As voltas que a pesquisa dá: a pianista que veio do Canadá para estudar colaboração musical

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(Foto de capa: Lia Sfoggia)

 Foto: Jonathan Bewley

Foto: Jonathan Bewley

O estudo de metodologias para a colaboração na música, em especial entre compositores e intérpretes, é o foco da pianista Luciane Cardassi, que desde 2018 é professora visitante na UFBA. Ela, que se destaca como intérprete da chamada música de concerto contemporânea para piano, é graduada na USP, fez mestrado na UFRGS e é doutora em música contemporânea pela Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA).

Luciane Cardassi é a terceira personagem da série “As voltas que a pesquisa dá” do Edgardigital, que traz perfis de professores visitantes estrangeiros de três diferentes áreas – matemática, imunologia e música. Nas últimas semanas, contamos a história do bioquímico Néstor Guerrero, espanhol de Tenerife, nas Ilhas Canárias, que escolheu a Bahia como mais uma parada de sua “vida nômade” de estudos no campo da imunologia; e a odisseia do matemático russo Vladimir Pestov, que desembarcou em terras baianas para desenvolver estudos nas complexas áreas de aprendizado de máquina e dinâmica de grupos de dimensão infinita.

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Luciane Cardassi (Foto: Rita Taylor)

A carreira de pianista fez com que Cardassi, de 53 anos, nascida em Araçatuba, interior de São Paulo, ganhasse o mundo. Por 12 anos, ela viveu em solo canadense e desenvolveu projetos em obras multimídia com compositores, instrumentistas e artistas plásticos no Banff Centre for the Arts, na cidade de Banff. No país, ela integrou também o grupo de música contemporânea Rubbing Stone, de Calgary. Em intercâmbio com sua terra natal, criou e desenvolveu por 10 anos o projeto Going North, em que participou do processo criativo de mais de 30 peças musicais com compositores do Brasil e do Canadá.

O foco da pianista não é o repertório clássico romântico, ou o de música popular, muito menos o tradicional do piano. A artista atua na área de música de concerto contemporânea. “É uma música que está sendo criada nos dias de hoje, em colaboração com outros artistas”, explica. A característica é o não isolamento e o namoro com outras áreas. “Recentemente, trabalhei num projeto multimídia, que envolveu dança, composição e música para piano, vídeo, projeção e sons eletroacústicos disparados na hora”, conta.

A oportunidade de voltar ao Brasil, por meio do edital de professores visitantes da UFBA, foi vista por Cardassi com otimismo. Ela, que havia dedicado mais de 20 anos de sua carreira ao mercado musical, ao mesmo tempo estudava o processo colaborativo de produção das peças de modo independente do ambiente acadêmico. “Era pesquisadora independente e pianista freelance”, recorda.

“Eu sempre escrevi sobre meu processo de aprendizagem de peças do repertório contemporâneo, assim como escrevi sobre o processo de colaboração com outros artistas. Já vinha pensando em enraizar esse trabalho e estava na hora de trazer para o meio universitário”, conta a pianista, que, mesmo afastada do ambiente universitário, escrevia artigos, fazia concertos e palestras em universidades do Brasil – entre elas, a UFBA -, e do exterior. Uma dessas colaborações, de 2016, foi com o compositor Paulo Rios Filho, doutor em música pela UFBA. “A peça é sobre a tradição cultural das rezadeiras. Digamos que, na época, eu já vinha flertando com os compositores da Bahia”, brinca.

Na UFBA, a pesquisa de Cardassi busca respostas para uma questão: como se colabora no campo musical de concerto contemporâneo? “Como podemos refletir sobre uma metodologia do processo de colaboração? Porque isso não existe ainda, uma teoria de um processo que acontece na prática. Existem sim relatos de experiência de pessoas que colaboram, mas não vejo, na área de música de concerto contemporânea, uma discussão mais aprofundada sobre os processos de colaboração.”

Ela cita o premiado professor da UFBA Paulo Costa Lima, que fala sobre o ensino da composição. Para ele, “composição talvez não seja algo ensinável, mas é aprendível”. Cardassi pega de empréstimo a frase e adapta para sua área de estudo. “Eu acredito que colaboração também não seja algo ensinável, mas espero que seja aprendível”, reflete.

Musicista da área de performance, “mas com o pezinho na composição”, ela conta que seu interesse de estudo surge porque o trabalho musical envolve sobretudo pessoas, o que se afasta da visão antiga do pianista a estudar por horas, sozinho.

Não é só da visão de pianista, trabalhando isolada, que Cardassi se afasta. Enquanto pesquisadora, professora e musicista, ela explora ferramentas para estudar e ensinar o processo colaborativo, foco do Ateliê de Composição e Performance Contemporânea, disciplina que Cardassi ministra ao lado do compositor Guilherme Bertissolo, na pós-graduação em música (PPGMUS) da UFBA. “Usamos elementos não só da área de colaboração – existem poucos, é uma área pioneira ainda –, estamos tentando aprender com outras áreas.”

O trabalho teve início no primeiro semestre de 2018, quando Cardassi chegou na UFBA. Ao lado de Bertissolo, já apresentou resultados no Congresso da UFBA 2018, no VI Congresso da Associação Brasileira de Performance e no Encontro de Música Contemporânea de Natal. Em maio, eles estiveram no XIV Simpósio Internacional de Cognição e Artes Musicais, junto com a dançarina Lia Sfoggia, doutora pelo Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da UFBA. Nesse último, foi exposto o processo de colaboração entre os três no projeto Converse, performance exibida em outubro de 2018, na reitoria da UFBA.

Na disciplina da pós-graduação, mestrandos e doutorandos, entre os quais compositores e intérpretes, unem-se na criação de projetos. Divididos em grupos, ao final do semestre, eles apresentam os resultados na Escola de Música. Comprometidos com os projetos da disciplina, mesmo um ano depois da conclusão da matéria, esses grupos voltaram a ser reunir, mostrando que não é só em notas que o estudante está preocupado.

Como uma boa pesquisadora, Cardassi não espera encontrar uma receita fechada sobre o estudo em colaboração. “As pessoas são diferentes e mesmo com as mesmas pessoas, cada colaboração vai ser diferente. O objetivo é oferecer áreas, bibliografias, focos de pesquisa, em que as pessoas tenham uma preparação para desenvolver seu próprio trabalho colaborativo.”

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Primeira turma do Ateliê, em apresentação no auditório da Escola de Música, em julho de 2018.

O contrato de Luciane Cardassi na UFBA se estende até março de 2020. Sobre o edital de professores visitantes da UFBA, ela enaltece a visão da Universidade em “ter criado esse edital num momento já bem complicado do país, de ter aberto as portas pra profissionais de outros lugares virem aqui não só compartilhar as suas áreas de experiências, mas também aprender com os profissionais daqui.” Em sua visão, internacionalizar é uma via de mão dupla, “no sentido de levar para fora e não só trazer para a UFBA”.

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