UFBA tem mais um projeto selecionado pela Capes para pesquisar impactos do óleo no litoral

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Pesquisa aprovada pelo edital da Capes Entre Mares utilizará DNA ambiental (eDNA) e de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs)

A UFBA teve mais um projeto aprovado no edital da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que investirá em pesquisas sobre o impacto do derramamento de óleo no litoral do Nordeste. Em janeiro, o resultado preliminar anunciava dois projetos selecionados. Agora, com o resultado final, mais uma pesquisa do Instituto de Geociências (Igeo) soma-se ao programa Capes Entre Mares, que analisou 278 propostas enviadas por instituições de todo o país e escolheu apenas 15 iniciativas de estudo.

O projeto selecionado irá avaliar os impactos do derrame de óleo em manguezais utilizando ferramentas geoquímicas e DNA ambiental, o eDNA, que detecta fragmentos de DNA de espécies presentes em determinado ambiente. O mecanismo é capaz de identificar DNA de diferentes organismos pelos rastros que eles deixam, sejam eles vivos ou mortos.

“Nós escolhemos duas ferramentas: análise de DNA ambiental (eDNA) e de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). Os HPAs são os maiores constituintes do petróleo, então sua análise vai nos dizer qual o nível de contaminação em cada área que vamos estudar. Já o DNA ambiental vai nos dizer qual a abundância e composição das espécies-alvo (bactérias e meiofauna) em cada área”, explica Tatiane Combi, coordenadora do projeto e professora do Igeo.

“Quando nós juntamos essas duas análises e fazemos um acompanhamento ao longo do tempo, conseguimos ver, por exemplo, se a abundância de um determinado organismo está aumentando ou diminuindo em função das concentrações de HPAs. Também conseguimos ver se as concentrações de HPAs estão mudando ao longo do tempo, ou seja, se esse ambiente está conseguindo se recuperar ou se a contaminação permanece”, observa Tatiane Combi. A avaliação dos efeitos será feita a médio e longo prazo, considerando o período de 6, 12 e 18 meses após o derramamento de óleo, em comunidades de meiofauna – formadas por pequenos seres com menos de 1 milímetro que vivem nos sedimentos de ecossistemas aquáticos – e de bactérias que habitam sedimentos de manguezais afetados pelo óleo na Bahia.

Formada em oceanografia, a professora explica que a escolha por estudar organismos de base de cadeia alimentar, e não outros de consumos direto – como peixes e ostras – , foi motivada por esses organismos serem a base do ecossistema costeiro e marinho, cuja alteração pode afetar toda a cadeia alimentar. “Além disso, ao contrário dos peixes, por exemplo, nossos organismos vivem no sedimento (que é onde o óleo mais se acumula) e não são móveis: ou seja, estarão sofrendo diretamente e cronicamente os efeitos do óleo”, afirma.

Tatiane, que concedeu a entrevista da Antártica, local em que participa de dois projetos no âmbito da Chamada do Programa Antártico Brasileiro (Proantar)*, acredita que, em razão de ser um evento de grandes proporções e inédito, trabalhar e divulgar esses dados com cuidado e responsabilidade será um fator essencial. “Acredito que toda a equipe está preparada para isso e dará seu melhor, e que ao final do projeto teremos resultados relevantes e inéditos para a região, contando também com uma importante contribuição para formação de recursos humanos, com alunos de graduação e pós-graduação que serão envolvidos nas atividades”, observa Combi, que cuidará das análises geoquímicas, enquanto o professor Maikon di Domenico (do Programa de Pós-Graduação em Sistemas Costeiros Oceânicos da Universidade Federal do Paraná), vice-coordenador do projeto, será responsável pelas análises de DNA ambiental (eDNA).

entre-mares“Editais específicos, como foi o caso do Entre Mares, mostram que a gravidade da situação foi compreendida e que estamos dispostos a aprender e a melhorar. Assim, acredito que, no futuro, o país estará mais preparado para enfrentar esse tipo de situação. Além de analisar e remediar os possíveis impactos relacionados ao derramamento, o fomento a esse tipo de pesquisa é essencial para termos dados ambientais das zonas costeiras e marinhas do país e para formarmos recursos humanos que, no futuro, estarão preparados para auxiliar nesse tipo de situação”, avalia a pesquisadora. Em sua opinião, o óleo chegou em mais locais e em quantidades maiores do que teria chegado caso medidas apropriadas tivessem sido tomadas, como, por exemplo, a instalação de barreiras de proteção em áreas sensíveis como rios e manguezais.

O edital Capes Entre Mares tem orçamento global de R$ 1,36 milhão, e cada projeto aprovado receberá o valor máximo de R$ 100 mil para despesas de custeio, além uma bolsa de mestrado, a ser implementada até junho de 2020. Em 16 de janeiro, a Capes publicou o resultado preliminar, com duas ações coordenadas pelas professoras Rita de Cássia Franco Rêgo, do Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho (PPGSAT), da Faculdade de Medicina da Bahia, e Catherine Prost, do Programa de Pós-graduação em Geografia, do Instituto de Geociências. As duas pesquisas, cada uma em sua área, buscarão atenuar os malefícios causados pela mancha tóxica na Bahia, nono e último estado da região Nordeste a registrar a presença do óleo, que poluiu 215 localidades. Relembre os outros dois projetos da UFBA selecionados pelo Capes Entre Mares.

* A pesquisa “As múltiplas faces do carbono orgânico e metais no ecossistema subantártico: variabilidade espaço-temporal, conexões com fatores ambientais e a transferência entre compartimentos (CARBMET)” é desenvolvido por meio de cooperação entre a UFPR, a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Federal de Sergipe (UFS). Outro projeto aprovado pelo Programa Antártico Brasileiro é denominado de “Mephysto” e investiga como a estruturação do ecossistema planctônico na região da Confluência Brasil-Malvinas (CBM) pode influenciar no aquecimento global. É formado por dez pesquisadores das universidades Federal de Pernambuco e da Bahia.

 

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