6ª Reunião Equatorial de Antropologia: povos indígenas e quilombolas denunciam violências

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O antropólogo Ordep Serra (ao centro), em mesa com a liderança indígena Célia Tupinambá e o ativista quilombola Antônio Bispo, na Conferência de Abertura da 6ª Reunião Equatorial de Antropologia

O antropólogo Ordep Serra (ao centro), em debate com a liderança indígena Célia Tupinambá e o ativista quilombola Nêgo Bispo, na Conferência de Abertura da 6ª Reunião Equatorial de Antropologia

“Praticamente todos os povos indígenas, até os índios isolados, correm risco de vida”. A afirmação foi feita por Célia Tupinambá, na conferência de abertura da 6ª Reunião Equatorial de Antropologia, realizada no dia 9 de dezembro, no Salão Nobre da Reitoria da UFBA. Em março deste ano, em seu discurso na 40ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça, Célia denunciou as ameaças contra o povo Tupinambá e as violações aos direitos dos povos indígenas do Brasil.

Durante a conferência, ela também lembrou dos líderes Guajajara assassinados no último dia 07/12, no Maranhão. Condenou os discursos políticos que alimentam o ódio contra os povos indígenas e a recente decisão da Fundação Nacional do Índio (Funai) que impede o deslocamento de servidores e atendimentos às terras indígenas que ainda não estejam homologadas e regularizadas – o que, na prática, negligencia os direitos de muitos povos que ainda lutam pelo reconhecimento de seus territórios.

A liderança indígena ressaltou a importância da mobilização para preservar direitos básicos adquiridos e sinalizou a ausência do Estado em muitos momentos. “Para nos defender, às vezes temos apenas Deus e os Encantados”, disse ela, que criticou a impunidade dos invasores das terras indígenas e quilombolas, a falta de políticas públicas para essas populações e as iniciativas que pretendem liberar a mineração em suas terras.

Para Célia, é importante que a universidade e os antropólogos apoiem as causas indígenas, em especial na defesa dos seus territórios, fundamentais para que seus povos possam plantar, colher e se alimentar, enfim, preservar os seus modos de vida e tradições. A presença de estudantes indígenas na universidade, no seu entendimento, é uma conquista que pode contribuir nesta articulação. Ela também demonstrou preocupação com as práticas predatórias que ameaçam o planeta, com o aumento do desmatamento e das queimadas nas florestas.

“É preciso coragem! Temos que avançar”, disse Célia, que revelou que a sua família e sua comunidade estão ameaçadas de morte. “Podemos até parecer frágeis, mas somos um povo muito forte”, afirmou, ao fazer um pedido de proteção ao pai Tupã. “A sabedoria indígena milenar precisa ser preservada, assim como a mata e as nascentes dos rios”, concluiu.

Identidade visual da da Reunião traz uma gravura do artista plástico Carybé, que retrata a cerimônia do Ajerê, na qual Xangô, deus da justiça e da sabedoria, carrega o fogo sagrado de que ele se nutre

Identidade visual da Reunião traz uma gravura do artista plástico Carybé, que retrata a cerimônia do Ajerê, na qual Xangô, deus da justiça e da sabedoria, carrega o fogo sagrado de que ele se nutre

A conferência de abertura teve a participação do antropólogo e professor aposentado da UFBA Ordep Serra, que lamentou a violência racista que se abate sobre tantos no país, apontando casos recentes que resultaram na morte de nove jovens em decorrência de ação da polícia militar em Paraisópolis, São Paulo, além do assassinato de lideranças indígenas e da vereadora Marielle Franco, caso até hoje sem solução. Ele criticou a nomeação para presidente da Fundação Palmares de um indivíduo que minimiza o racismo no Brasil e acredita que a escravidão trouxe benefícios para o povo negro. “Isso é um insulto”, considera Ordep.

“Nós dependemos muito neste momento dos quilombolas e indígenas, que estão contribuindo com a preservação do Brasil, inclusive a preservação física, defendendo as áreas verdes em seus territórios”, declarou Ordep, que encerrou a sua participação no evento com uma saudação a Xangô, o orixá da justiça: “Kao Kabiesilê”.

O ativista quilombola Antônio Bispo, o Nêgo Bispo, do Quilombo do Saco-Curtume, no Piauí, considera que, além do racismo, há um grave problema com a estrutura colonialista que persiste na sociedade atual. “O debate é muito maior”, avalia ele, para quem é necessário construir vias alternativas a esse estado que impôs a colonização dos povos originários. Bispo ressaltou a cultura ancestral politeísta, que acredita em vários deuses, como um contraponto ao monoteísmo imposto pelo cristianismo. “Nós podemos ter todos os deuses”, celebrou.

Bispo relembrou os massacres das populações de Colher de Pau e de Canudos, na Bahia. “Enfrentamos tudo isso há muito tempo”, afirmou. Dentre as poesias que declamou durante o encontro, uma dizia que “mesmo que queimem os escritos, não queimarão a oralidade”… “mesmo que queimem os signos, não queimarão os significados”… “mesmo que queimem os corpos, não queimarão a ancestralidade”.

O ativista quilombola falou ainda sobre a importância de o povo negro estar presente na universidade, e de como a universidade se beneficia disso: “Estamos na universidade para ensinar conceitos, porque temos conceitos”.  Para Bispo, “não haverá sociedade justa enquanto o saber for mercadoria”.

