Pluralidade e a inclusão: três histórias que mostram o poder transformador da universidade pública

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Fernanda Caldas e Lívia Batista

Uma estudante negra, filha de professora de escola infantil e neta de lavadeira, que, através da UFBA, foi escolhida para representar o Brasil num evento em Harvard. Um jovem quilombola que entende que estudar na UFBA é como ter acesso a um “pote de ouro”, cujas moedas de conhecimento ele distribui para quem precisa. Um estudante pataxó que se tornou o primeiro indígena mestre em ciências exatas, que revelas que só veio ao mundo porque, entre uma miríade de outros fatores, a UFBA existe.

O Edgardigtal traz, nesta edição, três perfis de estudantes que mostram a Universidade não como um espaço elitista, e sim, cada vez mais, como um lugar para todos: índios, mulheres negras, quilombolas, brancos, amarelos, transexuais, pessoas com deficiência e outros grupos mais. São histórias que ajudam a entender melhor por que milhões de jovens em todo o país sonham com uma vaga no sistema público federal de educação superior: só no ano passado, mais de 200 mil candidatos concorreram a das vagas dos 105 cursos de graduação da Universidade – a maioria avaliada com notas 4 e 5, as maiores na escala do MEC – e 37,9 mil se matricularam, aumento de 12% em cinco anos.

A UFBA inaugurou as cotas em 2004, após decisão do Conselho Universitário, oito anos antes da obrigatoriedade instaurada pela lei Federal de Cotas (12.711). Ao mesmo tempo, viveu um forte crescimento graças à Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que representou uma nova fonte de recursos federais para as universidades, proporcionando novas vagas tanto para servidores, quanto para alunos.

A raça e a cor dos universitários teve mudanças significativas nos últimos 15 anos, segundo a pesquisa do perfil socioeconômico dos estudantes das universidades federais. Basta olhar para o cenário de 2003, no qual 60% dos estudantes de graduação eram brancos, 39,2% pardos e apenas 5,9% de pretos. Ainda assim, os brancos são maioria, 43,3%, 39,2% são pardos, 12% pretos, 0,9% amarelos e 0,9% indígenas.

Conheça, a seguir, um pouco da história da estudante de psicologia Aniele Berenguer, selecionada para dois eventos internacionais de peso voltados à formação de jovens lideranças em diferentes países. O estudante de ciências da computação Robson Sousa aparece a seguir, contando sua experiência na UFBA e revelando a consciência de ter se tornado um agente de transformação não apenas no seu povoado, em Furadinho, na cidade de Vitória da Conquista, como também na sociedade como um todo. E, por fim, o químico Hemerson Pataxó, orgulho da tribo Pataxó Hã Hã Hãe localizada próximo ao município de Pau Brasil, que se tornou o primeiro estudante indígena a conquistar o título de mestre num curso de ciências exatas, conta como a existência da UFBA tem a ver com o seu próprio nascimento.

Aventuras internacionais de uma estudante de psicologia

A família de Aniele Berenguer, de 22 anos, sempre priorizou o investimento em sua educação. Filha de professora de uma escola infantil e neta de lavadeira, a estudante do quinto semestre do curso de psicologia da UFBA já colhe os frutos pelo apoio familiar e dedicação aos estudos. Ela foi selecionada para dois importantes eventos internacionais entre alguns milhares de colegas. No final de maio, ela embarca para o Girls 20, evento mundial de lideranças para mulheres, no Japão. Em abril, ela representou o país durante o Brazil Conference at Harvard & MIT, nos Estados Unidos.

“Foi uma experiência incrível! Viajei para os Estados Unidos pela primeira vez, conheci duas das melhores universidades do mundo: Harvard e o MIT. Lá encontrei importantes políticos, influenciadores, juristas e empresários brasileiros que discutiram sobre os problemas do Brasil. Isso me fez refletir muito sobre quem tem o privilégio de ser ouvido nesse país. Quem pode bancar ir pra Harvard? Quem tem voz?”, pergunta Aniele.

aniele

Aniele Berenguer

Com uma forte consciência política, Aniele reconhece as desigualdades sociais que atravessam a sociedade e sua trajetória pessoal como mulher negra. “Sou negra, nasci numa família de negros, que também sempre foram presentes no meu bairro, a Boca do Rio, em Salvador, mas, ao entrar numa escola particular, isso mudou. Eu era uma das únicas negras na escola, usava trancinhas no cabelo e pegava ônibus para ir e voltar do colégio. A partir daí passei por experiências de racismo, quanto mais ocupava espaços antes nunca acessados por ninguém da minha família”, conta.

