Por um “novo normal” igualitário e inclusivo: os desafios da Educação durante e após a pandemia

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Iniciativas de Educação a Distância que "estão a um passo do tecnicismo disfarçado de inovação, foram criticadas pelo professor Roberto Macedo (Faced/UFBA). "Não queremos mais isso", afirmou, exibindo uma imagem do clipe "The Wall", da banda Pink Floyd

Iniciativas de Educação a Distância que “estão a um passo do tecnicismo disfarçado de inovação”, foram criticadas pelo professor Roberto Macedo (Faced/UFBA). “Não queremos mais isso”, afirmou, exibindo uma imagem do clipe “The Wall”, da banda Pink Floyd

É quase consenso entre os especialistas no campo da educação que a implementação generalizada e açodada do ensino a distância – sem que haja condições adequadas de acesso e estudo aos estudantes a partir de suas casas, e sem que haja a devida preparação dos corpos docente e técnico para o uso correto das novas tecnologias – tenderá a aprofundar (ao invés de mitigar) desigualdades e excluir (ao invés de incorporar) parcelas da população que já vivem em situação de grande vulnerabilidade social. Muitas foram as mesas sobre educação no Congresso Virtual UFBA 2020 – algumas delas estão resumidas aqui.

Uma das três mesas realizadas no dia de abertura no Congresso Virtual UFBA 2020, 18 de maio, foi dedicada ao debate sobre os desafios atuais da Educação diante da pandemia do novo coronavírus. Para o professor Roberto Leher, filósofo da educação e ex-reitor da UFRJ, há uma falsa concepção de que é possível manter as instituições de ensino funcionando normalmente neste momento de crise, com a realização de atividades remotas a partir dos recursos tecnológicos.

“Dos 60 milhões de estudantes do país, metade ficaria de fora desse processo”, alertou Leher sobre a parcela expressiva da população que enfrenta dificuldade de acesso às tecnologias digitais e a tantos outros direitos básicos, como acesso ao abastecimento regular de água e esgotamento sanitário.

Leher vê também como um dos desafios atuais no campo da educação a guerra promovida contra as universidades, as artes e a cultura, além da tentativa de negação radical da ciência. Essa perspectiva de que a ciência seja uma ficção verbal faz com que, por exemplo, estudos científicos que demonstram a ineficácia da cloroquina para tratar a Covid-19 sejam refutados por uma mera “opinião pessoal”, sem qualquer embasamento.

O professor criticou os ataques à autonomia universitária e a ingerência na escolha de seus dirigentes. Sobre o retorno às aulas, Leher sinaliza que antes serão necessários protocolos de saúde que assegurem medidas como a definição de um número máximo de estudantes por turma, distância mínima de 1,5 m entre eles e mais lavatórios e janelas abertas. Contudo, afirma que não é possível retornar às aulas neste momento: “Não podemos ser coniventes com um novo ciclo da pandemia. Voltar às aulas representará certamente um grave risco”.

O professor analisa que o ano de 2020 exigirá um redimensionamento do sistema educacional, “sempre de olho nas condições de vida dos estudantes”.  Ele considera que o sistema educacional não pode reforçar as desigualdades sociais, e que as novas tecnologias não devem ser utilizadas para subordinação do trabalho humano à lógica do capital. Citou a adoção de recentes medidas adotadas por instituições de ensino privado para substituição de professores por robôs na correção de provas, em um processo de desvalorização progressiva do trabalho docente.

Na mesma mesa, o professor emérito da PUC-SP Demerval Saviani, respeitado intelectual do campo da educação, chamou atenção para o descaso com que a educação brasileira e as universidades públicas vêm sendo tratadas pelas elites econômicas e autoridades políticas. Isso, segundo ele, se revela no subfinanciamento do sistema educacional no país.

