O ensino da física a serviço de uma educação inclusiva

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SNEF

A responsabilidade dos físicos, em sua condição de cientistas, no delicado momento por que passa o país, foi destacada pela professora Suani Pinho, do Instituto de Física da UFBA, na abertura do Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF 2019). Chefe de gabinete do reitor João Carlos Salles e o representando na cerimônia, ela criticou a aprovação das recentes reformas do Ensino Médio e a definição da Base Nacional Curricular Comum sem o necessário debate com a comunidade. Em sua 23a. edição, o evento foi realizado pela primeira vez em Salvador, entre os dias 27 de janeiro e 1º de fevereiro.

Com o tema “O ensino de física no século XXI: caminhos para uma educação inclusiva”, o simpósio foi promovido pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) e organizado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) em parceria com a UFBA. O evento reuniu, de acordo com seu coordenador geral, professor Jancarlos Menezes Lapa, do IFBA,  1.333 inscritos e  668 trabalhos apresentados entre pôsteres e comunicações orais, 10 palestras, 15 rodas de conversa, 11 mostras com exposições de trabalhos científicos e culturais e oficinas.

Estudantes participam das atividades promovidas pelo SNEF 2019 no campus da UFBA, em Ondina

Estudantes participam das atividades promovidas pelo SNEF 2019 no campus da UFBA, em Ondina

A importância de debater questões centrais da base curricular e da reforma do ensino médio foi destacada também na abertura do evento por sua vice-coordenadora, a professora Cristina Penido, da UFBA. Um dos pontos mais sérios nesse debate é a possibilidade de as escolas não oferecerem todos os itinerários formativos, desobrigando-as, assim, de abordarem conteúdos de ciências da natureza e suas tecnologias, num cenário em que já faltam professores dessas áreas, em especial de física e química.

Como alerta Suani Pinho, “sem o acesso ao conhecimento nestas áreas, teremos ainda menos professores de física, menos pesquisadores, menos físicos profissionais, o que significa, no decorrer do tempo, o retrocesso da física brasileira”.

O presidente da SBF, professor Marcos Pimenta, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressaltou a importância do simpósio no debate da educação em física e lembrou a posição de vanguarda da Sociedade nas causas pela educação, ciência e tecnologia, em conjunto com outras sociedades científicas e instituições como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Sobre a proposta para uma educação inclusiva, Jancarlos observou que a física é para todos, não para poucos. “Ela fala das coisas da natureza e tem a ver com o cotidiano de todos nós”, observou, citando a Primeira Lei de Newton, Lei da Inércia, segundo a qual todo corpo tem a tendência de permanecer em seu estado natural de repouso ou em movimento retilíneo e uniforme a menos que uma força seja aplicada nele. As leis básicas da mecânica formuladas por Isaac Newton relacionam movimento e força e mais uma série de outros conceitos como velocidade e aceleração. “É importante promover a contextualização dos conceitos”, complementou o professor.

Questões de gênero e das pessoas com necessidades especiais foram parte das discussões sobre a inclusão de todos estudantes. O coordenador do evento destacou apresentação do trabalho do professor Eder Camargo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), sobre a utilização de materiais táteis no ensino da física para estudantes com deficiência visual. Também destacou a participação da professora trans Ana Luísa Castro, da rede municipal de São Paulo, no debate sobre as questões de gênero no contexto da educação, e a palestra sobre a contribuição panafricana nas ciências, apresentada pelo professor Henrique Cunha Jr, da Universidade Federal do Ceará (UFC).

 

Educação popular

Estudantes, docentes e pesquisadores de física, de todos os níveis de ensino, puderam, assim, refletir durante o simpósio sobre o papel do ensino de física e a possibilidade de transformá-lo em caminho de inclusão, com oportunidades para o desenvolvimento da identidade e de transformação social, da pluralidade, da colaboração na busca do bem comum.

Kulesza criticou a recente reforma do ensino médio: “Voltamos ao ensino elementar, concentrado apenas em português e matemática”

Kulesza: “Voltamos ao ensino elementar, concentrado apenas em português e matemática”

Diretamente articulada a esse tema, a palestra do professor Wojciech Andrzej Kulesza, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), “O ensino da física e a educação popular”, propôs que a contextualização da educação é ponto chave para entender o conceito de educação popular. Por princípio, ele valoriza os saberes populares e suas realidades culturais para a construção do conhecimento e a transformação social. “O cotidiano é muito importante para a contextualização do ensino de física, que deve ter um programa que considere os temas atuais e que tenha a ver com a vida das pessoas”, disse.

Nesse ensino, temas como a cinemática, por exemplo, podem estimular discussões sobre a velocidade dos veículos nas vias, tarifas do transporte público e meio ambiente. “Os conhecimentos têm que ir para fora da sala de aula também. Essa é a ideia de contextualização que não é feita normalmente”, disse o professor, que defende ser necessário modificar o ensino na física para incluí-la no modelo de educação popular, em vez de deixá-la como uma disciplina pura e abstrata.

Kulesza destacou Paulo Freire e as contribuições de sua obra sobre a pedagogia do oprimido que influenciaram uma série de experiências na área da educação popular no Brasil no mundo. Também fez referência às contribuições do manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, em 1932, que enaltece a educação pública, a escola única, a laicidade, gratuidade e obrigatoriedade da educação.

Simpósio reuniu 1.333 inscritos e contou com 668 trabalhos apresentados em pôsteres e comunicações orais, 10 palestras, 15 rodas de conversa, 11 mostras com exposições de trabalhos científicos e culturais, cursos e oficinas

Simpósio reuniu mais de 1.300 inscritos e quase 700 trabalhos

Em sua visão, a escola atual ainda é compartimentada e existe pouca troca de saberes entre as diferentes disciplinas e áreas do conhecimento. Ele avalia que há uma série de problemas nos currículos e considera que as condições de trabalho tornam difícil a atuação dos professores. Apontou para a necessidade de atuação dos sindicatos para assegurar melhores condições nas salas de aula e nas escolas de maneira geral. Por fim, também criticou a recente reforma do ensino médio, que classificou como “horrorosa”. “Voltamos ao ensino elementar, concentrado apenas em português e matemática”, disse.

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