Ações Afirmativas, 15 anos: cotistas tornam-se profissionais a serviço da comunidade

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O médico André Luís Melo e a psicóloga e professora universitária, Paula Gonzaga – ambos foram estudantes cotistas e formados em cursos da UFBA.

A serviço da comunidade, em áreas como saúde e educação, o médico André Luís Melo e a psicóloga e professora universitária Paula Rita Bacellar Gonzaga são exemplos de profissionais atuantes. Ambos foram formados em cursos da UFBA, cujo acesso se deu mediante as políticas afirmativas de reserva de vagas por cotas sociais, e são os personagens de mais uma matéria da série comemorativa dos 15 anos de Ações Afirmativas na Universidade Federal da Bahia.

Tanto André quanto Paula são oriundos de famílias de classes populares, residentes em bairros periféricos da cidade de Salvador. São negros e cursaram a educação fundamental e ensino médio em escolas públicas. Gostavam muito de estudar e, durante a vida escolar, manifestaram interesse por uma disciplina específica, que lhes despertou o desejo pelos cursos superiores que lhes levariam às suas profissões.

Para eles, as cotas permanecem sendo necessárias, pois, na visão do médico André, “nosso país não construiu ainda uma mudança efetiva na educação pública que dê condições a todos para ingressarem igualmente no ensino superior público”. Ele também garante que “nunca foi demérito ser cotista, pois fazia esforço para ter um bom desempenho, apesar de ser considerado que não tinha ‘cara de médico’”.

A psicóloga Paula também defende que “a política de cotas é um passo fundamental para se pensar em dirimir as desigualdades sociais e raciais no Brasil. Cota não é esmola. Cota é direito, o mínimo a ser feito diante de uma realidade tão desigual. Quando eu tive oportunidade de estudar e pesquisar, pude abrir outras possibilidades”.

Por isso, a preocupação com a responsabilidade social é marcante nas carreiras dos dois profissionais, que dedicam o conhecimento obtido na academia em prol de grupos desfavorecidos na sociedade. A atuação do médico André é pela saúde da comunidade periférica de Camaçari. Para ele “é necessário estar em contato com o povo, principalmente quando a gente se dispõe a encarar os desafios e dar o melhor”.

André destaca que “estudos indicam que a atenção básica pode resolver até 80% dos problemas de saúde que chegam, então é um espaço também de aprendizado multiprofissional”. E acrescenta: “recebo alguns elogios de pessoas que se identificam comigo, negras, que me incentivam com palavras e com olhares de coragem. Isso eu sempre guardo com muito carinho e muitas vezes me dá forças para continuar na estrada”.

As pesquisas da psicóloga e docente Paula giram em torno das questões envolvendo mulheres negras no atual tecido social. Nas aulas dela, destacam-se componentes curriculares como psicologia, saúde sexual, saúde reprodutiva; violência bioética e ética profissional, educação, memória e identidade. Ela orienta estudantes negras e indígenas que acessaram a universidade pela política de cotas e “são inteligentes, produtivas e inovadoras”, oferecendo-lhes “instrumental de transformação social para problemas da sociedade brasileira”.

André Luís Melo: interesse por biologia e iniciação científica na UFBA

AndréAndré Luís Melo é médico graduado desde 2018 e, atualmente, é residente numa Unidade de Saúde da Família no município de Camaçari, localizado na região metropolitana de Salvador. Ele explica que sua residência “é uma pós-graduação em serviço, já que a maior parte da carga horária é em atendimento na atenção primária de saúde das pessoas daquela localidade.”

Oriundo de uma família de classe popular que foi moradora do bairro da Engomadeira – famoso nos noticiários, devido às constantes ocorrências de violência da periferia de Salvador – André Luís e seus três irmãos tiveram uma infância modesta, mas sem passar necessidades básicas, pois seus pais eram trabalhadores: a mãe, comerciante que trabalhava em supermercados, e o pai, administrador de condomínio. Ele conta que foi “o primeiro de sua família a entrar na universidade pública, mas depois vieram vários primos e primas, como efeito da política de cotas”.

Iniciou a educação infantil em escola particular, mas, devido às dificuldades financeiras da família, ingressou na escola pública a partir do terceiro ano do ensino fundamental. Na sétima série, fez seleção para o Colégio da Policia Militar, para o qual passou e ficou até a conclusão do ensino médio. Nessa instituição, ele envolveu-se em grupos e atividades coletivas, ao mesmo tempo que se dedicava a matérias como matemática e biologia, recebendo incentivo da escola.