Saviani lembrou que “eram grande as esperanças com o Plano Nacional da Educação”, aprovado em 2014, que previa o investimento de 7% do Produto Interno Bruto (PIB) na Educação no ano de 2019, e 10% do PIB em 2024, graças ao complemento com recursos provenientes da exploração do petróleo. “Mas fomos atropelados pela Emenda Constitucional 95/2015 [que congela por 20 anos os investimentos públicos nas áreas de Saúde, Educação e Assistência Social], e pela abertura do pré-sal às empresas estrangeiras”.

O pesquisador propõe que os recursos destinados à Educação sejam considerados “investimento dos mais rentáveis”, e não gasto. Esse investimento, acredita, pode inclusive ajudar a resolver uma série de outros problemas sociais. Saviani defende que a contratação de professores em tempo integral e bem remunerados pode ser também uma forma de combater o desemprego e gerar renda, fomentando assim o consumo, o desenvolvimento do setor produtivo e o crescimento econômico – e, conseqüentemente, gerando aumento da arrecadação de recursos públicos, que poderiam ser destinados para investimentos em obras de infraestrutura e geração de novos empregos. “Estaríamos criando o tão desejado círculo virtuoso”.

Saviani utilizou o termo “uberização dos professores” para falar sobre a situação de exploração dos trabalhadores a partir das novas tecnologias. “Agora, os patrões querem que os trabalhadores se tornem empresários de si mesmo”, sinaliza ele, que nota aí um incentivo ao isolamento do trabalhador, de modo que ele não se organize coletivamente e acabe por ser explorado de forma ainda mais intensa e sem qualquer garantia.

Terceiro integrante da mesa, o cientista político Daniel Cara falou sobre o direito à educação, os direitos fundamentais e sociais. Ele considera que, antes mesmo da pandemia, esses direitos já estavam em crise no país. No caso particular da educação, apontou o subfinanciamento das políticas para o setor. Cara também vê com preocupação a ideia de equiparar a educação a distância (EAD) ao ensino presencial, por considerar que essa modalidade não realiza o direito pleno à educação, sobretudo na educação básica.

Além disso, Daniel Cara acredita que para estudantes das periferias e classes sociais desfavorecidas, EAD não é uma realidade. Ele criticou a Medida Provisória 934/2020, que flexibiliza os dias letivos e torna EAD regra durante a pandemia. Também se opôs a um recente parecer do Conselho Nacional de Educação que abre a possibilidade de EAD como “novo normal” no cenário pós-pandemia, aproveitando-se do momento de crise para atender a interesses de grupos educacionais privados, motivados por uma lógica econômica.

A atividade foi moderada pelo professor Cláudio Lira, da Faculdade de Educação da UFBA, que ressaltou a importância da iniciativa de universidade de organizar o Congresso neste momento tão necessário para debater os muitos dilemas atuais, com análises dos dados científicos sobre a pandemia no Brasil e no mundo.

Tecnicismo disfarçado de inovação

Formação de professores, educação online e democratização às redes motivaram debates em conferência realizada no quarto dia de congresso, 21 de maio, com moderação da professora Alessandra Assis  (UFBA), que destacou a necessidade de uma reflexão sobre a viabilidade do processo de ensino-aprendizagem a partir das tecnologias da informação no cenário atual.

O professor Roberto Macedo, diretor da Faculdade de Educação (Faced/UFBA) comentou a importância dos sentidos experienciais e acontecimentais no processo formativo, algo que está muito além de um simples conjuntos de dispositivos técnicos e tecnológicos a serem reproduzidos em modelos padronizados. “Não se aprende ou se forma com o cérebro separado de uma história de vida e de uma cultura”, disse ele, sugerindo que a qualidade da experiência formativa depende de um processo contínuo, um percurso colaborativo, com acontecimentos singulares. “Os sentidos das compreensões vão se transformando ao longo das mediações”, avalia.

Para o professor Nelson Preto (Faced), a vivência em sala de aula evidencia as enormes desigualdades sociais que já existiam no país antes da pandemia. Ele acredita que a crise atual leva a pensar sobre uma série de questões como a arquitetura escolar, que deverá considerar questões como a diminuição do número de estudantes por turma, algo que vem sendo reivindicado há muito tempo pelas entidades de classe. Da mesma maneira, ressaltou importância de se ter uma internet de melhor qualidade nas instituições de ensino e a democratização do acesso às tecnologias digitais.

