Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades celebra 50 anos homenageando fundadoras

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As professoras Guaraci Aodeodato (à esquerda) e Anete Brito. Confira mais imagens no video de homenagem aos 50 anos do CRH/UFBA

As professoras Guaraci Aodeodato (à esquerda) e Anete Brito.

O evento comemorativo dos 50 anos do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades (CRH) da Faculdade de Filosofia de Ciências Sociais (FFCH) prestou homenagem às suas professoras fundadoras Guaraci Adeodato (falecida em 2014), Inaiá Carvalho e Marusia Rebouças, e à professora Anete Brito. Criado em 1969, o centro de estudos tem contribuído ao longo de sua trajetória para o conhecimento das desigualdades do desenvolvimento brasileiro, das mudanças dos padrões de reprodução sócio-demográficos e do mercado de trabalho. Voltado principalmente à pesquisa básica e aplicada na área das ciências sociais, atua também em atividades de extensão e de ensino suplementar.

Na mesa de abertura, que aconteceu no dia 28 de novembro, no auditório que leva o nome da professora Guaraci Adeodato, o vice-reitor Paulo Miguez destacou as contribuições significativas do CRH, “que tem se dedicado aos grandes temas da sociedade brasileira”. “É uma das joias da nossa coroa”, definiu, apontando que a celebração demonstra que a Universidade tem história e assume um compromisso com o futuro. Por fim, criticou os ataques que as universidades e os trabalhadores do país vêm sofrendo. “O que se espera de nós nesse momento é que não arredemos o pé da defesa desse patrimônio brasileiro que é a universidade pública”.

A diretora da FFCH, Maria Hilda Paraíso, ressaltou o orgulho que é ter como parte integrante da unidade um centro de referência reconhecido por sua competência, produtividade e credibilidade, e criticou as ameaças ao serviço público e as reiteradas tentativas de abafamento das ciências humanas.

 Confira mais imagens de personagens da história do CRH no video em homenagem aos 50 anos:

Também esteve presente à solenidade a diretora do Instituto de Psicologia, Ilka Bichara, que exaltou o exemplo de mulheres e pesquisadoras brilhantes que ajudaram a construir o centro de pesquisa dedicado a produção de conhecimento e ao debate de ideias relevantes para a sociedade. Destacou o apoio fundamental da universidade, “que sempre foi e continuará sendo vanguarda na resistência”. “Essa é uma instituição sólida, e não podemos permitir, de forma alguma, que ela seja minada, enfraquecida”, disse.

Para a coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, Maria Gabriela Hita, foram “50 anos de luta, resistências e excelência”. Ela recordou suas primeiras experiências no início da vida acadêmica, como bolsista no CRH, e apontou realizações do grupo, como a produção de uma publicação de referência internacional, o Caderno CRH, que tem a professora Iracema Guimarães como editora científica. Trata-se de um periódico de acesso aberto, que propõe a articulação entre redes de pesquisadores e universidades. Organizada e editada pelo CRH, em co-edição com a Editora da UFBA (Edufba), reúne textos inéditos, de interesse acadêmico e atualidade das ciências sociais, na forma de artigos, ensaios bibliográficos e resenhas críticas de livros recém-publicados.

O vice-reitor da UFBA Paulo Miguez, ao lado da diretora da Faculdade de Filosofi e Ciências Humanas, Maria Hilda Paraíso

O vice-reitor da UFBA Paulo Miguez, ao lado da diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Maria Hilda Paraíso.

Diretora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim), Maíra Kubik falou sobre a dificuldade de fazer pesquisa no Brasil, sobretudo no cenário atual, e ressaltou as contribuições do CRH para a ciência nacional ao logo das últimas cinco décadas. O diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), Joílson de Souza, compartilhou memórias de suas vivências no Centro e dos trabalhos realizados junto à professora Guaraci Aldeodato, que, conforme destacou, tinha uma forma apaixonada de defender as suas ideias. “Sua presença foi marcante”, lembrou.

