias, maldições, versões e opiniões infinitas.

Sonhar tal biblioteca impossível é tarefa fácil; difícil é, sendo apenas um homem, e vivendo apenas uma vida, tentar concretizá-la. Evidências, contudo, sugerem que houve um dia, na UFBA, quem tenha ousado fazê-lo: o professor do Instituto de Física Aurino Ribeiro Filho, que faleceu em 2015, cujo acervo, estimado em mais de 4 mil livros em excelente estado de conservação, acaba de ser doado à Biblioteca Central da Universidade, no campus de Ondina, e já está à disposição para consulta local.

Embora significativa, a quantidade de livros – acima da média, mas nem de longe a maior entre as coleções de personalidades baianas e de luminares da UFBA custodiadas pelo espaço Lugares de Memória da biblioteca – não é o que mais impressiona. É, sim, a diversidade de temáticas e áreas do conhecimento tocadas pelo acervo o que vem chamando a atenção dos três bibliotecários que trabalham em sua catalogação – Marcus Vinícius Gonçalves, Marly Santos e Teresa Cristina Gonçalves – sob a coordenação da bibliotecária Maria Alice Santos Ribeiro.

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Termodinâmica, química inorgânica, Darcy Ribeiro e Charles Darwin em uma mesma prateleira: diversidade é marca do acervo do professor Aurino, que já está disponível para consulta. (Foto: Ricardo Sangiovanni / Ascom UFBA)

A previsão é que toda a coleção esteja indexada entre março e abril de 2019. Mas, com menos da metade dos itens catalogados (1601 exemplares de 1460 títulos), já se nota que a biblioteca do professor Aurino é peculiar diante das de outros intelectuais. Apesar de conter uma grande quantidade de títulos das áreas de matemática, física e química, impressiona a quantidade de títulos de filosofia, psicanálise, história, sociologia, artes e literatura que a coleção reúne.

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Amiga e correspondente de Aurino, a professora aposentada do Instituto de Física, Nice Americano, deu um depoimento sobre a trajetória do amigo. Ao lado, o reitor João Carlos Salles, o diretor Ricardo Miranda, e a coordenadora do Lugares de Memória, Maria Alice Santos Ribeiro. (Foto: Ricardo Sangiovanni / Ascom UFBA)

De James Joyce a Thomas Kuhn, de Dante Alighieri a Darcy Ribeiro, de Joaquim Nabuco a Ludwig Wittgenstein, de Glauco Mattoso a Claude Levi-Strauss, de Jack Kerouac a Eric Hobsbawm, e mais tantos autores da física e da matemática (que a franca ignorância deste jornalista impede de distinguir os mais dos menos importantes), a biblioteca de Aurino tem de tudo um pouco. Haverá quem argumente que não é propriamente espantoso encontrar uma obra de Homero ao lado de outra de Stephen Hawking na estante de um intelectual verdadeiramente plural. Fato. Impressionante é encontrar, nessa mesma biblioteca, livros de Flávio Gikovate e Zeca Camargo.

Tamanha diversidade talvez se explique pelo conhecido hábito de Aurino de comprar livros não apenas para si, como para presentear os amigos – que, por sua vez, se habituaram a presenteá-lo com outros tantos. E sendo esses amigos ligados às mais diversas áreas do conhecimento, é natural que a biblioteca tenha ido se expandindo em quase todas as direções possíveis.

A diversidade da coleção talvez espelhe um traço característico da personalidade do professor Aurino: o prazer de tentar fazer dialogar pessoas, linguagens e áreas do saber tidas, vulgarmente, por incomunicáveis. O profundo incômodo que lhe dava “viver uma Universidade estancada em unidades/departamentos em que cada qual ficava no seu pedaço, [e] ninguém interagia academicamente com ninguém que não fosse par imediato, da mesma escola, instituto ou faculdade” foi o que o levou a criar o Seminário Geral Interdisciplinar do Instituto de Física, quando dirigiu a unidade (1992-96), segundo sua amiga e também professora de física Nice Americano. Entre 1992 e 1993, 28 professores da UFBA de letras e linguística, filosofia e antropologia, teatro, música, dança, história, geografia e geologia, arquitetura e politécnica, medicina, odontologia, nutrição, biologia, química e matemática foram provocados a falar de suas próprias pesquisas a um público majoritariamente da física, mas também de outras áreas.

