Museu de Arte Sacra comemora 60 anos ao som de históricas peças musicais baianas

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Madrigal e Orquesta Sinfônica da UFBA, sob a regência de José Maurício Brandão.

Santuário de preservação da arte sacra luso-brasileira, abrigando a maior coleção do país, o Museu de Arte Sacra (MAS) da UFBA comemorou 60 anos na última sexta-feira, 09 de agosto. Para celebrar, um concerto da Orquestra Sinfônica e do Madrigal da UFBA, sob a regência do professor José Maurício Brandão, tocou peças musicais baianas dos séculos XVIII a XXI para um público que lotou a Capela do Museu.

O reitor João Carlos Salles fez a abertura do evento e falou sobre a importância do espaço, um patrimônio cultural, de ensino e aprendizagem. Ao festejar a vida do Museu, afirmou que se celebrava também a história da UFBA e, em alusão ao atual quadro nacional, defendeu que a preservação do ensino superior, público e de qualidade, é um dever de todos.

Há 20 anos na direção do Museu, o professor Francisco Portugal afirmou que a importância do Museu de Arte Sacra se faz pela cultura ser irmã da educação. “Desde seus primórdios, esse era o entendimento. Hoje, o Museu se mantém em nível nacional e internacional como um dos mais importantes de arte sacra de todas as Américas”, disse, orgulhoso. Dessa forma, “comemoramos a importância de o Museu ter nascido, crescido e se mantido com toda dignidade nesses 60 anos”, observou.

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Ilustração do Convento de Santa Tereza feita pelo arquiteto inglês Edmund Thomas Blacket (1817-1883), em 1842.

Localizado na rua do Sodré, próximo à Praça Castro Alves, o Museu e seu acervo possuem uma história antiga, que remete ao Brasil Colônia. Instalado no antigo Convento de Santa Teresa D’Ávila, foi fundado pelas Carmelitas Descalças, em 1697. Abrigou o Seminário Arquiepiscopal e serviu também de alojamento para as tropas portuguesas nas lutas pela Independência da Bahia. Desligado da ordem em 1840, ficou abandonado e em ruínas até 1959, quando o primeiro reitor da UFBA, Edgard Santos, instalou no local o Museu de Arte Sacra (MAS), por meio de um convênio com a Arquidiocese de Salvador da Igreja Católica, que deu origem ao primeiro museu universitário da Bahia. A construção e seu acervo são tombados como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1983.

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A soprano Eneida Lima

O madrigal e a orquestra sinfônica da UFBA iniciaram o espetáculo com a conhecida “Cantata Acadêmica”, a Heroe, egrégio, douto, peregrino, a mais antiga peça de música vocal profana com texto em português já encontrada no Brasil, interpretada no evento pela soprano Eneida Lima. Produzida em 1979, a composição tem origem desconhecida, porém é atribuída ao padre e maestro Caetano de Melo de Jesus, mestre de capela da Sé-Catedral de Salvador.

Depois, o ano de 1835 foi revisitado por meio do “Memento baiano”, de autoria de Damião Barbosa de Araújo, seguida por “Oniça Orê” de 1981, de composição de Lindembergue Cardoso. A noite foi encerrada com “Protofonia”, de autoria do professor Paulo Lima da UFBA, de 2019, que introduziu o Hino ao Senhor do Bonfim (1923), dos autores Arthur de Salles e João Antonio Wanderley.

A igreja localizada dentro do Museu foi o palco do concerto. O interior do templo possui uma coroa de consolos em arenito e o altar-mor atual, de prata, é proveniente da antiga Sé, demolida em 1933. Um dos exemplares mais significativos da arquitetura seiscentista brasileira, a igreja abriga também a sacristia, coro, capela interior, refeitório e biblioteca com cerca de cinco mil títulos, disponíveis para consulta. O conjunto dispõe de 16 salões, 12 salas, 10 celas, longos corredores e galerias e duas escadarias de pedra com painéis de azulejos do século XVII nas paredes, cem portas e 146 janelas. A área total construída é de 5.261 metros quadrados, em uma área livre de 8 mil metros quadrados.

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Capela do Museu de Arte Sacra

Com assessoria e supervisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), qualquer restauração do conjunto arquitetônico é feita pela UFBA. Em consequência, o local é também um importante instrumento de investigação científica e disseminação de conhecimento à comunidade acadêmica e à sociedade por meio de cursos, pesquisas e visitações, que chegam, em média, a cinco mil por ano.

O convênio com a Igreja Católica, que foi um marco do início das atividades do Museu, foi renovado por mais 60 anos em novembro de 2017, por meio de assinatura entre o reitor João Carlos Salles e o arcebispo da Arquidiocese de São Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger.

Visitar o Museu é uma experiência completa de passeio à história. É possível ouvir música sacra de dentro da igreja e nos salões. Do jardim, uma vista privilegiada para a Baía de Todos os Santos. O funcionamento do Museu é de segunda a sexta, de 11h às 17h30. Durante os fins de semana, o local é disputado para celebração religiosas e festejos pessoais, a exemplo de casamentos. O espaço da igreja é de 140 pessoas, e a área externa pode receber até 400 pessoas.

Um dos mais importante acervos de arte sacra do mundo

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Nossa Senhora das Maravilhas

A coleção do Museu é composta por pinturas, azulejarias, ourivesaria, mobiliários, imaginárias religiosas, entre outros. A obra de Nossa Senhora das Maravilhas é um dos destaques. Presente de Dom João III à recém-descoberta Terra de Santa Cruz, foi trazida pelo primeiro Bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha em 1552. Alguns milagres são associados à imagem, entre eles, o “estalo” do padre Antonio Vieira. Considerado o maior pensador da língua portuguesa nos séculos XVI e XVII, ele tinha fortes dificuldades de aprendizagem quando jovem. Após rezar aos pés da imagem, teria tido o “estalo” na cabeça e se tornado um homem sábio, com facilidade para questões intelectuais.

Nossa Senhora de Mont Serrat, de autoria de Frei Agostinho da Piedade, de 1636, é outra obra que se destaca. Reconhecido como maior ceramista do século XVII no Brasil, o monge do Mosteiro de São Bento foi o primeiro escultor brasileiro a assinar e datar suas peças. Também de Frei Agostinho, o busto relicário de Santa Luzia, 1630, tem a cabeça de barro e o corpo fundido em chumbo, revestido de prata com esmeraldas e arabescos esculpidos. Estima-se que foi a primeira fundição feita na Bahia e talvez no Brasil. Obras do acervo permanente abrangem os séculos XVI, XVII, XVIII e parte do século XIX. Exposições temporárias também são realizadas numa área específica do Museu, que recebe apresentação dos trabalhos de conclusão de curso de alunos da graduação e pós-graduação em Artes Visuais, Museologia e áreas afins.

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