Por fim, convidou o público presente para conhecer de perto a realidade dos quilombolas na Bahia, citando o exemplo do Quilombos Rios dos Macacos e Kingoma, cujas populações têm enfrentado diversas situações de violação dos direitos humanos. Também denunciou que, no mesmo dia da abertura da 6ª REA, estava ocorrendo uma audiência pública com a finalidade de liberar a mineração de ferro na região de São Raimundo Nonato/PI, onde está situado o quilombo de Lagoas. Ali, populações tradicionais quilombolas e agricultores familiares estão sendo ameaçadas de expulsão de suas terras pelas investidas de empresas de mineração e carvoaria.

Diversidades, Adversidades e Resistências

A mesa de abertura do evento contou com a participação do vice-reitor da UFBA Paulo Miguez, que ressaltou a atualidade do tema “Diversidades, Adversidades e Resistências”

A mesa de abertura do evento contou com a participação do vice-reitor da UFBA Paulo Miguez, que ressaltou a atualidade do tema “Diversidades, Adversidades e Resistências”

A programação da 6ª Reunião Equatorial de Antropologia, que seguiu entre os dias 09 de 12 de dezembro, teve como tema “Diversidades, Adversidades e Resistências”. Foram realizadas conferências, painéis, grupos de trabalho, reuniões, feira de artesãos, oficinas cerâmicas e programação musical. O evento propôs-se a ampliar a visibilidade nacional e internacional da produção antropológica, além de explorar novas oportunidades de parceria e colaboração acadêmica.

Nas diversas atividades, foram abordados temas como “Racismo religioso no Brasil”, “Povos Tradicionais: Direitos e Desafios”, “Ações afirmativas na pós-graduação”, “Saúde Indígena: entre retrocessos e direitos conquistados”, “Futuro da Ciência no Brasil” e “Processos contemporâneos de autoafirmação identitária, luta por territórios, obras/empreendimentos e desastres, violação de direitos”.

A mesa de abertura da REA teve como convidados o vice-reitor da UFBA Paulo Miguez, a diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FFCH), Maria Hilda Paraíso, a presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Maria Filomena Gregori, o ex-Presidente da ABA Carlos Caroso, professor da UFBA, e a coordenadora da 6ª REA, Fátima Tavares, também professora da UFBA.

Para o vice-reitor Paulo Miguez, “as palavras-chave desse encontro dizem muito”. No seu entendimento, a diversidade é a melhor expressão da vida humana. Por outro lado, é preciso resistir e superar as adversidades que se apresentam no cenário atual. “A universidade vencerá, porque a universidade pública é o melhor lugar do mundo”, disse. Por fim, exaltou o exemplo dos povos indígenas e negros do Brasil que souberam resistir e preservar as suas tradições apesar de todos os ataques.

“A antropologia continua viva, pulsante e atuante”, avalia a diretora da FFHC, que destacou a importância do evento realizado em um momento de reiterados ataques às ciências sociais no país. Ela reafirmou a necessidade dos estudos sobre as populações mais vulneráveis, que incluem negros, indígenas, pescadores e quilombolas.

A presidente da ABA falou sobre as ações promovidas pela entidade, os encontros organizados desde 1985 e as contribuições para o crescimento do número de programas de antropologia no Brasil, em especial com a criação de novos cursos no Norte e Nordeste, fomentando a produção acadêmica e a formação de novos profissionais.

Ela também constata que as invasões a territórios indígenas e quilombolas têm se intensificado, o que atribuiu a discursos políticos que desrespeitam os direitos fundamentais da pessoa humana, em especial das minorias. A professora falou sobre a denúncia à ONU do genocídio cultural e o etnocídio das populações tradicionais no país. “Temos que resistir, essa é a nossa força. Não podemos deixar de acreditar e lutar por um mundo melhor”.

Público compareceu à abertura da 6ª Reunião Equatorial de Antropologia, realizada na Reitoria da UFBA, no último dia 09/12

Público compareceu à abertura da 6ª Reunião Equatorial de Antropologia, realizada na Reitoria da UFBA, no último dia 09/12

De acordo com coordenadora da 6ª REA, Fátima Tavares, o evento foi realizado por “amor à causa”, com base no voluntariado das pessoas envolvidas. Ela ressaltou, contudo, o apoio institucional da UFBA, “mesmo com todas as dificuldades”. A coordenadora da reunião se disse feliz ao constatar a grandiosidade do evento e deu as boas-vindas a todos os participantes.

Carlos Caroso, ex-Presidente da ABA, contou que a sexta edição da REA faz uma homenagem ao artista plástico Carybé, que através da sua arte valorizou e difundiu as tradições da cultura afro-brasileira para todo o mundo. Foi escolhida para identidade visual da primeira Reunião Equatorial de Antropologia na Cidade da Baía uma gravura de Carybé, que retrata a cerimônia do Ajerê, na qual Xangô, deus da justiça e da sabedoria, carrega o fogo sagrado de que ele se nutre, rodeado por suas esposas divinas, as Ayabás.

A imagem foi cedida pelo Instituto Carybé, presidido por Solange Bernabó, filha do artista, que esteve presente na mesa de abertura do evento. Ela recordou o amor de seu pai pela cultura afro-brasileira e o tempo em que viveu com os índios. Convidou o público para conhecer o Espaço Carybé das Artes, no Porto da Barra, e apreciar obras do artista em diversos espaços da cidade, a exemplo dos murais no antigo Cinema Guarani (atual Glauber Rocha), no Hotel da Bahia, e no Edifício Tupinambá, no Canela.

A 6ª Reunião Equatorial de Antropologia foi promovida pela UFBA, por meio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia, contando ainda com a participação de outras Instituições de Ensino Superior no Estado da Bahia.

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