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Lugares de Memória, no segundo andar da Biblioteca Central, expõe temporariamente livros e documentos do professor Aurino. (Foto: Ricardo Sangiovanni / Ascom UFBA)

E o gosto por fomentar o diálogo alheio talvez refletisse uma espécie de diálogo interno, na mente e no espírito do professor Aurino, que viera de Jequié para Salvador, no início dos anos 1960, com 17 anos e o sonho quixotesco de estudar “matemática e cinema”. Parece que Aurino não concebia opostos: o “cientista” e o “técnico” conciliaram-se em suas duas graduações, de físico e de engenheiro; turmas imensas de alunos e formação continuada de pesquisador coexistiram em sua atuação profissional; mérito acadêmico e prática democrática andaram lado a lado em seu período como diretor; e mesmo as aparentes “sisudez e retração” do professor conviviam com seu jeito franco e colaborativo, através do qual construiu uma imensa rede.

Mestre e doutor em áreas tão díspares quanto geofísica (com dissertação na área de aerosóis atmosféricos, defendida na UFBA, em 1975) e física teórica (com tese sobre teoria de transição de fase e espelhamento de Luz, defendida na Universidade de Essex, na Inglaterra, em 1984), respectivamente, Aurino era um homem invulgar. Talvez por isso mesmo buscasse despertar o que houvesse de invulgar em seus alunos e colegas, exortando-lhes e dando-lhes suporte acadêmico para que seguissem buscando fazer seus mestrados e doutorados fora da Bahia e do Brasil, em tempos em que as oportunidades de pós-graduação no país eram escassas.

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Paixão do físico e engenheiro por cinema resultou, em 1994, no livro “Glauber Rocha revisitado”, hoje referência para pesquisadores da área de cinema. (Foto: Ricardo Sangiovanni / Ascom UFBA)

Nos tempos difíceis da ditadura militar (1964-85), o professor Aurino sabia o quanto era fundamental conciliar interesses acadêmicos opostos para enfrentar o verdadeiro inimigo comum. Nos anos 1960 e 70, travou disputas internas em favor da institucionalização do Instituto de Física; nos 80 e 90, esteve na linha de frente da luta para manter viva a pós-graduação na área na Bahia, ante ameaças de sua extinção pela Capes.

Homem negro, Aurino percebia, no final dos anos 1960, que era um dos dois ou três estudantes que se identificavam como negros entre mais de 600 alunos de engenharia. Sobre “consciência negra”, afirmou certa vez, em depoimento à TVE Bahia, que “é a consciência que você tem de ter do seu papel de negro, de cidadão, não se achar superior a ninguém nem inferior a ninguém, ter uma boa relação com tudo quanto é tipo de pessoa, seja branco, negro ou amarelo, mas [se manter] consciente e não [ter] nenhum problema por ser negro”.

Acima de qualquer preconceito, Aurino Ribeiro Filho era aquele tipo de gente total, capaz de assinar tanto um artigo em um livro vencedor do prêmio Jabuti de melhor do ano em Ciências Exatas (Mecânica Quântica: estudos históricos e implicações culturais, organizado pelo também professor da UFBA Olival Freire Jr., de 2011), quanto um livro sobre o cinema de Glauber Rocha (Glauber Rocha revisitado, de 1994) que se tornou referência.

Não incorrerá em exagero quem acaso afirme que, mesmo numericamente menor, a biblioteca do professor Aurino contém a biblioteca infinita sonhada por Borges: afinal, as Obras Completas do escritor argentino também integram seu acervo. Algebristas infinitesimais heterodoxos especulam que, fosse Aurino imune à morte, teria, seguramente, concretizado o sonho humano da biblioteca total.

*As informações sobre a trajetória biográfica do professor Aurino Ribeiro Filho foram extraídas do depoimento “Fazer a Universidade”, que a professora Nice Americano leu no evento que marcou a doação do acervo

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Evento que marcou a doação do acervo contou com a presença de amigos, colegas e familiares do professor. (Foto: Ricardo Sangiovanni / Ascom UFBA)

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