O percurso das Letras no Congresso 2019

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Naira Diniz

A vida e obra de Boris Schnaiderman, um dos maiores intelectuais e tradutor do russo no Brasil, é objeto de estudo da professora do Instituto de Letras da UFBA Evelina de Carvalho Sá Hoisel, através do projeto “O escritor e seus múltiplos”. Na mesa “O escritor e seus múltiplos e acervos de escritores baianos”, realizada no dia 31, que contou com as presenças das professoras Evelina de Carvalho Sá Hoisel, Lígia Guimarães Telles e Antônia Torreão Herrera, as discussões demonstraram o caráter múltiplo da função escritor e como este se insere na contemporaneidade, sendo não somente um agente afetivo, ressaltando a potência do humano, mas, conforme afirma Hoisel, “resgata a condição humana diante da recuperação de arquivos esquecidos”.

Nesta tarefa de resgate da condição humana através de acervos documentais, destacam-se os exemplos de Schnaiderman, que, desprendido de preconceitos, segundo Hoisel, “recuperou a memória cultural soviética condenada ao esquecimento pelo stalinismo”, e da escritora, poeta e ensaísta, Judith Grossmann, que ainda em vida, doou seu acervo, segundo a professora Lígia Telles, por ter percebido “a importância cada vez maior dada aos acervos”. Mas existem ainda muitos embates em torno dos acervos e isso ocorre devido “às questões jurídicas envolvendo o acesso aos acervos”, afirma Telles. Na contramão desta e de tantas outras realidades, a professora Antônia Herrera questiona “como se insere o trabalho do escritor múltiplo em tempos de separação, exclusão e quando os discursos parecem não fazer muito sentido” e aponta que esta questão traz “a possibilidade de refletir nosso próprio tempo, além de problematizar as tensões que são necessárias”, afirma.

Um determinado idioma, analisado a partir de suas transformações, permite perceber o valor da memória de uma determinada comunidade ou nação. Foi esta a reflexão trazida pela pesquisa “Leitura de fontes primárias e as profissões na Bahia colonial”, da discente Rafaela Andrade, orientada pela docente Norma Suely Pereira. Através de levantamento de dados a partir do Livro Velho- Mosteiro de S. Bento da Bahia (1568-1716), a pesquisa tem por objetivo discutir “a relação do contexto histórico com algumas profissões do período colonial, selecionando ofícios e profissões e consultando obras lexicográficas para a construção de verbetes”, afirma a discente.

A pesquisa demonstrou variações na escrita de determinadas palavras, devido à ausência no período, de normas ortográficas, demonstrando que a escrita era um processo intuitivo, ou seja, “imaginava-se como a palavra era escrita”, comenta. O levantamento possibilitou a construção de verbetes sobre topônimos e profissões e, segundo Rafaela, “a análise dos documentos permitiu o conhecimento a respeito de algumas profissões e ofícios presentes na época colonial”, afirma.

A literatura contemporânea feita pelos povos originários do Brasil e sua relação com a espacialidade simbólica infantil foi o debate trazido pela pesquisa “Não é brincadeira: infantilização e (in) visibilidades indígenas no Brasil”, apresentada pelo discente Leandro dos Santos, orientado pela docente Rachel Lima. O estudo problematizou questões como o índio como construção através de discursos, a relação entre a emergência e a afirmação da literatura indígena brasileira contemporânea e o desdobramento em um espaço imagético vinculado ao infantil e a noção de “brincar de índio à brasileira”, tendo em vista que ninguém “brinca de ser branco”.

Leandro demonstra que “a infantilização dos povos dominados é parte da estratégia de colonização”, ressaltando nesse processo, o papel exercido pelos meios de comunicação de massa, “como arena política que acabou por definir as formas possíveis para suas estratégias de relação com a sociedade”, afirma. A literatura também é um espaço estratégico, mas a literatura infantil, especificamente, “é vista como algo menor”, comenta. O discente questiona “como abordar essa literatura não sendo indígena, respeitando o lugar do outro?” e “De onde nós estamos falando?”. A pesquisa demonstra que, segundo o autor, “existe um processo de aculturamento dos sujeitos sobre si e que a palavra se torna um instrumento de sujeição”, conclui.

*foto: Agência O Globo

 

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