Sucesso de audiência, Marcha pela Ciência da UFBA foi ‘ensaio’ para o Congresso Virtual

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Com uma programação dedicada exclusivamente ao debate sobre a pandemia de Covid-19 e as suas conseqüências, a UFBA participou, na quinta-feira, 7 de maio, da Marcha Virtual pela Ciência, ação promovida pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC) em parceria com diversas entidades científicas.

A Marcha foi uma espécie de teste da tecnologia de transmissão que será utilizada no Congresso Virtual da UFBA, que acontece entre 18 e 29 deste mês. E os dados sobre a audiência ao longo do dia pelas duas plataformas em que o evento foi transmitido – Youtube e Facebook – atestam o sucesso tanto da programação local, montada pela Pró-reitoria de Pesquisa, Criação e Inovação, quanto do suporte técnico, a cargo da Superintendência de Tecnologia da Informação.

No Youtube, a programação da UFBA teve 11,3 mil visualizações. Cada espectador assistiu, em média, a cerca de 22 minutos, com um pico de visualizações simultâneas de 610 pessoas. A qualidade das transmissões foi elogiada: 1.251 marcaram “gostei”, e apenas 7 marcaram “não gostei”.

No Facebook, o alcance da transmissão bateu as 10 mil pessoas. Foram 2,8 mil visualizações, 832 envolvimentos, 50 comentários, 65 compartilhamentos e 109 interações – todas positivas.

Na abertura do evento, o reitor João Carlos Salles destacou a importância da mobilização em favor do conhecimento científico no combate à pandemia e a atuação da Universidade frente à crise provocada pelo novo coronavírus. “A Universidade reage com pesquisa, produtos, dedicação e militância”.

“Somos o lugar do conhecimento e da solidariedade”, afirmou Salles, que enxerga a universidade presente e em movimento neste momento, com excelência acadêmica e estudos realizados em todas as áreas do conhecimento, e com a participação em diversas iniciativas, como a Marcha e o Congresso Virtual da UFBA.

De acordo com Salles, as ações remotas que viabilizam esses eventos virtuais estão embasadas por um lastro anterior, culturas bem estabelecidas e ideias gestadas ao logo do tempo pela comunidade científica. Ele falou sobre a importância da autonomia universitária e criticou a exclusão das ciências humanas do edital do CNPq para concessão de bolsas de pesquisa.

Sobre a Marcha Virtual, o reitor da UFBA e presidente da Andifes considera que a iniciativa significa estar em marcha por um conjunto de saberes e por um lugar, que é a Universidade, e contra tudo o que ataca a capacidade de produzir conhecimento e promover o diálogo entre ciência, cultura e arte. Salles definiu a universidade também como espaço de resistência no combate às exclusões e preconceitos. “Somos o lugar do conhecimento e não da ignorância. Fique em casa. Proteja-se, proteja a sua família, proteja a vida”, orientou.

Prevenção e Tratamento da Covid-19

Na sequência do evento, as informações sobre prevenção e tratamento da Covid-19 foram atualizadas pelo médico infectologista Carlos Brittes, professor da Faculdade de Medicina da UFBA, que reforçou a necessidade das medidas de isolamento social como a maneira mais efetiva de evitar a contaminação pelo novo coronavírus. “A situação é muito mais grave do que se imagina”, alertou o professor, considerando a subnotificação dos casos no país e a velocidade com que o vírus se dissemina entre a população.

Brittes lembra que a maioria dos casos de indivíduos infectados é formada por assintomáticos, mas que continuam transmitindo o vírus, enquanto outra parte dos pacientes, em casos mais graves, precisa de leitos em Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) e longos períodos de internação, comprometendo o funcionamento dos sistemas de saúde.

Sobre os possíveis tratamentos, Brittes avalia que há ainda poucas evidências do valor terapêutico dos medicamentos em estudo, sendo que alguns deles apresentam riscos de sérios efeitos colaterais. “Como não temos tratamento, temos que focar na prevenção”, afirmou, apontando para necessidade do impedir o aumento descontrolado do número de casos. Ele acredita que, se todas as pessoas seguirem as recomendações de distanciamento social, utilizarem as máscaras e adotarem os cuidados com a higiene das mãos, haverá um impacto positivo na diminuição da circulação do vírus.

Conforme observa o professor, a cura da pessoa infectada aparentemente resulta de seu sistema imunológico, com a produção de anticorpos que neutralizam o vírus. “Mas ainda temos muitas dúvidas. Não há uma resposta definitiva”, adverte.

