UFBA ocupa a Tela: festival na Facom exibe e discute produções audiovisuais universitárias

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Xanatopia

Imagem de “Xanatopia” (2019), de Marina Lordelo e Laíze Ricarte, filme ambientado em um cenário em que todos os homens sumiram.

A segunda edição do Festival Tela Universitária de Cinema, espaço de estímulo à experimentação universitária, exibiu na Faculdade de Comunicação (Facom) da UFBA 40 filmes de 26 instituições de todo o país, selecionados entre quase 200 inscritos. A mostra aconteceu entre os dias 25 e 29 de novembro: foram cinco dias de exibições de curtas, experimentais e documentários, além de oficinas de escrita criativa e da mesa de discussão “Censura em Transe: Como fazer filmes em tempos de balbúrdia?”.

Quatro dessas produções universitárias selecionadas pela curadoria do festival foram produzidas por estudantes da UFBA, em modalidades diversas: documentário, ficção e experimental. As quatro obras foram produzidas por estudantes da área de concentração cinema e audiovisual do bacharelado interdisciplinar (BI) de artes, do Ihac, e do curso de produção em comunicação e cultura, da Facom. A idealizadora e diretora-geral do Tela Universitária, Ailly Cavalcante, explica que o festival foi criado para ser uma “tela”, de fato, de propagação dessas produções. “É um incentivo que esses alunos têm para produzirem e também  um espaço para difundir o que está sendo criado no cinema universitário”, explicou a diretora-geral. A estudante é formada pelo BI na área de concentração em Cinema e Audiovisual e, atualmente, cursa o 4º semestre do curso de produção.

Um desses quatro filmes – Xanatopia (2019), de Marina Lordelo e Laíze Ricarte, estudantes do 7º e do 3º semestre de do BI e do curso de produção, respectivamente – foi eleito na Mostra Competitiva como o melhor na categoria voto popular. A obra é ambientada em um cenário em que todos os homens sumiram, algo que é retratado entre o trágico e o cômico.  “De forma independente e com apoio do Labav (Laboratório de Audiovisual da Facom), escolhemos montar uma equipe técnica 100% feminina e universitária para realizar Xanatopia”, explicou Marina Lordelo.

Sua parceira de produção, Laíze, comentou as dificuldades encontradas ao longo da produção “O roteiro que fizemos era ambicioso, muitas personagens e cenas, o que dificultou a nossa vida. Duas cenas muito importantes do filme acabaram caindo por não terem dado certo na filmagem, uma externa e a cena final. Mas demos um jeito, afinal, fazer filme sem dinheiro é isso”, gracejou.

Frutas Maduras

O experimental “Frutas Maduras” (2019), da estudante Monique Feitosa, todo desenvolvido pelo smartphone, da captação de áudio e imagem à edição. A imagem usada na home page do Edgardigital é do mesmo filme.

Autora do experimental “Frutas Maduras” (2019), a estudante Monique Feitosa optou por desenvolver a obra por meio do smartphone, da captação de áudio e imagem à edição. “Gosto muito de fazer vídeos e edições no celular, pois acredito no potencial dele. Minha pretensão, no curso, é explorar o seu uso como uma ferramenta possível de elaboração de vídeos. Todos os meus trabalhos realizados nesse semestre foram assim e acredito que o celular é importante para democratizar o audiovisual. Dá para fazer trabalhos de  qualidade dessa forma”, defendeu.

Além de Xanatopia e Frutas Maduras, também foram produzidos por universitários da UFBA os documentários O Peixe (2018), dirigido pelos estudantes Ítalo Souza e Josias Andrade, e Teve ditadura na Bahia?, dirigido por Airi Assunção, Nathane Ferreira, Gustavo Brandão e Rodrigo Carvalho.

Cinema na UFBA

O ambiente universitário sempre foi espaço de experimentação nas artes e na cultura – e com o cinema nunca foi diferente. Embora sempre tenha sido restrito a poucos brasileiros — em 2014, apenas 10,4% dos municípios de todo o país possuíam uma sala de cinema —, o cinema historicamente ocupa um lugar de distinção nas universidades do Brasil.

