Estudo quantifica presença de substâncias cancerígenas no ar de Salvador

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O ar poluído de uma grande estação de ônibus é 2,5 vezes mais letal do que o que se respira num local à beira-mar, próximo a uma área industrial, em Salvador. Em números absolutos, significa dizer que aproximadamente dez pessoas, de cada 10 milhões que respirarem o ar da estação regularmente, provavelmente desenvolverão algum tipo de câncer ou mutação genética ao longo da vida, contra quatro entre as que respirarem o ar da beira da praia.

Essas são algumas das conclusões de um estudo publicado em janeiro no periódico Scientific Reports, do grupo inglês que edita a revista Nature, por uma equipe de pesquisadores do Centro Interdisciplinar de Energia & Ambiente (Cienam), do INCT Energia & Ambiente (E&A) e do Instituto de Química da UFBA. É a primeira vez que um estudo quantifica os níveis de dois perigosos compostos químicos cancerígenos presentes no ar de uma grande cidade do hemisfério sul, relacionando-os diretamente com os riscos de mortalidade que provocam.

A originalidade do estudo, de autoria dos pesquisadores Jailson Andrade (coordenador do Cienam e do E&A, atual presidente da Academia de Ciências da Bahia), Gisele Rocha e Aldenor Santos, se deve ao grau de precisão com que o grupo conseguiu mensurar, entre outras substâncias, as quantidades de dois perigosos compostos policísticos aromáticos (PAC) no chamado “material particulado fino” emitido por motores de carros e caminhões movidos a diesel, gasolina e etanol. Essas partículas estão, junto com o tabaco, entre as principais vilãs causadoras do câncer de pulmão, que matou 1,69 milhão de pessoas no mundo somente no ano de 2012, conforme salienta o estudo.

tabelascientificreport

Uma das tabelas do estudo, que mostra os níveis de inalação de substâncias tóxicas e o índice de risco de câncer (ILCR, à direita) a cada 10 milhões (10 -7) e 100 milhões (10 -8) de pessoas.

De alta sensibilidade e capaz de identificar esses poluentes em amostras do ar coletadas em condições reais, a metodologia, que vem sendo desenvolvida desde 2016 no Cienam, permitiu quantificar a presença dos compostos do tipo nitrobenzoantrona NBA-2 e NBA-3 no ar da Estação da Lapa (principal terminal de ônibus da capital baiana) e do Porto de Aratu (área à beira-mar próxima a uma zona industrial da cidade).

Curiosamente, o material particulado fino (PM 2.5, ou seja, de diâmetro até 2,5 micrômetros) não é o responsável pela coloração acinzentada tão característica da fumaça de carros e caminhões. Pelo contrário: praticamente invisível, esse material é, porém, o mais letal à saúde humana, pois é formado pelas chamadas micro e nanopartículas (de diâmetro respectivamente da ordem do milionésimo e do bilionésimo do metro, ou seja, inúmeras vezes menores que um fio de cabelo), que, de tão pequenas, conseguem penetrar até os alvéolos pulmonares.

Na comparação com estudos realizados em outras cidades do mundo, como Grenoble, na França, e Xi’an, na China, o risco de mortalidade detectado no ar de Salvador é “uma ou duas ordens de magnitude menor”, pondera o estudo. Contudo, a quantidade de NBA-3, o mais cancerígeno dos dois compostos, revelou-se mais alta do que o esperado, o que pode estar ligado à proporção de mistura entre gasolina e álcool e entre diesel e biodiesel no combustível brasileiro, e até mesmo às condições de temperatura e luminosidade da cidade de Salvador.

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