Um documentário destaca a força da resistência dos Wayúus

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Os Wayúus vivem na região da Guajira, enter Colômbia e Venezuela

Na península da Guajira, região que abrange o nordeste da Colômbia e noroeste da Venezuela, habitam os Wayúus. Considerados a maior etnia indígena desse território, exibem entre suas marcas tradições, estilos, sistemas políticos, centralidade na família, cemitérios como lugares sagrados e a língua – o wayunaiki. O sistema judicial, que tem autonomia frente ao judiciário colombiano, por exemplo, reserva o compartilhamento à punição e reparação de um crime individual. Um ato ilícito de um Wayúu é um crime de toda a tribo e deve ser julgado de maneira material, espiritual e simbólica.

Parte da história dos Wayúus é contada no documentário “Espíritus Guerreros: Histórias de resistência Wayúu” (disponível no YouTube), de autoria de Forrest Hylton, historiador especializado em América Latina e Caribe, que abrange em seus estudos questões sobre a soberania indígena, as políticas em relação as matérias-primas, a formação dos estados e impérios, além de etnia, parentesco e linhagem. Entre suas obras, a Revolução Colombiana ganhou tradução em português pela editora Unesp. Ele esteve na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA na última quinta-feira, 13 de dezembro, num instigante debate realizado após a exibição de seu filme, fruto de pesquisa de campo.

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Cena do filme Espíritus Guerreros: Histórias de resistência Wayúu

“Se tem um povo resistente na terra, são os Wayúus”, disse Hylton, que também é professor da Universidade Nacional Colombia-Medellín. Ele contou que o poderio comercial do Wayúus foi o que impossibilitou a colonização desse grupo indígena. Situados na costa marítima, destacavam-se pela relação com comerciantes de diferentes países, o que tornou um grande desafio as tentativas de evangelização e monopolização do comércio, em especial pelos espanhóis.

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Forrest Hylton

O documentário ajuda a entender a cultura enquanto um processo vivido, no qual há o intercâmbio do grupo indígena com o mundo a sua volta. O artesanato com crochês feitos à mão e exclusivos, que ganham forma em coloridas mochilas, também enfeitam sapatilhas de pano, com marcas mundialmente conhecidas, a exemplo da marca esportiva reebook, bordada pelas artesãs Wayúus e exibida no documentário. Essa articulação com outros povos pode ser observada na adoção de outros elementos, a exemplo de óculos de sol – “não há nada mais Wayúu como óculos de sol”, contou Forrest Hylton – ou ainda pelo consumo de famosas marcas de Whiskys.

Atualmente, os Wayúus continuam a enfrentar desafios a sua sobrevivência, sejam mudanças climáticas ou a extração predatória de recursos naturais. “O conflito sobre a água está cada vez mais agudo”, afirmou Hylton. O rio Ranchera que atravessa a região da Guajira teve suas águas privatizadas para favorecer a extração de carvão e agricultura industrial.  A seca e desertificação tornam a agricultura, uma das bases econômicas dos Wayúus, quase impratícavel. Frente a essas adversidades, os Wayúus seguem resistindo, conforme fala o pesquisador.

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O debate foi realizado na sala de videoconferência da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

_Questões sobre a organização dos Wayúus, que tem forte vínculo com território e família, também alimentaram o debate. A atuação do pesquisador Forrest Hylton, um forasteiro que teve permissão pelas autoridades índigenas Sergio Kohen Epieyú e Germán Aguilar Epieyú – narradores das histórias de lutas dos Wayúu no documentário – também foi explorada.

O encontro teve apoio do Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (PINEB/UFBA), do Coletivo Afroindigenessência, e contou com a mediação do professor Iraneidson Costa do departamento de História.

 

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