LabSolar: um laboratório pioneiro na certificação de placas de energia solar

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O professor Denis David, do Instituto de Física, é o coordenador do LabSolar, no Parque Tecnológico

Quando o Brasil resolver levar a sério a utilização de energia elétrica solar em larga escala, a Bahia estará um passo à frente. A UFBA, em parceria com o Governo do Estado, com financiamento da Coelba, inaugura oficialmente, no dia 29 de janeiro, o LabSolar (Laboratório de Certificação de Componentes para Energia Solar Fotovoltaica), um laboratório de caracterização e certificação de placas e componentes de energia solar, mescla entre centro de pesquisa de novas tecnologias e uma espécie de “Inmetro” desse segmento.

Na prática, trata-se de um prédio de cerca de 600 metros quadrados de área, equipado com toda a tecnologia necessária para verificar e certificar emissores, receptores e geradores dos chamados “sistemas solares fotovoltaicos”, que geram energia elétrica através da captação e armazenamento de energia solar. À frente da coordenação do laboratório está o professor Denis David, do Instituto de Física da UFBA, que conta com uma equipe formada por jovens pesquisadores – como, por exemplo, o jovem físico Victor Mancir – ligados aos cursos de física e afins, engenharia, mecatrônica, química e outros.

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Simulador Solar, equipamento utilizado para realizar a calibração de sensores de intensidade solar

Embora a energia solar ainda represente apenas 1% da matriz energética brasileira – que, em sua maioria, é hidrelétrica (aproximadamente 60%) e termelétrica (cerca de 25%) – , a expectativa é de que a certificação de placas e componentes de energia solar, bem como a pesquisa de novas tecnologias e a formação de técnicos na área, passem a ser mais requisitadas na medida em que o Brasil expanda o uso dessa fonte de energia, cuja principal vantagem é o fato de ser limpa, renovável e relativamente mais barata. Nesse cenário, a Bahia estará bem posicionada, já que hoje, além do LabSolar, há apenas um centro de verificação no Brasil, em São Paulo, que oferece menos modalidades de testes do que o LabSolar. Atualmente, o Brasil ainda não realiza a própria certificação oficial de placas e componentes de energia solar.

Denis David - câmara fria 2

A câmara climática, para teste de resistência das placas e componentes a temperaturas extremas

Localizado no Parque Tecnológico da Bahia – área de 581 mil metros quadrados gerida pela secretarias de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) e de Infraestrutura e Obras Públicas (Seinfra) do Estado, com a finalidade de incubar ou abrigar iniciativas tecnológicas que partam de universidades e de empresas baianas – , o LabSolar contou com financiamento de cerca de R$ 4,5 milhões aportado pela Coelba, fruto de uma exigência de investimento em pesquisa feita pela Agência Nacional de Energia Elétrica. Destes, cerca de R$ 2 milhões foram investidos em equipamentos, que estão sendo oficialmente doados à UFBA através da Fundação Escola Politécnica da Bahia. O valor restante foi aplicado na construção do prédio, que pertence ao Governo do Estado, que arca com as despesas de manutenção do local.

Certificar uma placa solar não é um processo simples: é preciso demonstrar que a energia gerada é compatível com as especificações da rede elétrica, e que a placa resiste a todo tipo de intempérie, como variações de temperatura e níveis de exposição à erosão pela água da chuva, por vento, areia, granizo e até mesmo pela sombra. Se exposta por tempo prolongado à sombra, uma placa solar pode queimar, pois “se, quando expostas ao sol, as células fotovoltaicas funcionam como geradores, na sombra, elas funcionam como resistências, e isso pode danificá-las”, explica o professor David.

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Equipamento que mede resistência das placas solares ao impacto de gelo

Entre os equipamentos que o LabSolar possui, estão o simulador solar flash (um conjunto de lâmpadas flash com fonte de alta tensão e uma bancada de medição fabricadas na Suíça, adquirido a um custo de aproximadamente R$ 800 mil, que acende por alguns milissegundos, para medir quanto de energia um painel solar pode produzir), o simulador solar contínuo (uma câmara de exposição à luminosidade por várias horas seguidas, para verificar a durabilidade das placas solares) e a câmara climática (que usa tecnologia chinesa e consegue simular variações de temperatura entre – 40 e + 80 graus Celsius). Há também uma sala de testes físicos (de resistência a impacto, pressão e impacto de granizo) e uma estação ambiental, que serve para testar o desempenho das placas em condições naturais. Em breve, serão adquiridos equipamentos para a realização de testes de atmosfera salina e raios ultravioleta.

Por concentrarem as maiores incidências de radiação solar do país, os estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais são áreas de grande potencial para exploração da energia solar. Isso torna Salvador um local estratégico para a instalação de um laboratório como esse. Mas, segundo o professor Denis, é fundamental que o governo federal retome o quanto antes os leilões de geração de energia solar, que geram novas oportunidades de negócio e atraem investimentos no setor.

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As placas também serão testadas quanto à resistência ao impacto

“Se não houver empresas interessadas na geração de energia solar, sobra apenas o mercado residencial, que ainda é muito pequeno”, observa o professor Denis, que tem 12 placas solares na própria casa, algo ainda bastante raro no país. Francês radicado no Brasil há quase duas décadas, o professor, que atua desde 2004 na UFBA, veio morar no país movido pela “vontade de trabalhar com energias renováveis”, no bojo das “ideias de ecologia e ambientalismo que tomaram força a partir dos anos 1980”.

Ainda que, no momento, o cenário não seja dos mais favoráveis, o LabSolar já fechou, antes mesmo da inauguração, uma primeira e importante parceria: o Lactec, centro de ciência e tecnologia com sede em Curitiba, que contará com o LabSolar para realizar o monitoramento de desempenho de um módulo gerador de energia solar capaz de alimentar o equivalente a um povoado de 1.000 pessoas. Atualmente em fase de testes, essa tecnologia poderá, no futuro, vir a ser utilizada em larga escala pela Coelba.

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