Estudo de primatas, com participação baiana, vê 60% das espécies em risco de extinção

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A maioria das espécies de primatas no mundo corre risco de extinção. É o que afirma um estudo publicado recentemente pela revista norte-americana Science Advances, da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), uma das principais publicações internacionais de divulgação científica, assinado por 31 cientistas de diversas partes do mundo. Destes, apenas três são brasileiros – um deles, um jovem pesquisador da UFBA: Ricardo Dobrovolski, professor do Instituto de Biologia.

O artigo, intitulado “Impending extinction crisis of the world’s primates: Why Primates Matter” [Iminente crise de extinção dos primatas do mundo: por que os primatas são importantes], saiu na edição de janeiro da revista e informa que cerca de 60% das 504 espécies de primatas catalogadas correm risco de desaparecer. Os primatas são um grupo de mamíferos que compreende macacos, símios, lêmures e os seres humanos – ou seja, estamos falando de nossos parentes mais próximos na árvore da vida.

Mas o parentesco não ajuda, pois é justamente em ações humanas que residem os principais fatores de risco. A mais grave delas é a devastação de florestas densas, um fenômeno mundial que pode ser demonstrado nos exemplos brasileiros da Mata Atlântica, que hoje só tem aproximadamente 14% de sua cobertura original, e da Floresta Amazônica, que ainda tem cerca de 82%, mas que segue sendo devastada. Geralmente, grandes desmatamentos têm como objetivo a criação de rebanhos e a plantação de monoculturas – no Brasil, os grandes vilões são gado e soja, respectivamente. A caça também é outro fator agravante. “E esses fatores se retroalimentam”, explica Dobrovolski, criando ciclos viciosos de destruição. “Quando uma floresta diminui, ela se torna mais acessível, o que facilita a caça e, por sua vez, aumenta o risco de extinção dessas populações isoladas de primatas.”

O estudo mostra ainda a importância dos primatas para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas de florestas. Além de terem seu lugar no equilíbrio da cadeia alimentar, eles atuam como agentes semeadores de árvores de grande porte, cujas sementes costumam ser maiores e mais pesadas. “Os primatas têm um papel importante de fazer a dispersão das sementes grandes. Sem isso, espécies importantes de plantas ficam mais restritas e podem até mesmo vir a desaparecer”, observa Dobrovolski. Além disso, por serem as espécies mais próximas do homem, os primatas são fundamentais para estudos evolutivos, que nos ajudam a saber mais sobre nós mesmos.

O artigo da Science Advances é basicamente um compilado geral da bibliografia recentemente publicada sobre primatas por pesquisadores de diversas partes do mundo. O professor Dobrovolski não é propriamente um primatólogo (especialista em primatas), mas tem publicado, nos últimos anos, estudos sobre as condições da biodiversidade em grandes ecossistemas, como as florestas, em escala global.

Um desses trabalhos saiu em 2014 no Journal of Animal Ecology, em co-autoria com Sidney Gouveia, da Federal de Sergipe, que também co-assina o artigo da Science Advances. Eles mostraram que os primatas necessitam de florestas com grande biomassa e complexidade para se desenvolverem. Isso despertou a atenção e o convite do autor principal do artigo da Science Advances, Alejandro Estrada, importante primatólogo, da Universidade Nacional Autônoma do México. Além de Dobrovolski e Gouveia, Andreas Meyer, da Federal do Paraná, é o terceiro coautor brasileiro do artigo.

Dobrovolsi tem 35 anos e, desde julho de 2013, é professor do Instituto de Biologia da UFBA, onde conduz pesquisas no Laboratório de Ecologia e Conservação. Um ano antes, ele concluiu o doutorado em Ecologia e Evolução na Universidade Federal de Goiás, orientado pelo professor José Alexandre Felizola Diniz Filho, um dos principais especialistas do país na área.

 

Quatro espécies brasileiras

Desde 2010, o Brasil vem ocupando quatro posições em um triste ranking mundial: o das 25 espécies de primatas mais ameaçados do mundo, atualizado a cada dois anos pelo IUCN SSC Primate Specialist, grupo que reúne a comunidade científica mundial especializada em primatas. Uma delas é o Callicebus barbarabrownae, o guigó-da-caatinga, espécie de macaco distribuída pela caatinga baiana. As outras são o Sapajus flavius e o Cebus kaapori, duas espécies de macaco-prego muito encontradas nas regiões Norte e Nordeste; e o Alouatta guariba guariba, uma subespécie do bugio-ruivo, comum na Mata Atlântica.

No quesito desmatamento, o Brasil ainda é o campeão mundial. Embora tenha conseguido reduzir o ritmo de encolhimento da Amazônia – de mais de 27 mil km² ao ano em 2004 para menos de 4.600 km² em 2012 –, o país retrocedeu no assunto com a aprovação do novo Código Florestal, também em 2012, que elevou novamente esse ritmo (em 2016, foram cerca de 8 mil km² devastados). E se a atenção dada à Amazônia já é insuficiente, outros tipos de ecossistema, como o Cerrado e a Mata Atlântica, recebem menos cuidado ainda – e, por isso, seguem sendo violentamente desmatados.

Ricardo Dobrovolski chama a atenção para o fato de que, na origem das motivações que levam à destruição de florestas e outras práticas que destroem os habitats dos primatas, está todo um modo de vida humana baseado em hábitos de consumo predatórios ao meio ambiente. Por exemplo: os óleos de soja e de palma, dois dos principais produtos plantados em florestas desmatadas no mundo, estão envolvidos em cadeias produtivas que vão de biscoitos ou batons até o biodiesel. “Se colocamos em risco os primatas, que são nossos parentes mais próximos e se parecem com a gente, imagina o que não fazemos com outros organismos?”, pergunta-se o biólogo.

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