“Não vamos transferir para a casa das pessoas o que fazíamos nas escolas”, disse ele, pontuando dinâmicas cotidianas e experiências próprias vivenciadas nas instituições de ensino. Ele apontou o risco de a lógica do teletrabalho invadir a vida privada dos docentes, que já demonstram sofrer com a sobrecarga de trabalho. Além disso, o Estado se desresponsabiliza pela infraestrutura necessária, que é transferida para estudantes e professores.

O debate teve a participação da professora Ednéa Santos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que sinalizou o assédio a que professores e instituições de ensino estão submetidas por respostas imediatas para a crise atual, com produção de currículos padronizados a serem replicados. Ela se opõe à EAD massiva, que resgata um neotecnicismo, e reforça a importância de que a educação online seja também um processo experiencial colaborativo e interativo. De acordo com a professora, é preciso ter o encontro, a conversa. “Interatividade não é apenas disponibilizar acesso a conteúdo”, disse, desejando que aulas e desenhos didáticos plurais façam com que o estudante seja não só um consumidor de materiais, mas parte crítica de um processo educacional.

Ensino remoto e a precarização do trabalho docente

“A epidemia da precarização: quarentena, ensino remoto e trabalho docente” foi o título da atividade realizada no dia 22 de maio, que teve entre os seus participantes o professor Eucídio Arruda (UFMG). Conforme apontou ele, a escola é um lugar coletivo, de contato presencial diário e envolvimento de estudantes e professores. Ao observar que a escola se fragiliza com o rompimento dessas conexões, propôs pensar como seria possível uma escola no contexto atual que seja lugar de aproximação e não de distanciamento, a despeito das necessárias medidas de distanciamento físico – termo que julga mais apropriado do que isolamento social.

Ressaltou a importância de formar jovens capazes de se apropriarem das novas tecnologias para produção de conhecimento com sendo crítico e responsabilidade, não apenas como seus consumidores. Ele chamou atenção para como as tecnologias digitais podem reconfigurar as relações do trabalho docente, com demandas por respostas instantâneas e sobrecarga de atividades.

Ele vê possibilidade de uma educação remota emergencial, mas considera que esse modelo não pode permanecer depois da crise provocada pela pandemia. Imagina que o modelo EAD não vai servir, sobretudo, para a educação básica, que demanda um amadurecimento emocional e social que apenas se dá através do contato físico.

O professor também verifica que, mesmo os estudantes que tem Internet disponível para atividades remotas, a maior parte tem problemas na qualidade de acesso e faz esse acesso a partir de aparelhos celulares ou smartphones que apresentam uma série de limitações. E o aluno ainda precisa pagar por esses dados, constata: “É como se pagasse a cada aula”.

Para o professor Jorge Hage (UFBA), uma tecnologia sempre que aplicada podem causar benefícios ou prejuízos à sociedade, mas ela não é boa ou ruim em si. O avanço das tecnologias digitais foi apontada como uma mudança estrutural que influencia em todas as áreas e também na Educação. A Educação a Distância (EAD), que na sua visão faz parte desse processo de transformação digital, confirma uma trajetória de crescimento impulsionado ainda mais pelo cenário de enfrentamento à pandemia.

Haje afirmou que a EAD vem atender a determinadas demandas sociais no campo da Educação, porém precisa de regulamentação adequada, para evitar que seja utilizada como uma estrutural industrial, de produção em série, imposta em modelos que se chocam com o que dizem muitos anos de reflexões pedagógicas. Ele criticou os processos centralizados para estabelecimento de cursos nacionais.

Essa regulamentação, conforme defende, será fundamental para estabelecer mecanismos de avaliação dos cursos, a qualidade dos processos pedagógicos e questões fundamentais como o número máximo de estudantes que cada professor pode atender na modalidade EAD, no combate à precarização do trabalho decente.