Ele destacou que a professora Guaraci teve importante participação no desenvolvimento da demografia no Brasil. Foi uma das pioneiras na empreitada de constituir a demografia como área disciplinar e contribuiu de forma decisiva para a sua inclusão como disciplina no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. No livro “Bahia de Todos os Pobres”, publicado em 1979, a professora apresenta o resultado de seus estudos e dados coletados por ela no início daquela década, ajudando a desvelar as razões da miséria de milhares de pessoas.

“O CRH teve papel fundamental em vários momentos, como na construção da democracia no país”, afirmou Raquel Neri, presidente do APUB Sindicato, que vê nos eventos comemorativos uma oportunidade de encontros que produzem alegria, o que é fundamental para a saúde física e mental e fortalece para a luta social e política. Por fim, apontou a atuação do CRH no debate qualificado das principais questões enfrentadas no momento atual.

O evento marcou o lançamento dos Cadernos CRH nº. 81 e 84, e do livro "Trabalho, precarização e resistências: as múltiplas faces do trabalho", organizado por Graça Druck e Jair Batista da Silva

O evento marcou o lançamento dos Cadernos CRH nº. 81 e 84, e do livro “Trabalho, precarização e resistências: as múltiplas faces do trabalho”, organizado por Graça Druck e Jair Batista da Silva

A data marcou o lançamento dos números 81 e 84 do Caderno CRH, e do livro “Trabalho, precarização e resistências: as múltiplas faces do trabalho”, organizado pelos professores da FFCH Graça Druck e Jair Batista da Silva. A obra reúne as produções dos pesquisadores do Grupo de Pesquisa Trabalho, precarização e resistências, vinculado ao CRH/UFBA, e oferece um rico retrato das contradições experimentadas por trabalhadores(as) em Salvador e no Brasil. São 12 artigos em que são abordadas as condições de trabalho; as formas de gestão e de dominação; diferentes níveis de exploração do trabalho; nova regulação do trabalho; desempregados e a sua constituição em movimento social; mudanças na organização sindical e na inserção de jovens e mulheres no movimento e a caracterização do perfil de dirigentes sindicais.

América Latina e a teoria marxista da dependência

Dentro da programação, foram realizadas ainda as palestras “Teoria Marxista da dependência hoje”, com os professores Carlos Eduardo Martins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Luiz Filgueiras, da Faculdade de Economia da UFBA; e a palestra “A atualidade de André Gorz”, com o professor Josué Pereira da Silva, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Em uma análise da situação atual da América Latina, Carlos Martins se embasou na teoria marxista da dependência, que aponta a subordinação dos países periféricos em relação aos países capitalistas centrais. Conforme observou, há um processo de centralização e monopolização no desenvolvimento do capitalismo, com assimetrias profundas e mecanismos impostos aos países periféricos subordinados, no qual corporações transnacionais se instalam para produzir buscando nivelar os salários por baixo.

Livro organizado pela professora Graça Druck aborda temas como as condições de trabalho, as formas de gestão e de dominação, os diferentes níveis de exploração do trabalho, desempregados e a sua constituição em movimento social

Livro organizado pela professora Graça Druck aborda temas como as condições de trabalho, as formas de gestão e de dominação, os diferentes níveis de exploração do trabalho, desempregados e a sua constituição em movimento social

Com o imperialismo exercido pelos países centrais, as condições médias dos trabalhadores são dadas por monopólios que fazem uma pressão cada vez maior para redução do custo da mão de obra. Ele falou sobre a dimensão dependente de países como o Brasil, que é exportador de matérias primas para o mercado internacional e alvo da financeirização do capital. Essa dependência não é imposta apenas de fora para dentro, mas tem a adesão das burguesias locais, explica o professor. A superexploração da força de trabalho nos países periféricos, com aumento da intensidade do trabalho sem remuneração equivalente, é a forma de compensar a transferência de valores da periferia para o centro.

