A doutora formada na UFBA que liderou o primeiro sequenciamento genético do coronavírus no Brasil

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Jaqueline Goes de Jesus é graduada em Biomedicina, mestre em Biotecnologia. Pela UFBA e pela Fiocruz, é doutora Patologia Humana e Experimental.

Jaqueline Goes de Jesus, uma das coordenadoras da equipe de pesquisadores que realizou o primeiro sequenciamento do genoma do coronavírus circulante na América Latina – apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil – é doutora formada pela Universidade Federal da Bahia, pelo Programa de Patologia Humana e Experimental, parceria entre a UFBA e a Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz Bahia (PgPAT/UFBA-Fiocruz).

“Foi durante o doutorado no PgPAT que obtive as ferramentas intelectuais para a atuação nas atividades que levaram ao sequenciamento do genoma do coronavírus”, atesta Jaqueline, que atualmente é pós-doutoranda do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IMT/USP).

A cientista baiana – que coordenou o trabalho inédito, realizado pelo Instituto Adolfo Lutz, em conjunto com a USP e Universidade de Oxford – conta que “aprendeu a tecnologia utilizada no sequenciamento do genoma do coronavírus durante o doutorado, no âmbito do projeto Zibra, que constituiu 80% do caminho para que pudesse participar desse sequenciamento na USP”. Além disso, ela destaca que “o PgPAT tem um programa de disciplinas muito enriquecedor, que me permitiu ter o olhar crítico de cientista para entender as tendências dos surtos epidêmicos e me preparar para esse momento de extrema importância na saúde pública”, disse Jaqueline.

Diante disso, a pesquisadora baiana não considera o tempo do sequenciamento, em menos 48 horas da confirmação do primeiro caso de Covid-19, um feito inusitado.  “Nossa equipe faz esse tipo de sequenciamento na rotina de pesquisa em menos tempo, entre 12 e 24 horas. Talvez o que favoreceu o destaque tenha sido o fato de outros países não conseguirem realizar em um tempo tão curto” ponderou a cientista, que é bolsista pela agência de fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Mas, em sua opinião, a realização desse sequenciamento favorece as instituições brasileiras de pesquisa no atual momento, em que enfrentam situações de descrédito e desmonte. “Acredito que esse feito ajudou a nossa população a se aproximar mais do que é fazer ciência e a compreender a necessidade de apoiá-la. Creio que a mudança que queremos, por mais investimento em saúde pública, incluindo as pesquisas, precisam de apoio popular. E talvez tenhamos conseguido mostrar um pouco a importância da ciência, no contexto atual”.

As pesquisas científicas realizadas no país têm vários impactos positivos para a sociedade brasileira, “pois as informações genéticas geradas pelos estudos não apenas do coronavírus, mas também de dengue, Chikungunya e outros vírus cujos surtos já cobrimos (Zika e febre amarela), podem ajudar, principalmente no início da epidemia, a direcionar ações de saúde publica, identificando os focos a partir dos quais se deu a transmissão e tomando as medidas de precaução, com o isolamento de lugares públicos”, explica a pesquisadora.

“Diante da importância de contermos a emergência de epidemias, investir em pesquisas cujos resultados impactam diretamente a saúde pública é investir também no bem-estar da população geral”, defende Jaqueline. Por isso, “fica evidente a importância do financiamento à pesquisa nas instituições e universidades públicas brasileiras”, disse a pesquisadora, cujo nome figura como primeira autora no artigo que relata os procedimentos do primeiro sequenciamento genômico do coronavírus.

De acordo com umas das coordenadoras do PgPAT, a docente Valéria Simões, professora de Jaqueline no doutorado, sua “a excelente formação ratifica a qualidade de nosso programa, com avaliação 6 pela Capes, nos cenários nacional e internacional e [mostra que], sem dúvida, essa conquista é o reflexo de uma trajetória acadêmica brilhante, fundamentada na dedicação, persistência e senso colaborativo”.

Simões explica que “o PgPAT tem a Patologia, em suas diversas áreas, como eixo estruturante do programa, mas uma grade curricular transversal em áreas afins, como a biologia molecular, por exemplo, que é base para os estudos do genoma”. Segundo a pesquisadora, “um outro aspecto muito importante é que o PgPAT funciona em ampla associação com a Fiocruz-BA, onde dispomos de um parque tecnológico muito bom e que funciona como espaço de aprendizagem dos estudantes, ao longo de sua formação”.

A docente também aponta a necessidade de investimento em pesquisa, afirmando que, “no cenário atual, são as instituições públicas de ensino e pesquisa e as agências de fomento à pesquisa que formam recursos humanos de excelência, que podem apresentar soluções tecnológicas para vários problemas enfrentados atualmente. Para ela, “apoiar a universidade pública é acreditar no poder de transformação da educação, na vida das pessoas e na sociedade e temos Jaqueline como um desses excelentes frutos da educação pública”.

Trabalho, dedicação e premiação

Jaqueline Goes lembra que, em sua trajetória, enfrentou “muita coisa para chegar onde está”, mas não lembra de ter vivido “nenhuma situação explícita de racismo ou misoginia dentro da academia”.  Entretanto, revela que percebeu tons de preconceito, pois, “as pessoas estão entrelaçadas numa trama de racismo estrutural, que faz com que atitudes preconceituosas sejam tidas como normais, principalmente em ambientes em que as pessoas, por serem mais instruídas, acabam por ser mais polidas, e só quem está muito atento consegue enxergar as sutilezas”.

