Soy loco por ti: Gilberto Gil canta e encanta na abertura da Bienal da UNE

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gilGilberto Gil foi o grande nome da abertura da Bienal da União Nacional dos Estudantes (UNE), na noite da quarta-feira passada, 6 de fevereiro, no Teatro Castro Alves (TCA).  Em sua 11ª edição, que seguiria até o sábado, 10, no campus de Ondina da UFBA,  o evento homenageou o músico baiano.

A interação com o público deu o tom da aula-espetáculo, das palmas às respostas ao público, do grito da plateia, “soy loco por ti, América”, à declamação pelo artista da letra de sua canção, escrita em parceria com José Carlos Capinan e uma das mais representativas do Tropicalismo. Gil também cantou, falou sobre esperança, deus e poesia.

O tema da palestra da abertura era “Disposições amoráveis”, nome do livro organizado pela escritora Ana de Oliveira, em que várias personalidades da arte, da ciência e da política entrevistam Gil. No TCA, a escritora atuou como mediadora do debate que buscava “um reencontro com o Brasil”, slogan do evento e título do manifesto da Bienal da UNE (confira o documento na íntegra).

Com os versos de Gil em “Toda menina baiana”, o manifesto relembra a importância da cidade de Salvador como cenário de resistência em diferentes lutas, como espaço onde a UNE se fez e refez, lugar de sua reconstrução há 40 anos e do surgimento da bienal, vinte anos atrás. O texto é de exaltação: “porque os sonhos não envelhecem, às vezes tardam, mas não falham, porque o som da nossa história é luta armada das alfaias, é nossa síncope rasgada no estandarte das batalhas. A juventude não se cala. O fogo eterno não se apaga. As memórias de Gil sabem”.

A fala suave de Gil parecia trazer esperança aos estudantes que lotaram o teatro. “Avançamos muito, essa geração é beneficiada por longos anos de exercícios libertários”, disse ele, numa mensagem de confiança em tempos melhores para a nação e o mundo. Em sua visão, é necessário distribuir riquezas para ser possível pensar num mundo mais justo. Quando amazon, facebook, apple e windows detêm uma grande fatia do capital mundial, há um grave problema para todos, na opinião do compositor de “pela internet”, música que traz o potencial agregador e de debate na internet (“Eu quero entrar na rede. Promover um debate. Juntar via Internet, um grupo de tietes de Connecticut”).

A sensibilidade e tom crítico do artista percorreram outras áreas. Relembrou as vaias recebidas ao cantar “Domingo no Parque”, durante o III Festival da Música Popular, ao lado d’Os Mutantes. A acusação: trair a verdadeira música popular brasileira.

O Tropicalismo, movimento cultural que teve Gil como um dos grandes nomes fundadores, trouxe inovações, entre elas, o uso das guitarras elétricas, instrumentos acusados de corromper a música popular brasileira, e simbolismo, para os conservadores, de uma invasão americana. E não foi só a introdução da guitarra elétrica. A mistura de gêneros e as letras que muitas vezes questionavam o Brasil em plena época da ditadura marcaram esse movimento cultural, nos anos de 1967 e 1968.

bienal-une Presente no palco da abertura, o vice-reitor da UFBA, Paulo Miguez, que foi assessor especial do ministro Gilberto Gil e secretário de políticas culturais do Ministério da Cultura entre 2003 e 2005, trouxe justamente a lembrança da Tropicália, da mistura de gêneros e estilos, do “se abrir para tudo, inclusive para as relíquias do Brasil”. Movimento cultural que buscava uma reinvenção, “essa busca não ficou apenas na música”, destacou Miguez, mas percorre também caminhos de espiritualidades do artista, “numa disposição amorável com o mundo, de generosidade’’. Questão: em que medida isso alcança a Bahia?

Gil, com seu riso fácil, respondeu que gostaria de representar da forma mais íntegra e completa possível a Bahia. “Queria muito esse lugar que Caymmi dizia, ‘a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem’. Ele percebia isso muito claramente, de uma forma que era irrecusável. Podia dizer isso sem medo de errar, não tem lugar como aqui (Bahia). Aqui é o início desse segundo novo mundo que vai transcender o mundo do norte”, afirmou.

Além de Gil, a UNE homenageou o ator Antônio Pitanga, o artista visual Paulo Bruscky, o dramaturgo João das Neves, o professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo,  e a antropóloga Debora Diniz. Também foram reverenciados Mãe Stella de Oxossi e Mestre Moa do Katendê.

 

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