No último ano do ensino médio, o interesse por biologia aumentava, contou o médico residente. E por fazer parte do projeto de iniciação científica Ciência, Arte e Magia, mantido pela UFBA e coordenado pela professora do Instituto de Biologia Rejane Lira, ele decidiu que faria um curso superior “com proximidade a essa área”. Então, optou por medicina e em 2011, inscreveu-se em três exames, como cotista social, declarando sua identidade racial como negro: Enem e vestibulares da UFBA e Uneb e dedicou “mais tempo aos estudos durante um ano de cursinho, que recebi de presente de uma pessoa que sempre me apoiou”, lembrou.

Em seu primeiro semestre na UFBA, André e sua turma de calouros fizeram um estágio de vivência no Sistema Único de Saúde (SUS). “Eu considero que aquele foi um ‘abre-portas’ para mim, porque me interessei muito pela defesa da saúde pública, durante todo o período da graduação. Fomos levados para Vitória da Conquista e passamos uma semana discutindo sobre o SUS. Acho que foi um momento importante, pois imaginava que o curso de medicina era elitizado e hostil, mas percebi que existem também pessoas dispostas a fazer diferente”.

Apesar de ter enfrentando obstáculos, como dificuldades de convivência com estudantes de outras classes sociais e com o conteúdo de algumas disciplinas, ele reconhece que sempre teve o apoio da família, que o incentivou. Além disso, o companheirismo de outros dois amigos da escola, também cotistas de sua turma, “facilitou as coisas no começo do curso. A gente tinha que fazer o trabalho dobrado, acordar muito cedo para chegar às aulas – quase todos os dias começava 7h. Fazíamos um grande esforço para ir bem nas matérias, e percebo que íamos mesmo, por isso, nunca foi um demérito ser cotista, apesar de, para muitos, parecer que eu não tinha ‘cara de médico’”.

Após o estágio de vivências, André vinculou-se ao grupo que na época estava à frente do Diretório Acadêmico e, como membro do D.A, aprendeu a assumir mais responsabilidade. “A partir daí, fui conhecendo mais pessoas e construindo minhas relações.” Ele também integra o Coletivo NegreX, composto por médicos e estudantes de medicina negros de todo o Brasil.

A continuidade ao longo do curso foi viabilizada por bolsas de iniciação científica e de permanência, “que dava para se sustentar sem luxos”, considerou, acrescentando que também “contava com a ajuda de familiares e amigos quando precisava comprar livros, jaleco e utensílios para as aulas práticas”. André considera que as bolsas de assistência estudantil que recebeu, durante todo o curso, foram fundamentais para a permanência na universidade. “Vivi um momento em que essas bolsas foram ampliadas e outro momento em que foram drasticamente reduzidas. Pude perceber como fazem total diferença. Existe o chamado estresse de minorias, e sinto que receber o auxílio institucional contribui para amenizar esse estresse”, racionalizou.

Paula: de discente “estranha” a professora universitária

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A professora Paula Rita Bacellar Gonzaga (no centro e de amarelo) entre as integrantes do Programa Integrado de Pesquisa, Extensão e Criação – Janaína Aparecida, composto por estudantes de graduação e pós graduação.

Paula Rita Bacellar Gonzaga formou-se em psicologia, em 2013; fez mestrado no Programa de Pós graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNeim) e foi professora substituta no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Milton Santos (Ihac) – tudo isso na UFBA.

Em 2016, iniciou seu doutorado em psicologia social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, desde março de 2018 é docente efetiva no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Paulo Freire, da Universidade do Sul da Bahia (UFSB) e também coordena o Programa Integrado de Pesquisa, Extensão e Criação Janaína Aparecida, composto por estudantes de graduação e pós graduação que pesquisam temas pertinentes à saúde sexual e saúde reprodutiva, produção intelectual de mulheres negras e indígenas, promoção de saúde através de saberes tradicionais, ação e memória de parteiras; violência sexual contra crianças e adolescentes com base na perspectiva teórica do feminismo negro e do feminismo decolonial.

Entre seus familiares, ela é a primeira pessoa a cursar uma universidade federal. Filha de família simples – a mãe estudou até a quarta série do ensino fundamental, e o pai, até o ensino médio – viveu a infância em Paripe, no subúrbio ferroviário de Salvador, e depois mudou-se para Simões Filho, na região metropolitana de Salvador, onde estudou em escolas públicas estaduais do ensino fundamental ao ensino médio, que cursou com dificuldades, a exemplo da falta de professores para disciplinas como química e biologia.

Apesar das dificuldades, Paula lembra da dedicação e comprometimento por parte de alguns professores, entre eles uma professora de sociologia e filosofia que a inspirou a optar pelo curso de psicologia, no ensino superior.  “Um dia, perguntei àquela professora o que ela tinha estudado na faculdade, e ela disse ‘psicologia’. A partir dali, essa possibilidade começou a existir na minha cabeça”, revelou.

