Ancestralidade e invisibilidade do escritor negro em debate no fórum de artes e cultura

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Os integrantes da mesa sobre Literatura Negra: Henrique Freitas, Mabel Freitas e Jesiel Oliveira.

A reflexão sobre a influência das culturas africanas e discussões sobre ancestralidade e tempo na literatura brasileira e em outras artes permearam a mesa Literatura Negra, no Fórum Negro de Artes e Cultura (Fnac). Citando Makota Valdina, escritora, pedagoga e importante líder negra brasileira, falecida no mesmo dia que a atividade foi realizada, 19 de março, o professor do Instituto de Letras da UFBA, Henrique Freitas, proferiu uma das frases que mais toca os temas abordados pelos pesquisadores: “Esse tempo ancestral é o tempo de hoje também”.

Durante  a mesa mediada por Mabel Freitas, doutoranda do programa de pós-graduação multi-institucional e multidisciplinar em Difusão do Conhecimento, o professor Henrique Freitas, que concluiu recentemente seu pós-doutorado em Estudos Literários e é docente permanente na pós-graduação em Literatura e Cultura e do mestrado profissional em Letras, falou sobre as contribuições negras na literatura brasileira e como os estudos literários lidam (ou não) com esses ganhos. Sua apresentação foi chamada de “O arco e a arkhé em cinco atos”, em referência a seu próprio livro sobre o tema, “O arco e a arkhé: ensaios sobre literatura e cultura”.

“Quando a gente fala de literatura negra no Brasil, é importante pensar o legado epistemológico africano para os estudos literários. Se omite essa importância na própria formação do campo no país. Nos cursos de Letras pelo país afora quase que invariavelmente se fala de textos escritos e há a priorização de alguns recortes históricos” disse Freitas ao questionar a ideia de que essa denominação segregaria essa parte da literatura. Segundo ele,  A literatura negra consegue manter o diálogo entre com a tradição e o cânone reconhecidos mundialmente e o legado epistemológico africano, a potência da ancestralidade nas literaturas negras e suas próprias tradições e seu próprio cânone. Além disso põe em cheque a literatura feita apenas com papel e caneta.

Freitas também abordou o silêncio sobre os escritores negros e seus diversos níveis de invisibilidade: de invisível, à quase invisibilidade, até o embranquecimento estratégico, citando como exemplos Beatriz Nascimento, Carolina Maria de Jesus, Lima Barreto e  Machado de Assis.

“Se a literatura pode ser definida de maneira concisa e útil com duas palavras, arte verbal, é fundamental ter em mente as variadas amplitudes que as expressões verbais podem abranger, em especial quando irrigadas pelas tradições ‘plurimilenarmente’ multimodais de perspectivas negro-africanas” disse o professor Jesiel Oliveira, professor de literaturas africanas em língua portuguesa do Instituto de Letras e do Programa Multidisciplinar de pós-graduação em Estudos Étnicos e Africanos (Pósafro) da UFBA, também componente da mesa, no início de sua fala. O também membro da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (Abpn), apresentou “Reflexão fanoniana na artes contemporâneas: questões culturais e políticas”, em que ele falou sobre objetos áudio-texto-visuais e sua importância nas literaturas africanas e a influência das obras de Franz Fanon, “Pele negra, máscaras brancas” e “Condenados da terra”, em diversas obras artísticas, principalmente no filme “O tigre e a gazela”, de Aloysio Raulino.

Citando Manuel Rui, escritor angolano, criador da União de Artistas e Compositores de Angola e autor do hino nacional do país, Oliveira falou sobre o os textos falados, ouvidos, vistos, presentes nas culturas africanas e parte da estética de alguns artistas negros da diáspora, mas ainda enigmáticos para quem não conhece as epistemologias africanas. Para o professor, reconhecer essas formas de manifestação da arte são parte importante para a criação de artes que não apenas critiquem, mas também combatam o racismo.

Ao falar sobre o filme de Aloysio Raulino, Oliveira apontou diversos pontos de contato entre Franz Fanon, a obra principal e diversas outras que foram influenciadas pelos escritos do médico martinicano, por exemplo: “O tigre e a gazela” faz menção a um trecho do “Diário íntimo” de Lima Barreto, trecho que mostra a relação entre a mulher branca e o homem negro, um dos pontos tratados por Fanon em “Pele Negra, máscaras brancas”.

Ambos os pesquisadores falaram sobre a importância de analisar obras negras com perspectivas epistemológicas negras, pois as outras podem não contemplar algumas especificidades das literaturas negras. “A literatura negra amplia os limites do que é considerado literário. Omitir a importância do legado epistemológico negro nos impede de reconhecer a potência de uma vasta produção literária, que muitas vezes nem é reconhecida como literária”, disse Henrique Freitas.

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