Na sua visão, o desenvolvimento de uma vacina vai demorar ainda, embora muitos grupos e grandes laboratórios de todo o mundo estejam na busca pela vacina. Ele cita o trabalho realizado no Brasil pela Universidade de São Paulo e pela Fiocruz, e na Universidade de Oxford, no Reino Unido, onde uma vacina já está em fase de testes em humanos. “Para o ano que vem, há possibilidades mais concretas (de se desenvolver uma vacina)”, prevê.

Contribuições das Ciências Humanas

Em outra atividade programada da Marcha Virtual, com a participação da professora da Graça Druck, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, foram abordadas as contribuições das ciências humanas para o enfrentamento da pandemias de Covid-19 e os seus impactos.

Druck considera que a pandemia escancarou a tragédia do modelo neoliberal e devastou as sociedades capitalistas, mesmo nos países desenvolvidos. Ela criticou o aumento da concentração de renda e o desmantelamento da previdência social, da saúde e da educação no país, a partir de um conjunto de medidas adotadas em nome de uma austeridade fiscal, diante de um cenário econômico dominado pelo rentismo e pela especulação financeira. “Nesses últimos anos, o estado perdeu a sua função social”, avalia.

A crise também evidencia a centralidade do trabalho na vida das pessoas, “seja na sua falta, seja no que ele produz”, acrescenta a professora, que condenou as reformas trabalhistas e as medidas que continuam sendo tomadas mesmo durante a crise e que penalizam os trabalhadores brasileiros.

Druck chamou atenção para os milhões de trabalhadores desempregados, os informais e os que estão nas filas da Caixa Econômica Federal em busca de um auxílio emergencial. E apresentou números dos valores destinados ao auxilio para a população (R$ 226,8 milhões) e para ajudar estados e municípios (R$ 125 bilhões) – montante muito inferior ao que o Banco Central está autorizado a destinar para o sistema financeiro, que soma R$ 1, 216 trilhão.

Por fim, Druck também criticou os cortes orçamentários e os ataques à autonomia universitária e a retirada das ciências humanas no edital de bolsas de iniciação científica do CNPq.

Modelos matemáticos para o enfrentamento da pandemia

Dentro da programação do evento para o período da tarde, foram apresentados pela professora Suani Pinho, do Instituto de Física, os modelos matemáticos para o enfrentamento da crise, com base no trabalho realizado pelo grupo de modelagem matemática da rede CoVida – iniciativa conjunta da UFBA e do Cidacs/Fiocruz. Os estudos permitem comparar possibilidades e analisar diferentes cenários, considerando fatores como, por exemplo, o fluxo de indivíduos, o volume de recursos disponíveis e a faixa etária da população.

“As redes de modelagem permitem responder perguntas mais complexas que surgem nas diferentes fases da pandemia”, explica Suani. Foram apresentadas estimativas de acordo com cenários estabelecidos em diferentes níveis de isolamento social, com ou sem a circulação de indivíduos assintomáticos, e suas conseqüências na ocupação de leitos clínicos e de UTI.

A hipótese de flexibilização do distanciamento social, com o crescimento da circulação de pessoas assintomáticas, provocaria um aumento de 50% na taxa de transmissão deste grupo, aponta o estudo.

De acordo com Suani, as perguntas serão diferentes nos cenários pós-pico e pós-pandemia, com inclusão de fatores como a possível criação de uma vacina e as estratégias de vacinação de grupos prioritários.

Presença do Sars-coV-2 nos sistemas de esgoto

Em seguida, para abordar a presença do Sars-coV-2 nos sistemas de esgoto, foram escalados os professores Paula Ristow, do Instituto e Biologia, e Frederico Costa, do Instituto de Saúde Coletiva. Diversos estudos recentes apontam a presença do material genético do vírus (RNA) nos esgotos. A professora Ristow ressaltou que o RNA viral tem sido encontrado nas fezes dos pacientes de Covid-19, inclusive nos casos assintomáticos.

“O esgoto pode retratar a saúde de uma população”, afirmou, explicando que esses sistemas de esgoto permitem reconhecer os patógenos que acometem uma população.

Federico Costa acredita que o monitoramento dos sistemas pode ser útil no combate ao coronavírus, permitindo estimar o número de pessoas infectadas em determinado momento, em determinado local, e também analisar os riscos de transmissão e leitos que podem ser necessários.

Costa chamou atenção para a subnotificação dos casos no país. “O número real de infectados pode ser 10 vezes maior do que o número de casos relatados atualmente”, avalia.

Segundo Ristow, ainda não se tem a confirmação da transmissão oral-fecal. Para ela, os sistemas de esgoto servem como um sistema de vigilância sanitária ambiental, capaz de orientar de maneira muito dinâmica a incidência da doença e orientar ações governamentais.

