Integrando conhecimentos: dois INCTs debatem etnociência e pesquisa responsável na UFBA

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Mesa de abertura do Simpósio. Da esquerda para direita: Marko Monteiro, David Ludwig, Elizabeth Ramos, Ulysses Albuquerque, Gilberto Bomfim e Charbel N. El-Hani.

“Nós, quando alteramos o meio ambiente, alteramos nós mesmos”, afirma o pesquisador Ulysses Albuquerque, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele e mais 26 pesquisadores de peso das áreas de etnobiologia, filosofia da ciência, antropologia, ecologia e conservação reuniram-se para discutir a relação entre conhecimento científico e tradicional e práticas sociais, ambientais e culturais que afetam o meio ambiente durante o Simpósio “Integração de Conhecimentos, Etnociências e Pesquisa Responsável”, no Instituto de Biologia da UFBA, de 20 a 22 de novembro.

Albuquerque apresentou no evento a distinção entre duas correntes teóricas: a engenharia de ecossistema e a teoria de construção de nicho. Enquanto a primeira entende a evolução do organismo em resposta ao ambiente, a segunda percebe uma coevolução entre organismos e ambientes, sendo, portanto, recíproca: ambientes moldando organismos e vice-versa. Nessa visão, as mudanças ambientais devem ser interpretadas não como meramente genéticas, mas também ecológicas e culturais.

Como exemplo, Albuquerque citou a expansão do pequi na Flona do Araripe, geoparque localizado no Ceará. Antes inabitada, a floresta passou a ser ocupada por grupos de pessoas, sobretudo motivados pelo padre Cícero (1844 – 1934). Ele explica o efeito em cascata causado pela habitação da floresta, sobretudo pela introdução da pecuária no local. Enquanto a mata completamente fechada historicamente privilegiou espécies que precisavam de baixa luminosidade, a pecuária resultou na abertura de trilhas pelo próprio gado, favorecendo espécies heliófilas (as plantas de sol), entre elas, o pequi. Criou-se, assim, uma nova economia local baseada no pequi, além de um forte elemento da culinária sertaneja.

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Ulysses Albuquerque, da UFPE, em palestra no Simpósio “Integração de Conhecimentos, Etnociências e Pesquisa Responsável”.

Outro exemplo abordado foi a intolerância ao leite em adultos, um mal que alcança, sobretudo, grupos cuja linhagem optou pela agricultura como principal forma de subsistência. Pela exposição desses casos, afirma Alburqueque, o estudo da biologia deve estar ligado às ciências humanas e ao conhecimento histórico, social e cultural.

Marko Monteiro, da Universidade de Campinas, falou sobre pesquisa e inovação responsável, um conceito bastante forte na Europa, que se baseia em uma maior maior aproximação entre ciência e sociedade. Antropólogo e coordenador do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia (GEICT/UNICAMP), destacou o crescimento do sentimento de anti-política e de ataques à ciência no mundo, quadro que ganhou força no Brasil nos últimos tempos. A seu ver, os cortes no financiamento à ciência nacional afetam a capacidade das instituições de manter atividades de excelência e comprometem a sustentabilidade da produção de conhecimento no presente e no futuro. A pesquisa e inovação responsável ajudaria a desenhar novas questões e novos caminhos para enfrentar os dilemas em torno das ciências, afirma o pesquisador.

O diálogo internacional no primeiro dia do evento foi garantido pela participação nacional de David Ludwig, da University de Wageningen, na Holanda, que abordou a Etnobiologia como Pesquisa Transdisciplinar. Para Ludwig, é necessário promover o reconhecimento de saberes locais em políticas públicas.

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Marko Monteiro, em sua palestra “Engajando-se com a Pesquisa e Inovação Responsáveis no Brasil”

O evento foi promovido por dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), conhecidos por agregar os melhores grupos de pesquisa do país: o de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares em Ecologia e Evolução (INCT IN-TREE), da UFBA, coordenado por Charbel N. El-Hani; e o de Etnobiologia, Bioprospecção e Conservação da Natureza, da UFPE, coordenado por Ulysses Albuquerque. Também fizeram parte o grupo de pesquisa “Technology and Innovation Group” da Universidade de Wageningen, na Holanda, o Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia (LEFHBio/UFBA), a Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA).

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