Antes mesmo da criação da área de concentração em cinema e audiovisual (ofertada pelo BI em artes desde 2009), a UFBA tem sido um ambiente propício para o estudo e produção do audiovisual. Já passaram pelo quadro docente da Universidade nomes como o crítico de cinema André Setaro, o cineasta Guido Araújo e o estudioso do cinema negro Mahomed Bamba. Produções da Universidade também já foram destaques em mostras e festivais como o Mostra de Filmes Universitários da TVE e o Festival de Cannes, na categoria ‘Short Film Corner’.

O Peixe

Documentário “O Peixe” (2018) foi dirigido pelos estudantes Ítalo Souza e Josias Andrade.

O Tela Universitária de Cinema surgiu em 2017, a partir de uma iniciativa de estudantes dos cursos de comunicação da Facom. A atividade foi consequência de um projeto já existente na unidade desde 2013, o CineFACOM, criado para dar vazão à produção audiovisual da universidade, como explica o o professor Francisco Serafim, coordenador acadêmico dos projetos.

“O CineFACOM exibe produções de estudantes da UFBA e também mostras especiais, como o novembro negro e mostras LGBTs. No final de 2017, os estudantes identificaram, no entanto, a necessidade de ampliar o debate com produções audiovisuais de todo o país. Nós conseguimos fazer o primeiro TELA, ano passado, com pouquíssimo dinheiro e muito apoio. Muitas organizações e institutos da UFBA nos apoiaram”, relatou o professor.

Jefferson Ferreira é um dos estudantes à frente do Tela Universitária e relata a relevância do projeto. “Sentimos que não existe, ainda, uma ponte entre os cursos e estudantes da própria cidade de Salvador. Com o Tela, a gente consegue criar esse vínculo, primeiramente com os cursos daqui da cidade e depois com os cursos de fora. Nesses espaços, vemos o que está acontecendo, sendo produzido e podemos pensar sobre isso. É interessante enxergar essas narrativas que se cruzam e como cada um aborda os temas que estão em voga atualmente”, explicou.

O professor Serafim explica que, embora sem financiamento, o festival de 2019 conseguiu mobilizar mais de 200 estudantes. “Percebe-se que há uma produção fabulosa que está sendo realizada em tempos difíceis, de tantas crises. As pessoas estão fazendo produtos com qualidade, temáticas variadas e muita reflexão sobre o que estamos passando hoje”, avalia.

Além da mostra competitiva, o Festival Tela Universitária contou com momentos de formação dos estudantes, com oficinas gratuitas de escrita criativa e mesas de bate-papo. A formação, de acordo com o professor Francisco Serafim, é parte essencial da produção audiovisual.

“Para fazer cinema e audiovisual, hoje, basta o celular. Ele auxilia em toda a cadeia de produção: você capta a imagem, capta o som e edita. Ao mesmo tempo, é possível difundir o conteúdo pelo Youtube e pelas plataformas digitais. No entanto, falta, muitas vezes, uma teoria, conhecimento teórico das diferentes escolas de cinema, dos grupos de realizadores, das estéticas e montagens possíveis”, ponderou Serafim.

É essa necessidade que, em parte, o Tela presente sanar. Outras iniciativas estão em andamento, como a criação da graduação de Cinema e Audiovisual, a ser ofertada pela Facom. O curso está em fase de desenvolvimento e prevê-se que seja um segundo ciclo para o aluno que concluir a área de concentração em cinema e audiovisual do BI em artes. “É fundamental que ele seja implantado. Na Faculdade de Comunicação, estamos batalhando muito para isso. Será um curso de cinema em dois anos, no qual o aluno vai se aprofundar nas questões que viu durante um ano e meio na área de concentração. Queremos aprofundar esse conhecimento, além da técnica”, explica o professor Serafim.

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