Ações do Comitê de Enfermagem

Também foram apresentadas durante o evento as ações do Comitê de Enfermagem, que reúne profissionais de Associação Brasileira de Enfermagem, seção Bahia, da Escola de Enfermagem da UFBA e entidades de classe. A professora Juliana Amaral, da UFBA, relatou as inúmeras denúncias feitas por profissionais de enfermagem sobre as condições de trabalho nos serviços de saúde, em especial em relação à falta de equipamentos de proteção individual (EPI).

“Existe realmente uma carência de EPIs em alguns serviços de saúde”, afirma Juliana, que relata ainda casos de utilização inadequada dos equipamentos e sugere o uso racional dos recursos diante de um cenário de escassez de vários itens. Os dados do monitoramento de casos da doença em profissionais de enfermagem no estado da Bahia apontam 43 casos confirmados – sendo 42 do sexo feminino, e 59 casos suspeitos, a maior parte concentrada em Salvador e na região Sul do estado.

O Comitê tem se reunido com as Secretaria Municipal de Saúde de Salvador e a Secretaria Estadual de Saúde para firmar ações de controle da pandemia, com elaboração de planos de contingência dos serviços de saúde e protocolos para Atenção Básica e materiais educativos.

Tem também atuado junto ao Ministério Público Estadual e Ministério Público do Trabalho para encaminhar as denúncias e fazer averiguação conjunta em serviços de saúde. “Já foram realizadas visitas a quatro hospitais de grande porte e três Unidades de Pronto Atendimento (UPAs)”, conta a professora.

Organizado em Grupos de Trabalho, o Comitê tem ações voltadas para a saúde do idoso, com o monitoramento de instituições de longa permanência, orientando gestores e cuidadores responsáveis por essa população mais vulnerável, assim como acompanha os casos suspeitos nessas instituições.

Situação epidemiológica, responsabilidades sanitária e social 

Na reta final na Marcha pela Ciência, o professor Eduardo Mota, do Instituto de Saúde Coletiva, tratou sobre as responsabilidades sanitária e social diante da situação epidemiológica. Ele alertou sobre os dados registrados no dia anterior ao evento, que confirmavam mais 125 mil casos oficiais e 8.536 óbitos provocados pela Covid-19, com números recordes registradas naquelas últimas 24 horas.

“68% dos casos estão concentrados em cinco estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Amazonas e Maranhão”, observou o professor, sinalizando a expansão da epidemia em estados do Norte e Nordeste nas últimas semanas.

Diante desse cenário, Mota questionou a responsabilidade dos gestores públicos que não adotarem as medidas necessárias para controlar o número de novos casos, contribuindo para o colapso do sistema de saúde e gerando mortes que poderiam ser evitadas. Ele condenou as falas e atitudes de governantes que não ajudam a conscientizar sobre a gravidade da doença e fazer ficar em casa a população, que também precisa agir com responsabilidade social neste momento.

Em sua análise, alertou para o crescimento expressivo de internações e mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave, muitas das quais estão provavelmente relacionadas ao coronavírus.

Mota também reforça a necessidade das medidas de distanciamento social que já se mostraram eficazes em outros países. Disse ver com preocupação o afrouxamento do isolamento social no país e a discussão precoce sobre a flexibilização das medidas em um cenário de crescimento dos casos.

Assim, questiona sobre a responsabilização dos gestores que não adotarem as medidas necessárias. “Esse tema precisa ser colocado em pauta e ser discutido pela sociedade”, disse, citando ainda um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional que responsabiliza ações de gestores públicos em uma situação pandêmica.

Ampla programação

Durante o evento, também foram compartilhados resultados de uma série de outras pesquisas e experiências desenvolvidas pela universidade, a exemplo do serviço de tele triagem de pacientes com suspeita de diagnóstico positivo, realizado em parceria com a Fiocruz-BA. Já o grupo GeoCombate apresentou os resultados de estudos sobre a disseminação do vírus a partir do fluxo de pessoas nas cidades e das condições socioeconômicas de cada bairro.

O professor Jailson Andrade (CIENAM/Senai CIMATEC) abordou em sua participação “O perigo no ar e nos corpos d´água”, enquanto o tema “Nutrição, Imunidade e Covid-19” foi abordado pela professora Rosângela Passos, da Escola de Nutrição. As contribuições de pós-granduandas/os foram destacadas durante a marcha em atividade promovida pela Associação de Pós-graduandas/os da UFBA.

No encerramento da programação local do evento, o publico acompanhou um recital de piano com Beatriz Alessio, professora da Escola de Música.

As atividades nacionais da Marcha pela Ciência foram realizadas às 10h30, com o seminário sobre o tema “Ciência e Corona”, e às 15 horas, com um debate sobre o financiamento da ciência no país. Também houve duas ondas de twitaços, às 12h e às 18 horas do dia 7/5, com as hashtags #paCTopelavida e #FiqueEmCasacomaCiência.

 

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