Tese da UFBA sobre processos educativos em espaços hackers vence Prêmio Capes

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Murillo Guerra e Lívia Batista

Karina Menezes: “Os princípios da cultura hacker se pautam na abertura e na colaboração e tem nas tecnologias um poder criador”

Karina Menezes: “Os princípios da cultura hacker se pautam na abertura e na colaboração e tem nas tecnologias um poder criador” (Foto: Yasmim Santos)

A tese de doutorado “Pirâmide da pedagogia hacker =[vivências do (in) possível]”, de Karina Menezes, defendida no Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação da UFBA (Faced), foi uma das vencedoras do Prêmio Capes de Tese 2019, que elegeu as melhores teses defendidas no país no ano passado.

Ligado ao Grupo de Pesquisa em Educação Comunicação e Tecnologias, sob orientação do professor Nelson Pretto, o trabalho, escolhido o melhor da área de “Educação”, investe em uma análise dos processos educativos que acontecem em hackerspaces brasileiros e elementos da pedagogia desses espaços. O Prêmio Capes de Tese 2019 teve 1.140 inscrições e premiou trabalhos científicos em cada uma das 49 áreas de avaliação.

Um espaço hacker (hackerspace) é um local que atrai pessoas interessadas em tecnologias numa perspectiva potencialmente criadora de novas realidades. Como explica a autora, alguns grupos hackers mantêm seus espaços físicos, enquanto outros existem como grupos, sem sede própria. “Os princípios da cultura hacker se pautam na abertura e na colaboração e veem nas tecnologias um poder criador”, destaca Karina, que é professora da Faced e promoveu uma ampla investigação com vivências no campo de pesquisa. Ela mesma é engajada, desde 2013, no Raul Hacker Club, em Salvador.

Com o objetivo de analisar o fenômeno educativo em hackerspaces brasileiros, foram contatados integrantes de 22 hackerspaces, que contribuíram diretamente para a pesquisa através de entrevistas semi-estruturadas por e-mail e/ou presenciais, conversas informais e um questionário online. O questionário foi respondido por 58 pessoas ligadas à espaços hackers no Brasil.

A pesquisa apresenta os resultados das entrevistas com membros de espaços como o Teresina Hacker Clube, no Piauí, grupo que se dedica a projetos fixos de alta contribuição para a sociedade, entre os quais o Mão Amiga, que visa a confecção de próteses de baixo custo para deficientes físicos; o Peba, um indexador de dados públicos; e o Hack na Veia, uma iniciativa permanente para a qual estão desenvolvendo um aplicativo a ser doado para o hemocentro do Piauí, para que as pessoas sejam alertadas quando poderão/deverão doar sangue.

Segundo aponta a tese premiada, o site Hackerspaces.org registrava, em outubro de 2017, a existência de 48 clubes hackers e hackerspaces no Brasil. A autora Karina Menezes ressalta que, apesar de bastante relevante a intenção e o funcionamento da plataforma de registros de hackerspaces pelo mundo, as informações disponíveis não expressam com exatidão o número de grupos hackers no Brasil. Durante a sua pesquisa, tomou conhecimento de alguns espaços não listados no site, tais como o Bailux (Bahia), Barco Hacker (Pará), MariaLab (Bahia) e SaguiLab Hacker (São Paulo).

De acordo com os seus registros, um dos primeiros hackerspaces no Brasil foi criado na região de Porto Seguro, Estado da Bahia, em meados de 2005. Trata-se do Bailux Hacklab, no distrito de Arraial D’Ajuda, que funcionava como um núcleo de reciclagem e de engenharia reversa de objetos tecnológicos. A autora afirma que “suas práticas e filosofias foram integradas por índios Pataxó, de Aldeia Velha, investindo na documentação em áudio e vídeo dos conhecimentos ancestrais do grupo, produzidos com software livre por jovens índios da escola local”.

“Esses são exemplos de como tem ocorrido a disseminação de coletivos de pessoas interessadas em tecnologias, eletrônica e artes digitais que sinalizam para os princípios da cultura hacker no Brasil nos últimos quinze anos”, escreve ela, que destaca em sua análise a necessidade de refletir sobre questões atuais e urgentes, como o direito à informação e ao conhecimento, o desejo de aprender e o apelo para se construir processos de gestão e de aprendizagem colaborativos, tendo as tecnologias como componente essencial da sociedade.

“Vivemos em um mundo informacional, mas convivemos com desigualdades que nos impedem de assumir o protagonismo nos processos de criação de tecnologias e a autonomia nos processos educacionais”, defende. Em contraposição a isso, os espaços hackers são autogestionários e congregam pessoas com conhecimentos diversificados, tendo potencial para se estabelecer como espaços de fortalecimento de culturas locais, de saberes tradicionais e de raízes históricas em diálogo com o conhecimento científico e tecnológico mundial, segundo observa a pesquisadora.

“A aprendizagem em hackerspaces surge também como uma reverberação, e porque não dizer, como um efeito colateral positivo de vivências engajadas. Por esse motivo, não consideramos que esses espaços sejam comunidades de aprendizagem a priori. Mas, potencialmente, podem vir a ser”, avalia.

