Universidade alerta para a circulação de ‘fake news’

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Imagem real que foi utilizada para veicular notícia falsa.

A recente circulação de um boato, em estilo jornalístico, em um aplicativo de mensagens anunciando a construção de uma estufa agrícola para cultivo das espécies Cannabis sativa (maconha) e Erythroxylum coca (planta base para a cocaína), no campus de Ondina da UFBA, mostrou que a Universidade também pode ser alvo da produção de fake news – notícias falsas, que tudo indica terem como objetivo a desqualificação das universidades públicas brasileiras.

De acordo com pesquisadores da área da comunicação, política e redes sociais, a estratégia de produção e circulação de fake news integra uma campanha de disseminação de histórias inventadas, valendo-se de vídeos e imagens que sugerem maldosamente que, nas universidades públicas, praticam-se orgias, consumo de drogas, protestos com nudez e trabalhos acadêmicos com temas polêmicos, que seriam, supostamente, atividades corriqueiras.

O professor da Faculdade de Comunicação da UFBA e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), Wilson Gomes, afirma que “há uma indústria de produção de fake news, em atividade atualmente”. De acordo com ele, “geralmente, dois ou três sujeitos – que podem ser administradores de grupos da extrema direita, no aplicativo de mensagens WhatsApp – têm a função de produzir histórias, conforme o interesse desses grupos, para fazê-las circular em forma de memes e outros formatos nas diversas redes sociais como Facebook, Twitter e Youtube”.

Gomes reforça que “esse é um trabalho dedicado e articulado, norteado por pautas que favoreçam grupos de extrema direita que saem à caça de fotos e imagens que possam reforçar os fatos inventados”. Tal estratégia de “criação de narrativas” obedece a um propósito específico e orquestrado, acrescenta a doutoranda do Programa de Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA Tatiana Dourado, que pesquisa o fenômeno da propagação das fake news como estratégia na campanha eleitoral de 2018.

Dourado explica que é feita a “utilização de imagens verdadeiras, mas sem a apresentação do contexto original em que foram captadas, a fim de disseminar a desinformação nas redes sociais”.  “Eles valem-se de várias características para compor um conjunto e formar uma narrativa capaz de enganar os receptores da mensagem”, e assim, “lançam notícias falsas que passam dos vários grupos do WhatsApp para outras redes e alcançam a sociedade”.

Foi exatamente isso que aconteceu no caso da “estufa em construção na UFBA”: os idealizadores da notícia falsa utilizaram uma imagem real de uma tenda que havia sido montada para as atividades do 4º Fórum de Direitos Humanos e Saúde Mental, realizado recentemente no campus de Ondina. O texto também mimetizava elementos típicos da escrita jornalística, trazia falsos dados específicos (financeiros e temporais) e declarações inventadas atribuídas ao reitor da UFBA, além de colocar a suposta “estufa” sob a responsabilidade de uma pró-reitoria fictícia.

Para Gomes, todos “esses procedimentos são normais em grupos que querem apenas reforçar o seu ponto de vista e ficam à espreita, caçando imagens ou qualquer elemento que possam usar para fortalecer pontos polêmicos, entre seus seguidores”.  Ele também acredita que a recente fake news relacionada à UFBA integra uma movimentação direcionada às universidades e que foi detectada por pesquisadores da área, nos últimos meses.

Universidades como alvo

Após os primeiros anúncios do Ministério da Educação sobre o bloqueio de verbas discricionárias para as instituições federais de ensino superior, no dia 30 de abril, os pesquisadores da área identificaram, nos primeiros dias do mês de maio, um aumento da circulação de mensagens com temáticas ligadas especificamente às universidades em diversos grupos do aplicativo WhatsApp. A tendência de disseminação de histórias e fatos descontextualizados, que permaneceu por vários dias durante aquele mês, ainda persiste.

