Mapas como instrumentos de poder: plenária destaca caráter social da cartografia

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Da esquerda para direita, Jussara Rêgo, Jeovah Meirelles, Guiomar Germani e Catalina Toro Perez

“Cartografias são instrumentos de poder. Nós estamos enfrentando essa cartografia do estado, na dimensão de uma cartografia popular, de uma cartografia social, construída para enfrentar conflitos nos territórios”. A fala é de Jeovah Meirelles, professor da Universidade Federal do Ceará, durante a segunda plenária do Congresso Latino-Americano de Ecologia Política, que debateu cartografias das existências, no auditório externo do Instituto de Biologia, em 19 de março.

A reflexão sobre o desenvolvimento de uma cartografia comunitária perpassou as vozes dos demais palestrantes da mesa, assim como problemas sociais que afetam comunidades, no Brasil e América Latina. O poder enquanto prática social, em consonância com o pensamento foucaultiano, foi discutido durante a plenária, que teve ainda nomes como Guiomar Germani, professora da UFBA, Alessandra Korap Munduruku, chefa das Guerreiras do Médio Tapajós, Catalina Toro Perez, da Universidade Nacional da Colômbia. A mediação das palestras ficou a cargo de Jussara Rêgo, do Programa Maricultura Familiar e Solidária (MarSol) do Instituto de Biologia da UFBA.

O trabalho de Meirelles junto ao laboratório de pesquisa Nova Cartografia Social já tem como resultado a elaboração de mais de 80 cartografias, muitas delas, utilizadas como bases para construção de ações civis públicas em prol de comunidades afetadas em razão de grandes construções. A cartografia social aparece como instrumento de resistência para comunidades urbanas, terras indígenas, quilombolas, pescadores, agricultores e artesãos frente à monopolização de recursos ambientais voltados meramente a interesses econômicos. O mapeamento, observa o pesquisador, dá visibilidade ao debate sobre a gestão das águas, do solo, da biodiversidade e das infraestruturas urbanas desses povos frequentemente invisibilizados.

Guiomar Germani, professora aposentada e vinculada ao corpo permanente do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e líder grupo de pesquisa Geografar, que completa 23 anos em 2019, falou que a pesquisa em cartografia realizada no Geografar é feita com participação das comunidades estudadas, “estamos entendendo junto com os sujeitos”. Da pesquisa do grupo, a descoberta que 55% das terras baianas são devolutas, ou seja, pertencem ao Estado, porém estão irregularmente sob o uso de terceiros. Segundo Germani, essas terras são tomadas principalmente por grandes empresas, em detrimento da ocupação de comunidades já instaladas previamente nesses locais.

Alessandra Korap Munduruku, chefa das Guerreiras do Médio Tapajós, e também estudante de direito da Universidade Federal do Oeste do Pará enalteceu a relação entre a população indígena e a natureza. “Sawé!”, expressão que mistura saudação e grito de guerra do povo mundukuru, foi proferida pela chefa indígena, que ostentava a pintura no rosto, utilizada em eventos, festas, lutos ou conflitos.

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Alessandra Korap Munduruku

Ela fez um relato pessoal e emocionado sobre os constantes ataques contra os índios mundukuru. A população, que possui cerca de 10 mil pessoas nas aldeias do médio e alto Tapajós, no Pará, é alvo de ameaças em relação ao seu espaço, água e alimentos, que colocam em risco a autonomia do povo.

“Querem privatizar terra, água, mas será que somente nós podemos brigar pela terra, pelo rio, pelos pássaros, pela onça?  Vamos continuar a ser onças bravas, porque nós temos filhos, nós sentimos dor, onde fere mais. E a ferida não é só no corpo, é na alma. Quando o rio é barrado, nosso corpo sente. Somos vidas e essa vida vem da natureza, vem da terra”, declarou a estudante. “Não deixem a terra morrer, salve nosso planeta também”, convocou à luta.

Catalina Toro Perez, da Universidade Nacional da Colômbia, fez a última palestra da noite e destacou a necessidade de uma geopolítica plural, com empoderamento de questões locais e regionais. Em sua defesa, a priorização da vida em comunidade, a harmonia com a natureza, o respeito às diferenças culturais e de gênero, assim como aos animais e às plantas. Em sua opinião, é necessário o respeito aos direitos da natureza e humanos, existindo uma dependência entre si, “pues los segundos no se pueden dar sin los primeros”.

A defesa da soberania e a responsabilidade a favor do bem comum são necessários a quaisquer nações, refletiu. Para ele, a articulação das resistências se faz fundamental na América Latina, em especial no Caribe, região em que a pesquisadora estudou cartografias das resistências, em prol da autonomia e autodeterminação.

O evento contou também com uma homenagem a Makota Valdina, professora aposentada da rede pública municipal, líder comunitária e militante da liberdade religiosa, que participaria do evento por meio de uma roda de conversa, na terça-feira, 19. Ela foi homenageada com uma salva de palmas, com o auditório em pé.

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