O texto destaca que existem momentos e ações organizadas com fins intencionalmente focados no processo de ensino-aprendizagem. São práticas pedagógicas que se relacionam às expectativas educacionais, solicitando uma intervenção planejada e científica sobre o objeto. Entre os exemplos de práticas pedagógicas comuns a espaços hackers está o Hackaton, um tipo de evento que reúne diversos profissionais ligados ao desenvolvimento de software, com o objetivo de resolver um problema durante um determinado período de tempo – que pode durar algumas horas, dias ou até semanas.

Atividades no Raul Hacker Club, fundado em 2013, em Salvador

Menezes observa que as práticas educativas nos hackerspaces brasileiros não são necessariamente direcionadas pelo e para o ensino, apontando reuniões administrativas, debates em listas de discussão online e festas realizadas nestes espaços como exemplos em que não se tem como centralidade o processo de aprender e ensinar. Mas, conforme ressalta, o foco na organização, manutenção ou na convivência no espaço tendem a ser educativos, pois neles são compartilhados valores, implícita ou explicitamente, através de acordos e decisões coletivas que condicionam a conduta dos membros.

“A partir da descrição das práticas pedagógicas comuns em eventos e espaços hackers, nota-se a presença de pessoas incumbidas de organizar os encontros, socializando os seus saberes com os demais participantes, ao mesmo tempo em que se criam oportunidades para os participantes trocarem conhecimentos entre si”, constata.

“A força motriz da pedagogia hacker é o engajamento, mas não como um conceito genérico. Trata-se de um conjunto de engajamentos com inclinações e motivações específicas fortalecidas pela convivência. No caso dos hackerspaces identificamos quatro tipos de engajamento que se interconectam como faces de uma pirâmide: a pirâmide da pedagogia hacker”, afirma Menezes.

Em sua tese, ela aponta que a pedagogia em hackerspaces é uma pedagogia de engajamento multifacetado, com quatro faces específicas e inter-relacionais: uma técnica (pelo contato com as tecnologias), uma afetiva (pela relação emocional com o local e com as pessoas), uma ideária (por acreditar na ética colaborativa dos hackers) e uma ativista – que é também política (e envolve a preocupação com questões do mundo em que o hackerspace está inserido). Esse engajamento tem como metáfora ilustrativa a Pirâmide de pedagogia Hacker (P2H).

O perfil dos participantes desses espaços tende a ser heterogêneo, com variação de faixa etária, formação acadêmica e profissional e, a depender da abertura do espaço, há diversidade socioeconômica. “Em um hackerspace, é comum encontrarmos indivíduos sem formação acadêmica, mas que produzem tecnologias diversas, inclusive em áreas de conhecimento bastante especializadas, como é o caso da robótica e da eletrônica. Essas pessoas se juntam a outras para ensinar o que sabem, fazendo isso por gosto sem esperar retorno financeiro algum e, ao fazer isso, contribuem para mudanças nas vidas de outros”.

A tese reforça esses espaços como o encontro de mundos que são vistos como inconciliáveis. Parafraseando o filme Alice no País das Maravilhas, na versão criada por Tim Burton sobre a obra de Lewis Carrol, a autora diz que fazer parte de um hackerspace é acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã: 1. Adultos aprendem brincando; 2. Trabalho e diversão não se separam; 3. Afeto e objetividade caminham juntos; 4. Diferença e igualdade são inseparáveis; 5. Ser hacker é um estado de espírito; 6. Tudo é possível dentro da P2H, a Pirâmide da pedagogia hacker.

Para ela, um dos maiores aprendizados que o Brasil atual pode ter com a Pedagogia hacker é a valorização do processo de aprendizagem e de seus resultados de formas equivalentes. “Não adianta ter uma solução se você fizer de qualquer jeito” disse ela sobre o que a ética hacker acredita.

“Hackers são aqueles que conhecem o mundo das tecnologias por dentro (in), que não se contentam em ficar na superfície ou na aparência de um artefato tecnológico porque desejam saber como aquilo funciona, usando seus conhecimentos e talentos para estar por dentro daquilo que lhes desperta interesse”, acrescenta Karina, ponderando, contudo, que a possibilidade de “estar dentro” é transformada em algo inalcançável em uma cultura hegemônica pautada em monopólios de conhecimento e centralização do poder.

“Essa pesquisa me mostrou que o impossível não é uma verdade insuperável, mas sim um desafio que nos mobiliza para agir e o gosto pelo desafio é um dos vetores da cultura hacker”, avalia ela.

Karina questiona se as práticas educativas pautadas no hackerismo seriam impossíveis nas escolas, e se essas práticas trariam contribuições para a educação na contemporaneidade. “Afirmamos que a vivencia engajada em objetivos maiores, que vão além dos conteúdos escolares, conectando indivíduos, oferecendo a eles espaços seguros nos quais possam colocar em prática suas curiosidades, investigando o funcionamento das coisas e questionando a naturalização de qualquer forma de dogmatismo, estes podem ser espaços nos quais o impossível acontece”, conclui.

 

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