Política, capital, livros e opinião pública: a vida de um editor no Império

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Conexões pouco ortodoxas entre governo, classes dominantes e setores chave da produção cultural, como imprensa e mercado editorial, não são moda dos tempos de hoje. Junto com a circulação de jornais e livros no Brasil no século 19, ainda no Império, nasceram também dinâmicas de cooptação e clientelismo envolvendo grupos políticos, endinheirados capitalistas e editores e impressores, visando o óbvio: manipular a incipiente “opinião pública” brasileira.

PAula Brito LivroAs minúcias desse tipo de relacionamento são o cerne da biografia de Francisco de Paula Brito (1809-1961), “Um editor no Império”, fruto da tese do historiador Rodrigo Camargo de Godoi defendida na Unicamp em 2014, publicada em livro pela Edusp em 2017. Convidado do Fórum de Iniciação Científica em História promovido pelos alunos de pós-graduação em história da UFBA, Godoi, que hoje é professor de história social da Unicamp, esteve em Salvador, no dia 05 deste mês, lançando o livro.

Paula Brito não foi um editor qualquer: publisher de autores que se tornariam clássicos, como José de Alencar (“O Guarani”) e Joaquim Manuel de Macedo (“A Moreninha”), entre outros, foi definido por ninguém menos do que Machado de Assis, após sua morte, como “o primeiro editor digno desse nome que houve entre nós”. Aproximando a lupa sobre esse editor bastante bem conhecido, mas até então pouco estudado, Godoi viu, de saída, que Paula Brito tampouco fora um homem qualquer: negro, filho de libertos há pelo menos duas gerações e bastante “bem situado na sociedade em que viveu”, foi o primeiro editor brasileiro a enfrentar com sucesso a forte concorrência de um mercado de livros e impressos dominado por editores estrangeiros, sobretudo franceses, como o famoso Baptiste Louis Garnier, no Rio de Janeiro capital do Império, entre a primeira e a segunda metades do século 19.

A vida de Paula Brito é narrada por Godoi com um ar de rapsódia surpreendente para o que se espera de um editor de livros. Aos poucos, vão transparecendo as estratégias de sobrevivência e progresso de um homem que, sendo negro e descendente de africanos, teve ele mesmo escravos e era dado a superexplorar o trabalho de seus funcionários; o dia-a-dia do editor que comandava, com pulso firme, a verdadeira Babel de povos e idiomas que era sua oficina tipográfica, “microcosmo que incluía operários estrangeiros, escravas ao ganho e africanos livres”; e as oscilações políticas do jovem originalmente “exaltado”, rótulo do grupo libertário opositor à monarquia no reinado de Pedro I, que, com os anos, transige valores e crenças em troca de financiamento e prestígio social até transmutar-se, enfim, num típico senhor “saquarema”, grupo francamente defensor da manutenção do status quo monarquista, no reinado de Pedro II.

Godoi narra a vida de Paula Brito através de três chaves explicativas que, se, por um lado, diferenciam seu trabalho das biografias em circulação no mercado editorial, normalmente escritas por jornalistas sob encomenda de editores – trabalhos que, salienta Godoi “não são piores nem melhores, mas diferentes” das produzidas a partir de critérios historiográficos, cuja narrativa se estrutura em torno de interrogações de fundo à vida do biografado, os chamados “problemas de pesquisa” – , por outro, não fazem de seu livro menos “biografia”. Recusando a noção de “estudo de trajetória”, bastante em voga nas pesquisas acadêmicas das ciências humanas, Godoi faz questão de afirmar que o que escreve “é biografia sim”. “Trajetória é coisa da física, é o que acontece com uma coisa que sai de um ponto ao outro. O que eu faço é biografia, e é importante afirmar isso se quisermos disputar esse nicho do mercado editorial”, observa.

A biografia de Godoi começa, então, tratando de recuar à história familiar de Paula Brito, mostrando como a “experiência da liberdade” de seus pais e avós, que remonta ao final do século 18, começava a resultar, no início do século 19, na formação de uma “inteligência negra”, que pleiteava, entre outras coisas, representação na burocracia estatal, com um discurso lastreado por uma constituição em que a noção de cidadania não aparecia fundada em qualquer argumento racial.

A seguir, Godoi discute como a modernização da indústria gráfica – cada vez mais dominada pelas caras máquinas de tipos metálicos importadas da Europa, em detrimento das de tipos madeira, mais baratos, mas de qualidade inferior – e da legislação que regulava a produção cultural da época – que garantia o anonimato dos autores, mas não dos editores, fazendo recair sobre esses últimos a responsabilidade pelos conteúdos que punham em circulação – fomentaram a emersão da figura do editor, ao restringir as possibilidades de atuação dos antigos impressores de panfletos e livros sob demanda, produzindo os primeiros capitalistas do ramo: figuras a um só tempo capazes de adquirir o maquinário gráfico e letradas o suficiente para identificar o potencial de sucesso de novos títulos e investir em sua publicação, visando obter lucro com sua venda, num tempo em que a função da literatura era outra. “Literatura, no século 19, era ‘um negócio sério’. Havia a preocupação de explicar o mundo, ninguém escrevia um romance apenas para entreter, como ocorre hoje. Os autores queriam interpretar a realidade e interferir nos processos sociais através da literatura”, porque afinal, observa Godoi, só a partir do final do século é que começariam a se estruturar as chamadas “ciências sociais” da maneira que conhecemos hoje.

Por fim, se a literatura era esse negócio tão importante e lucrativo, certamente não escaparia ao raio de ação das elites políticas e econômicas de seu tempo. Nesse sentido, Godoi mostra que a história de Paula Brito pode ser vista como face aparente de um fenômeno mais profundo: a reconversão de “capitais órfãos” da classe escravocrata, que procuravam novos setores para investir após a proibição do tráfico de pessoas escravizadas trazidas da África, consequência da lei Eusébio de Queirós, de 1850. E como esses capitalistas, no plano econômico, correspondiam, no plano político, aos grupos conservadores que formavam os chamados “saquaremas”, não é difícil entender por que Paula Brito, n medida em que passa a ser financiado por eles, passa a publicar toda uma gama de “romances, peças, jornais a serviço da manutenção da ordem escravista”, relegando a uma imprensa marginal obras “progressistas” das quais ele mesmo havia sido, um dia, um engajado impressor.

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