Como mulher negra e oriunda de classe popular, ela reconhece ter vivido “situações com tons de preconceito”, para as quais sempre respondeu “com trabalho, dedicação e competência”, atitudes “que me fizeram chegar nesse ponto da minha carreira”, rememora. Por tudo isso, sempre foi elogiada por professores e colegas, como menciona a professora Valéria Simões, que “em 2019, como coordenadora do PgPAT, teve o prazer de ver ‘Jaque’  ganhadora pelo programa, na categoria Egresso Doutorado, dos prêmios Gonçalo Moniz da Fiocruz-BA e do Encontro Nacional das Medicinas-Capes I, II e III, pela tese  intitulada “Vigilância genômica em tempo real de arbovírus emergentes e re-emergentes”, orientada pelo pesquisador da Fiocruz Luiz Carlos Junior Alcantara.

A docente acrescenta que “Jaqueline sempre foi uma estudante de destaque no PgPAT e isso era uma unanimidade entre os seus professores. Ela sempre foi uma estudante que não esperava e sempre estava além, buscando muitas oportunidades de aprendizagem e treinamento, dedicada ao seu projeto e disponível para aprender, inclusive em estágio no exterior”.

“Todo este aprendizado foi fundamental para o êxito de sua pesquisa atual, desenvolvida no Laboratório Estratégico do Instituto Adolfo Lutz, em parceria com pesquisadores nacionais e internacionais”, diz Simões. “Hoje, tenho consciência de que faço o meu trabalho com maestria, independentemente de como as pessoas me pré-conceituam, antes de realmente me conhecerem”, afirma Jaqueline.

Influências familiar e escolar marcantes

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Jaqueline (direita) com a outra coordenadora do trabalho de sequenciamento genômico do coronavírus: a professora Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP.

Jaqueline é soteropolitana, nasceu em uma família simples, mas que sempre teve a “educação como um tesouro”. Os pais, graduados pela UFBA – a mãe, técnica em enfermagem e pedagoga, e o pai, engenheiro civil – tiveram origem muito humilde, mas conseguiram melhorar a qualidade de vida pelos estudos, contou ela. “O maior bem que eles deixaram para mim e meu irmão foi o incentivo e investimentos em nossa educação, e tudo que alcancei até hoje, sem dúvidas, devo a eles.”

A pesquisadora cursou toda a educação fundamental em escola particular e os três anos do ensino médio, no antigo Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet/BA, atual Instituto Federal de Educação Tecnológica – Ifba). Aquele período “mudou completamente minha visão de mundo, pois eu vinha de uma escola particular, e estar num Instituto Federal oferecia liberdade de ir e vir e, principalmente, de escolher o que queria para meu futuro. Foi muito novo para mim, aprendi a lidar com a diversidade e fui estimulada a pensar criticamente. São ensinamentos que levo comigo para toda a vida”, relembra.

Na graduação, Jaqueline optou pela formação superior em Biomedicina e, como as opções na cidade de Salvador eram apenas em faculdades particulares, ela escolheu a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, cujo custeio foi realizado integralmente pelos seus pais, que arcaram com todos os gastos.

A inclinação pela possibilidade de ser pesquisadora da área vem desse período, pois “grande parte dos professores que lecionavam no meu curso eram pesquisadores da Fiocruz-BA. Ao ouvir sobre a vivência deles e, principalmente, a da professora Aline Cristina Andrade Mota Miranda Mascarenhas – hoje professora do departamento de Bioquímica do ICS – , me encantei com a possibilidade de ser pesquisadora”, contou.

Sem saber da admiração da estudante, a docente Aline Mascarenhas foi a responsável por indicar Jaqueline para uma vaga de estudante de iniciação científica no grupo de pesquisa no qual trabalhava, com a professora Gisele Calasans de Sousa Costa, também do ICS. Ali, ela deu os primeiros passos na ciência, aprendendo a base da biologia molecular e, posteriormente, recebeu o convite do professor Luiz Carlos Junior Alcantara  para continuar no grupo de pesquisa e fazer o mestrado, que se estendeu para o doutorado.

O acúmulo de conhecimentos, que possibilitou seu desempenho no sequenciamento genômico do RNA do coronavírus, data do início do doutorado, em que trabalhava num projeto com HTLV-1 (um vírus parecido com o HIV de que pouco se fala, mas que causa doenças graves, como leucemia e mieloplastia), quando os primeiros casos de Zika e Chikungunya começaram a aparecer no Nordeste.

Na época, o orientador da pesquisa, professor Luiz Carlos Junior Alcantara, foi convidado para participar de um projeto de mapeamento do vírus Zika (Projeto ZIBRA – zibraproject.org), uma colaboração entre o grupo de pesquisa em Medicina Tropical da USP, coordenado pela professora Ester Sabino, e as universidades de Oxford e Birmingham, no Reino Unido e a Fiocruz-BA. Então, Jaqueline recebeu o convite do professor Alcântara para participar de uma viagem pelo nordeste brasileiro, fazendo o sequenciamento do vírus utilizando o MinION, uma tecnologia portátil.

A experiência possibilitou a mudança no projeto de doutorado, que passou a focar em sequenciamento por nanoporos, e isso abriu-lhe as portas que fizesse o estágio de doutorado-sanduíche no laboratório do pesquisador Nick Loman da Universidade de Birmingham.  Goes e Loman haviam se conhecido anteriormente, durante o projeto ZIBRA.

Após o doutorado, Jaqueline sentiu o desejo de trabalhar com outros pesquisadores e candidatou-se para uma vaga de pós-doutorado no IMT-USP.  Foi  aprovada e permanece  trabalhando com sequenciamento por nanoporos, em colaboração com diversas instituições, incluindo o Instituto Adolfo Lutz de São Paulo, o que permitiu sua participação no projeto de sequenciamento do genoma do novo coronavírus.

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