O alerta foi dado pelo pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Fabrício Benevenuto, em seu perfil na rede social Twitter, que observa alguns desses grupos em sua pesquisa e os analisa usando a ferramenta Monitor WhatsApp. Benevenuto, que é professor de ciências da computação e criador do projeto Eleições sem Fake, contou que não contabilizou os dados observados, mas apontou o levantamento realizado pela plataforma multimídia de checagem de fatos Aos Fatos, que verificou o crescimento do compartilhamento desses conteúdos em pelo menos 950% em 24 horas, nos dias 1º e 2 de maio”.

A plataforma Aos Fatos, que acompanhou 350 grupos de WhatsApp, observou que “as publicações usam imagens e gravações para criticar as universidades e elogiar o bloqueio orçamentário feito pelo MEC. Elas mostram, em sua maioria, universitários nus, em protestos, festas e apresentações artísticas que ocorreram em contextos diversos, em anos diferentes e situações pontuais, o que não é alertado nos posts. Há também capas de dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre gênero e sexualidade que foram compartilhadas sem detalhar o conteúdo das pesquisas”.

Tanto Dourado como a plataforma Aos Fatos identificaram “táticas que soavam similares às das eleições de 2018, em que centenas de grupos passaram a espalhar, pelo WhatsApp, imagens que reforçavam a ideia de que as universidades públicas se tornaram lugar de bagunça”.

Como as fake news nascem e viralizam

Por mais que as notícias sejam falsas, elas não são aleatórias, pois se nutrem de um certo medo já existente no imaginário coletivo. “As notícias são falsas, mas são baseadas em medos reais das pessoas, por isso, é necessário entender como funciona o modo como elas apreendem o sentido dessas mensagens, sentem-se motivadas a compartilhar em outros grupos e, assim, as mensagens viralizaram”, ponderou o pesquisador integrante do Grupo de Pesquisa de Comunicação e Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro João Guilherme Santos, em seminário  sobre o tema realizado na Faculdade de Comunicação da UFBA recentemente.

Santos afirma que “o medo junta-se à informação e assim abre caminho para uma reversão cognitiva e utilização de uma tática de guerra do terror”. O pesquisador, que realizou um estudo com cerca de 400 mil mensagens circuladas em 90 grupos do WhatsApp, constatou a existência de uma “necessidade de alcançar segmentos propensos a acreditar em fake news – e, neste ponto, o aplicativo tornou-se um paraíso para a disseminação de notícias falsas – pois junta o anonimato da fonte original à criptografia de ponta a ponta, viabilizando a viralização da exposição”. Então, “efetiva-se uma alta exposição para viralizar conteúdos em alta escala”, conclui.

Proteção contra fake news

É possível proteger-se das fake news observando alguns cuidados ao tomar conhecimento de informações com um quê de espetacularidade:

1- Checar a fonte – Notícias falsas não são divulgadas por jornalistas respeitáveis ou meios de comunicação tradicionais importantes, mas sim por operadores de canais de redes sociais e blogs diversos. Fake news até contêm fontes, mas costumam ser vagas e geralmente não são rastreáveis e até inexistentes. Portanto, verifique nos sites oficiais e, se possível, entre em contato por telefone com a instituição citada.

2- Pesquisar – Atualmente, empresas como Facebook e Google já estão com recursos para evitar que informações falsas sejam postadas ou encontradas no mecanismo de busca. Existe ainda outra maneira de pesquisar se estiver em dúvida sobre determinado assunto. Basta digitar o tema e colocar a palavra boato/hoax na sequência. O Google automaticamente lista todas as notícias falsas que foram divulgadas acerca do assunto.

3- Denunciar – Para impedir que notícias falsas sobre alguma organização ou pessoa se espalhem rapidamente, é possível solicitar que o boato seja retirado imediatamente do ar, denunciando pelas ferramentas específicas, disponibilizadas pelo Facebook, Twitter, site ou blog.

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