A paixão pelo inconsciente e seus mistérios motivaram a escolha por cursar Psicologia. Mesmo sem ter concluído o curso, ela já atua na área de psicologia Comunitária pelo projeto de extensão da UFBA, o Comucidade – uma Ação Curricular em Comunidade e em Sociedade (ACCS), que desenvolve atividades de psicologia na comunidade do Pilar, no Comércio.

Os pensamentos de Ignacio Martín-Baró, conhecido como pai da psicologia da libertação, cujos pensamentos são voltados ao empoderamento de comunidade, na luta contra a pobreza, na defesa da democracia e da saúde mental, são importantes guias para Aniele.

Em suas experiências em comunidade e com a leitura de Martin Baró, ela afirma ter aprendido muito sobre o papel do psicólogo na conscientização das injustiças sociais e no desnaturalizar das opressões. “É nosso papel agir quando a sociedade é levada a acreditar que racismo não existe ou que na universidade só tem balbúrdia”, diz.

Aniele afirma que viver a UFBA, com suas trocas, eventos e grupos, possibilitaram–na alçar grandes voos, como representar o Brasil em dois importantes eventos internacionais. “A universidade é instrumento de transformação social para pessoas como eu, mulheres negras. É geração de emprego e oportunidades. Nos últimos anos vem desestruturando o sistema que sempre manteve as mesmas pessoas, dos mesmos lugares sociais, acessando o conhecimento. E por isso está sendo ameaçada. Mas já estamos aqui e estamos lutando ao direito a permanência e ao futuro da universidade pública para as próximas gerações”, observa.

Um estudante de ciências da computação que traz seu território para sala de aula

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Robson Sousa

“Eu uso a universidade como um pote de ouro. Eu saio pegando moedas e repartindo com potes que ainda não têm moedas, sabe?” A metáfora escolhida por Robson Sousa, estudante quilombola do curso de ciência da computação da UFBA, mostra que ele entende como poucos o significado da universidade pública.

Nascido na comunidade de Furadinho, em Vitória da Conquista, filho da empregada doméstica Elizabete Gomes, o estudante é uma referência para os mais jovens da sua comunidade.

O caminho que parece natural aos jovens de Furadinho após a conclusão do ensino médio é o ingresso imediato no mercado de trabalho, formal ou não. Apesar de a comunidade receber a visita de alguns pesquisadores, a entrada na Universidade ainda é algo distante para os moradores do local, que fica nas proximidades do distrito de Iguá, zona rural de Vitória da Conquista. Não é muito comum por lá o sonho de ser pesquisador, conta Robson, um dos poucos de sua comunidade que chegou a transpor uma barreira de exclusão educacional histórica.

“Era muito distante a ideia de fazer curso superior”, recorda. Ainda assim, ele se tornou o primeiro homem de sua família a entrar numa universidade federal. Antes dele, duas primas que moram em São Paulo ingressaram ensino superior, “mas elas tiveram outra condição”, reconhece. Se eu não me engano, fui o terceiro da minha comunidade em um curso superior”, fala Robson.

Na UFBA, Robson foi um estudante ativo, com passagens pela iniciação científica, empresa júnior, coletivos. Ele, inclusive, é um dos fundadores do Coletivo de Estudantes Quilombolas da UFBA (Codequi). Todo esse engajamento estimulou o desejo pela carreira docente, na busca de ser referência dos próximos estudantes negros a entrar no curso. Robson deseja seguir a carreira de professor universitário, para ser uma referência para os próximos estudantes negros que desejem entrar no curso.

Sobre a escolha do curso de ciências da computação, ele afirma que a única referência próxima foi seu professor de informática. “Não tinha nenhuma referência na família. Minha mãe queria que eu terminasse o ensino médio, quando eu passei na faculdade ela falou pra mim ‘Robson, eu não sei em que isso vai impactar na sua vida, mas o que posso fazer é te dar apoio’”.  Segundo o estudante, o quilombo também ecoa, de outro modo, as palavras de sua mãe. “Hoje eu já vejo uma diferença, quando eu chego na minha comunidade, os professores do curso pré-vestibular quilombola me usam como exemplo”, orgulha-se.

A consciência social e política atravessa a fala de Robson, que reconhece o prejuízo de um país com mais de três séculos de escravidão e que, ainda assim, construiu fortes bases a partir do mito da igualdade racial, premissa que contribui ainda hoje para perpetuar desigualdades raciais.

“Quando eu entrei em computação dava pra contar nos dedos quantas pessoas eram pretas”, observa. Os professores negros, da mesma forma, eram minoria: “Quatro ou cinco. Ainda é um número pequeno”. Porém, o baixo número de representantes negros, em comparação com o de brancos, em espaços de poder é um motor para a motivação do estudante. “Isso me motiva a seguir a carreira de docência, para que a dificuldade de representação que eu tenho em sala de aula seja uma dificuldade menor para quando outros estudantes pretos quilombolas cheguem na universidade”, destaca.