Ao deparar-se com o momento do vestibular, a psicóloga relembra que “não tinha instrução sobre como se inscrever para a universidade ou sobre o direito às cotas, pois isso nunca foi dito na escola. Eu fiz o vestibular em 2008, com isenção da taxa de inscrição. No momento da inscrição, não lembro bem o que me fez decidir pelas cotas – até porque essa palavra não era dita de forma positiva ou elucidativa no ambiente escolar – mas eu fui marcando minha realidade: classe popular, escola pública, preta e etc…”

Paula conta que fez as provas da primeira fase chorando o falecimento recente de seu pai e, ao passar, contou o curso que tinha escolhido a uma de suas professoras. A educadora alterou-se ao saber que tinha sido para o curso de psicologia, e disse que a estudante “teria mais chance de passar se fosse para letras ou história, porque psicologia era muito concorrido”. Apesar da decepção, ela persistiu, fez a segunda fase e passou.

“Eu nunca tinha pisado na UFBA até o dia da matrícula. Minha primeira impressão é de que parecia um mundo completamente diferente de tudo que eu tinha vivenciado. No início do primeiro semestre de 2009, eu fui para a aula com um caderno de 20 matérias, como se fosse uma continuidade da escola. Mas ali era outra realidade” considerou.

Ela confessou que “não entendia metade das falas dos professores e, por isso, fez um caderninho de vocábulos. Anotava todas as palavras que não entendia e pesquisava depois no dicionário”. A falta de integração foi dolorosa: “os colegas eram de realidades econômicas muito distintas da minha, e eu não conseguia me aproximar, não consegui frequentar nem a semana do acolhimento da psicologia, porque parecia que todo mundo meio que já se conhecia e entendia a dinâmica universitária. Eu era um corpo estranho, não tinha nenhuma vinculação com nada nem ninguém. Sentia-me muito sozinha no primeiro ano da graduação e constantemente deslocada e desqualificada pelos pares”, revelou.

“Não era dito abertamente quem era cotista e quem não era, mas era presumível. Escutei falas racistas e xenofóbicas e pessoas que se pronunciavam contrárias às cotas, tornando muito difícil a jornada para alguém negro e de classe popular em meio a uma turma majoritariamente branca e economicamente privilegiada. Como a maioria era de pessoas brancas, o racismo não era entendido como problema estrutural para a psicologia brasileira”, avalia Paula.

Mas ela também enfatiza que “depois dei sorte, porque tive bons encontros, amigas que fiz e que nem eram da minha turma, mas eram do grupo de pesquisa – estudantes do interior do estado, de famílias de classe popular ou que tinham uma leitura social mais crítica. Isso foi fundamental para prosseguir no curso”, refletiu.

Durante os dois primeiros anos da graduação, Paula sustentou-se apenas com o valor de R$ 300 proveniente da bolsa do Programa Permanecer, pois era vinculada pelo projeto Pró Saúde. Para ela, foi um período de muita dificuldade financeira: “nas férias eu trabalhava numa loja no shopping como vendedora, para ter dinheiro para me manter na universidade por mais uns meses – morávamos cinco colegas numa casa alugada, no bairro da Federação e dividíamos todas as despesas, assim, a vida universitária era mais possível, mais suave”, ponderou. Ela afirma “com toda certeza que só foi possível concluir a graduação devido à ação da Pró Reitoria de Assistência Estudantil (Proae): tive bolsa Permanecer e continuei fazendo pesquisa até o fim da graduação. Consegui bolsa alimentação, que me possibilitava almoçar e jantar no restaurante universitário, mesmo nos fins de semana, além de auxílio óculos – que era uma despesa fora do meu orçamento na época”.

Em 2011, quando aconteceria o II Encontro de Pesquisa de São Lázaro, ela estava desenvolvendo um projeto, fruto das atividades de seu grupo de pesquisa, e queria apresenta-lo, mas não tinha dinheiro para a inscrição do evento – e teve a isenção aprovada. “Recebi um e-mail confirmando que a inscrição estava paga! Aquela foi a minha primeira experiência num evento acadêmico e foi fundamental para o amadurecimento da minha pesquisa, que culminou no meu mestrado sobre formações discursivas que perpassam as elaborações psíquicas e políticas de mulheres sobre seus itinerários abortivos. Atualmente tenho investido nos feminismos decolonial e negro como lentes analíticas para entender as potencialidades de mulheres negras que produzem fissuras no sistema de gênero moderno/colonial”, comemorou a docente.

Após a graduação, ela avalia que “se a política de cotas não existisse provavelmente eu não estaria na universidade hoje. Eu não teria avançado na minha carreira acadêmica. Os ataques as ações afirmativas são ataques a uma população que nunca pode acessar esse espaço se não fosse na condição de exploração laboral. Hoje, sou a única professora negra do curso onde leciono. Se não fossem as ações afirmativas, provavelmente não teria outra no meu lugar, porque a minha geração adentrou e permaneceu na universidade através delas”, afirmou.

 

 

 

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