De acordo com Martins, a América Latina, ao se abrir cada vez mais ao fluxo internacional de capitais, já sente as suas consequências e perdeu as ilusões de que possa obter bem-estar social através desse modelo. Como reação a essa estrutura de exploração no continente, citou as manifestações atuais no Chile. E sinalizou ainda a fragilidade das democracias neoliberais na região, onde a burguesia dependente não consegue formar um projeto de nação.

Na visão do professor Luiz Filgueiras, da Faculdade de Economia, a teoria marxista da dependência é válida para pensar a economia e a sociedade brasileira, diante da constatação dos efeitos nefastos do imperialismo e da superexploração do trabalho. No entanto, ele ponderou sobre a limitação de alguns conceitos para abarcar a realidade concreta. A dificuldade estaria em igualar economias complexas em um único padrão de reprodução do capital, comparando o Brasil à Bolívia, por exemplo. No seu entendimento, o Brasil pode ser compreendido como um país “semiperiférico”, que explora outros países da América Latina e África, em uma espécie de “subimperialismo”.

Na segunda palestra do dia, o professor Josué Pereira da Silva, da Unicamp, abordou a atualidade do pensamento do filósofo André Gorz, com quem teve contato próximo e lançou diversos livros sobre as suas contribuições, como “André Gorz. Trabalho e política” (2002) e “André Gorz e seus críticos (2006)”. Também escreveu um artigo recente para edição nº 85 do Caderno CRH no qual retoma conceitos postos por Gorz.

Na sua apresentação, abordou a ideia de uma renda básica de garantia independente do trabalho, defendida por Gorz. Ele compartilhou uma definição sobre a atuação política da esquerda como a luta pela igualdade social, enquanto a direita, por sua vez, busca a manutenção das desigualdades.

Os professores Carlos Eduardo Martins (UFRJ) e Luiz Filgueiras (UFBA) abordaram a Teoria Marxista da dependência e a situação atual da América Latina

Os professores Carlos Eduardo Martins (UFRJ) – à direita – e Luiz Filgueiras (UFBA) abordaram a Teoria Marxista da dependência e a situação atual da América Latina

Josué refletiu sobre as experiências de esquerda nos países ocidentais, apoiado em contribuições de diversos estudiosos, e constatou a crise da social-democracia. Ele acredita ser necessária a emergência de uma esquerda moderna e antenada, que seja capaz de pensar estrategicamente políticas que invertam a relação de dominação do mercado sobre a sociedade, e também encampar a luta contra o racismo, o machismo, e considerar temas como ecologia e sustentabilidade. A ideia de ecologia aparece na obra de Gorz como mais um ponto de embate ao modelo de desenvolvimento capitalista. “Não dá para pensar em estratégias de crescimento econômico irresponsáveis”, adverte o professor.

Além disso, ressaltou a importância da dimensão ética na política. “É da esquerda que se espera as transformações por um mundo melhor”, avalia ele, ponderando que em um projeto de união das esquerdas será necessário haver respeito entre a “esquerda hegemônica” e as “esquerdas minoritárias”, contemplando toda uma diversidade de pautas. Ele sinalizou o esgotamento do neoliberalismo na América Latina e a utilização de instrumentos repressivos para conter as manifestações populares e impor medidas que retiram direitos trabalhistas conquistados. Por outro lado, nota que as experiências socialistas na região estão sob cerco financeiro e diplomático. E alerta para o cenário de possíveis rupturas e insurgências nos próximos anos.

No Brasil, a cruzada ideológica neoliberal está evidente em iniciativas como a Emenda Constitucional nº 95 / 2016 aprovada pelo Congresso Nacional, segundo apontou o professor. A medida limita os gastos públicos por 20 anos, negligenciando recursos para áreas como Saúde e Educação. Por fim, ele afirmou que a América Latina é alvo de muitos interesses internacionais em razão das suas riquezas naturais, ressaltando a região como fonte de água potável e produção de alimentos, e também citando dados que apontam, por exemplo, que 20% do petróleo do mundo está na Venezuela, e 80% do lítio está na Bolívia. “É uma região altamente cobiçada”, concluiu.

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