Ainda sobre EAD, sinalizou uma carência na área de mediação pedagógica na maior parte dos cursos, considerada por ele determinante para a qualidade do processo de ensino-aprendizagem. De acordo com a legislação atual, a atividade dos tutores, que têm essa função de mediação, não é considerada uma atividade docente.

O encontro foi moderado pelo Pró-reitor de Graduação da UFBA, Penildon Silva Filho, que criticou recente medida do Conselho Nacional de Educação, que, segundo ele, considera praticamente qualquer atividade como dia letivo e qualquer coisa como Educação. Ele verifica muitas pressões para que o ensino remoto seja adotado e uma tendência de sobrecarga do trabalho docente. De todo modo, acredita que as tecnologias digitais serão cada vez mais uma realidade na Educação. “Não vamos voltar ao normal, mas a um novo normal”, afirmou o pró-reitor, prevendo que talvez seja necessário um período de convivência com os efeitos da pandemia.

Educação com inovação

Na programação do terceiro dia do Congresso, 20 de maio, o professor Silvio Meira (UFPE) falou sobre os desafios da educação atual com os jovens da geração Z, aqueles nascidos entre 1998 e 2016, que são mais familiarizados com as tecnologias digitais e compõem a maior parte dos estudantes. Ele pensa que a academia precisa fazer a transição de um modelo analógico para o digital.

Num contexto em que as pessoas têm o acesso facilitado a informações e muitas horas on-line, os professores têm o papel de ajudar a dar sentidos a essas informações e reconhecer o que é importante ou não, sugere Meira. “O processo educacional deve preparar as pessoas para apreender o tempo todo, até os 70, 80, 90 anos”, disse ele, que defendeu um sistema de aprendizagem baseado na conexão entre educação e experiência, com pesquisa, comunicação, colaboração e pensamento crítico – algo bem distante do simples treinamento.

Afirmou também que as instituições de ensino devem se transformar e oferecer plataformas com oportunidades de aprendizagem desenhadas para as necessidades de cada um. “A inovação no ensino digital não é apenas técnica, mas acadêmica, curricular, organizacional”. “Isso muda quase tudo”. Para Meira, as 10 semanas de enfrentamento à pandemia de Covid-19 tiveram grande impacto: “Precisamos aprender na velocidade da crise”.

O professor apontou a necessidade de o ensino a distância ser interativo e citou vantagens, como a possibilidade de fazer isso sem encontros presenciais, além dos arquivos com materiais didáticos que podem ser consultados a qualquer momento. Ele considera que as inovações tecnológicas são muito bem vindas em muitos aspectos e fazem parte de um processo irreversível. Contudo, Meira reconhece as dificuldades de acesso a essas tecnologias por parte dos estudantes e defendeu que são necessárias políticas públicas para inclusão digital.

Por fim, citou o exemplo de universidades estrangeiras que recentemente anunciaram que só retomarão as aulas presenciais em 2021 e questionou o se o mesmo for necessário ser feito no Brasil. “E aí, a gente vai fazer o que?”, questionou sobre o tempo em que as universidades ficarão fechadas. “A universidade precisa reagir e tentar resolver esse problema a partir de agora. “Temos que experimentar coisas novas”, disse.

No debate com Meira, a superintendente de Tecnologia da Informação da UFBA, Fabíola Greve, concordou sobre a necessidade de políticas para inclusão digital e para superação das enormes desigualdades sociais no país. Ela demonstrou preocupação com a precarização do trabalho que as novas tecnologias podem suscitar, estimulando a “uberização” dos professores e a constatação da substituição do trabalho docente por robôs em algumas instituições de ensino.

A superintendente apontou a necessidade de garantir a qualidade de ensino e promover a inovação tecnológica no processo aprendizagem. Ela celebra os recursos tecnológicos que aproximam as pessoas, mas ressalta a importância de preservar a riqueza das relações humanas. “Vamos repensar o nosso fazer e promover a inovação em nossa universidade”, finalizou. A atividade teve moderação do professor Eduardo Almeida, do departamento de Ciências da Informação.

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