O estudante reflete que o maior papel da universidade está relacionado com o desenvolvimento do pensamento crítico. Ele conta que percebe mudanças dentro da sua própria família desde que ele começou a estudar na UFBA. “Muitas pessoas veem a universidade apenas como espaço de crescimento técnico, mas não é esse o papel dela. Talvez o maior papel da universidade seja fazer com que as pessoas sejam mais críticas.”

Um mestre na tribo: um químico também usa cocar

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Hemerson Pataxó

Diante das turbulências dos novos desafios, todos procuram algo para ser seu porto seguro, o primeiro  da trajetória acadêmica de Hemerson Pataxó foi a sua família. O estudante da pós-graduação em química orgânica acredita que sem sua família não teria chegado onde está.

Ele foi o primeiro estudante indígena a conquistar o título de mestre num curso de Ciências Exatas. A defesa da dissertação “Análise Quiométrica dos dados de RMN de cafés da região da Chapada Diamantina/Bahia” aconteceu neste mês de maio e foi noticiada em sites como o Correio e Razões para Acreditar, repercutiu bastante nas redes sociais.

“Hoje compreendo que o incentivo mais importante vem de dentro de nós, pois a aprendizagem é um processo solitário. Contudo, a família é quem oferece o apoio mais importante para que o indivíduo possa acreditar que ele é capaz”, avalia. Ele fez todo o ensino médio em sua aldeia, na tribo Pataxó Hã Hã Hãe, cujo município mais próximo é Pau Brasil e fica, em média nove horas de distância de Salvador. Aprovado em Química aos 18 anos, ele seguiu para a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), onde se formou.

Hemerson diz que a escolha do curso de graduação, inicialmente, não tinha um significado claro. A sugestão foi dada por um parente indígena e professor de matemática, já que o estudante se interessava pela área de ciências exatas e se interessava por trabalhar no pré-sal. Foi no decorrer do curso que a sua paixão amadureceu e ele começou a buscar algo que remetesse à sua origem.

“Conheci a área de química de produtos naturais por meio da professora da Uesc Rosilene Aparecida de Oliveira, que trabalhava (e ainda trabalha) no estudo de plantas com potenciais terapêuticos. Foi como se houvesse descoberto um “novo mundo” na química. Passei a fazer parte do grupo de pesquisa e comecei a minha primeira iniciação científica, onde trabalhei por dois anos, aprendendo as técnicas de química orgânica em produtos naturais, até concluir o curso”, afirma.

De acordo com Hemerson, chegar à universidade era, e ainda é, um desafio para as pessoas da sua aldeia. Mesmo que já houvesse algumas pessoas com diploma de graduação, a aldeia ainda não tinha um mestre acadêmico. Ele diz que as cotas ajudaram a diminuir o degrau que os indígenas tinham que enfrentar para chegar à universidade, mas que ainda assim existem outros obstáculos, entre eles o preconceito dos que acham que “lugar de índio não é na universidade”.

“Antes da UFBA, sempre me via como o único em um espaço tão grande e tão cheio de gente que não fazia a mínima ideia da minha história e da história do meu povo. Aprendi, por meio da organização e histórico de lutas, conquistas e reconhecimentos por parte da Universidade, dos meus parentes indígenas de diversas etnias ali presentes, que ali era também um espaço de luta e reivindicação. Foi no Núcleo de Estudantes Indígenas da UFBA que pude me reconhecer como liderança indígena e perceber que eu também tinha uma responsabilidade social forte com minhas origens, simplesmente por estar ocupando aquele espaço.”

Ele reconhece a UFBA como um rico espaço para o desenvolvimento científico, tecnológico e social, com diversidade de ideias e áreas de estudo. Na sua própria história e de sua família, o trabalho de pesquisadores da UFBA se mostrou um divisor de águas, que possibilitou não apenas um grau de mestre, mas também, de modo não tão direto, seu nascimento.

“Antes mesmo da minha existência, projetos, estudos e laudos de antropólogos desta universidade na década de 80 permitiram o desenvolvimento de ferramentas jurídicas de apoio à luta das lideranças de meu povo, no retorno para a terra que lhes é de direito. Ocasião em que meu avô (e a família que ele havia construído fora da aldeia após grileiros expulsarem os povos originários de seus territórios) também pôde retornar e, a partir daí, os povos que haviam se espalhado nos municípios próximos também puderam retornar às origens. Um tempo mais tarde, meu pai conheceu minha mãe dentro da aldeia, e eu nasci.”

 

 

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