Escola de Enfermagem resgata memórias de ex-alunas que lutaram pela democracia

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Um pouco da história de resistência à ditadura militar no Brasil e da participação de estudantes da universidade na luta pela democracia pode ser cohecido, durante essa semana, no mural interativo instalado na entrada da Escola de Enfermagem da UFBA, no Canela. A atividade resulta do projeto de pesquisa “Construindo o acervo do Núcleo de Memórias da Escola de Enfermagem da UFBA: trajetória de estudantes de enfermagem na luta contra a ditadura”, promovida pelo grupo GERIR – Núcleo de pesquisa em políticas, gestão, trabalho e recursos humanos em enfermagem e saúde coletiva, que é coordenado pela professora Cristina Melo.

Por meio do projeto, foram realizadas entrevistas com ex-alunas de Escola que viveram aquele período e participaram das mobilizações contra a ditadura. Além dos relatos orais, as pesquisas se embasaram também em 466 documentos do período de 1964 a 1985, sendo 363 atas, 68 ofícios, 13 relatórios, 8 declarações, 7 fichas de inscrição, 4 correspondências e 3 editais. Segundo o professor Handerson Santos, organizador da exposição junto com a professora Tatiane Araújo, ambos da Escola de Enfermagem, a exposição é uma homenagem a todas as estudantes que lutaram contra o regime ditatorial. “É um discurso que se opõe à ideia de quem defende comemorar o golpe”, ressalta ele.

Depoimentos de ex-alunas remontam a história de resistência ao regime militar no país

Depoimentos de ex-alunas remontam a história de resistência ao regime militar no país

No mural, as estudantes entrevistadas não estão identificadas, mas, de acordo com o professor Handerson, a ideia é que elas possam dar os seus depoimentos presencialmente, em um evento de homenagem que deverá ser realizado pelo grupo. Os depoimentos revelam, por exemplo, que a Escola de Enfermagem foi utilizada como esconderijo por estudantes de outros cursos da UFBA, por se tratar e uma residência feminina e não ser alvo de ações policiais. Também aparecem neles muitas histórias de mobilizações, passeatas, congressos e reuniões do movimento estudantil.

Outro episódio destacado é o simbólico Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado em Ibiúna, São Paulo, no ano de 1968. O evento foi invadido pelo exército que prendeu muitos dos estudantes presentes, entre eles uma das entrevistadas, que era então estudante da Escola de Enfermagem da UFBA. “Foram oito dias presa na ala feminina do presídio Tiradentes, em São Paulo, acompanhada de outras estudantes. Incomunicáveis, alojadas em uma cela pequena, no chão sem colchonete ou aparelhos de conforto básico, estavam várias mulheres. Faziam suas necessidades fisiológicas em um buraco no chão”, recorda-se.

Segundo o professor, essa mesma estudante foi impedida de renovar a sua matrícula na universidade e não pode concluir o curso de Enfermagem. Em 1969, documento sigiloso enviado ao gabinete do reitor, revelado pela Comissão da Verdade na UFBA, determinava que estudantes envolvidos no episódio fossem impedidos de se matricular, entre os quais estava o nome da referida estudante.

Os depoimentos ressaltam a violência policial ditatorial e a repressão nas ruas, que marcaram toda uma geração. Uma das estudantes entrevistadas, que foi presidente da Comissão de Saúde do Comitê de Anistia e Direitos Humanos, relembrou aquele trágico momento da vida nacional: “Eu viajei pelos presídios do país. Eu via pessoas saindo da tortura babando, com lesão cerebral… Eu vi isso, nessa idade. Eram coisas muito pesadas que eu nunca mais gostaria de presenciar”.

Através do mural, são citadas ainda situações como a clandestinidade de ativistas políticos e a ilegalidade do Partido Comunista do Brasil, bem como a produção do jornal “Classe Operária”, a partir de um simples mimeografo, para distribuição para toda a universidade. O público também tem um espaço para deixar mensagens e trocar ideias. O mural relembra músicas que marcaram toda uma geração, apresentando as letras de canções como “Cálice” e “Apesar de Você”, de Chico Buarque.

O projeto do grupo de pesquisa GERIR foi contemplado pelo edital PROPCI/UFBA 01/2015 “A Ditadura Militar e a UFBA: Ações e Reações (1964/1985)”. Os resultados da pesquisa passarão a compor o Núcleo de Memória da Escola de Enfermagem , que reúne uma série de itens que remontam a história da unidade de ensino. O espaço, que ainda não está aberto para a visitação pública, fica na antiga capela do prédio e conta atualmente com o trabalho de uma equipe do curso de Museologia da UFBA para catalogar documentos e objetos e organizar o espaço.

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