Ricardo Galvão alerta para o avanço do desmatamento na Amazônia

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Ricardo Galvão estima que serão mais de 12mil km2 de florestas destruídos no país no ano de 2020

Ricardo Galvão estima que serão mais de 12mil km2 de florestas destruídas no país no ano de 2020

Escolhido pela revista Nature como um dos 10 cientistas de maior destaque no mundo em 2019, o professor Ricardo Galvão (USP) foi um dos convidados do Congresso Virtual UFBA 2020, em conferência realizada na quinta-feira, 28 de maio. Ao falar sobre o tema “Ciência e política ambiental”, relatou a sua passagem à frente do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), entre 2016 e o ano passado, com a experiência no monitoramento do desmatamento na Amazônia. Ele deixou o cargo por divergências com o atual governo, após sair, de forma contundente, em defesa da preservação da floresta.

Segundo dados recentemente divulgados pelo Inpe, foram registrados 89.178 focos de incêndio em 2019 na Amazônia, o que representa um crescimento de 30% em relação ao ano anterior. Galvão estima que serão mais de 12mil km2 de florestas destruídos no país em 2020 – em geral, áreas que serão destinadas para agropecuária, mineração e grilagem de terras, e que são alvo de queimadas que emitem gases causadores do efeito estufa e aquecimento global.

Galvão lembrou o triste exemplo da chuva tóxica que escureceu o céu de São Paulo no ano passado, que trazia fuligem de queimadas na região amazônica, ao exemplificar uma consequência inquestionável dos efeitos climáticos. Em 2020, os alertas de desmatamento bateram recorde nacional no primeiro trimestre. De acordo com o sistema Deter, do Inpe, foram emitidos alertas de desmatamento para 405,6 km2 do território neste ano, em comparação com os 247.7 km2  registrados no mesmo período de 2019.

O gás carbônico produzido por queimadas e combustíveis fósseis absorvem parte da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre e intensificam o efeito estufa que influencia na variação de temperatura do planeta. O professor citou o trabalho fundamental de cientistas para compreender a ação do efeito estufa, com contribuições decisivas de Jean Fournier (1820), John Tyndall (1859), Svante Arrehnius (1896) e Guy Callendar (1938). Esse último apontou o aumento da temperatura da Terra da ordem de 0,3°C entre 1880 e 1937.

“Foi o primeiro grande alerta dado pela ciência”, disse, alertando para as ameaças que isso representa para a biodiversidade e para o aumento no risco de desastres ambientais. Desde então diversos estudos vêm demonstrando o aumento da temperatura média da Terra, entre os quais Galvão citou dados da agência espacial norte-americana (Nasa) e da agência meteorológica do Japão.

Em sua participação, o professor remontou o percurso da ciência para entender as transformações da temperatura do planeta Terra ao longo de milhões de anos, e suas repercussões no nível do mar, no avanço e retração de camadas de gelo, e para a vida no planeta. A paleoclimatologia surge com a análise da variação dessas temperaturas, que é possível ser feita através do estudo da razão dos isótopos de oxigênio 16 e 18, verificada nos gelos polares e conchas no fundo do oceano.

Galvão falou também sobre o trabalho de acompanhamento das imagens de satélite que apontam o crescimento do desmatamento na Amazônia. Somente entre abril e junho do ano passado, foram emitidos 15 alertas diários sobre o desmatamento no Parque Nacional de Jamanxim, que foi alvo da ação de grileiros, afirmou Galvão. Ele assegurou que todas essas informações sempre foram disponibilizadas ao atual governo, que preferiu não tomar nenhuma decisão – e, ao contrário, preferiu questionar os dados do Inpe. O professor destacou o prestígio internacional do instituto e de sua equipe de cientistas, que têm o reconhecimento de entidades como a Organização das Nações Unidas (ONU).

Cooperação e negacionismo

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Ricardo Galvão (USP) dividiu a tela com Suani Rubim de Pinho, do Instituto de Física, e Francisco Barros, do Instituto de Biologia, ambos da UFBA

Ricardo Galvão ressaltou a importância da cooperação entre o Inpe e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) para embasar as ações de fiscalização na região. Contudo, essas ações têm sido coibidas pelo governo, que, segundo observa o professor, não tem interesse em diminuir o desmatamento. Ele condenou a edição da Medida Provisória da regularização fundiária, que abre a possibilidade para a autodeclaração sem vistoria, sem aferir objetivamente a posse da terra, funcionando como um incentivo à grilagem de terras, em prejuízo das comunidades tradicionais e pequenos agricultores.

O professor aponta a importância da Amazônia para a biodiversidade, para o regime de chuvas e no processo de “seqüestro do carbono” que ajuda na diminuição do aquecimento global. Uma árvore da região amazônica põe entre 600 e mil litros de água por dia na atmosfera terrestre, afirmou, calculando que o desmatamento já atinge 20% de área total da floresta brasileira. “Se esse índice chegar a 25%, 30%, sua transformação em savana será irreversível”, considera.

Apesar de todos os alertas e evidências científicas, ele vê um movimento de negação da ciência, sobretudo quando os seus resultados colocam em cheque determinados interesses. Acredita que a preservação do meio ambiente deve ser uma questão de todos, independente de qualquer espectro político. O pesquisador apontou avanços e retrocessos no combate ao desmatamento no país, destacando as contribuições do Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Amazônia Legal por Satélite (Prodes) no envio de alertas para evitar ação de desmatadores. Entre os anos de 2004 e 2012, graças às ações de fiscalização embasadas por suas informações, houve uma redução de mais de 80% no desmatamento, afirmou o professor, lembrando que o Brasil já foi reconhecido internacionalmente como exemplo de proteção ambiental.

Galvão observa que as queimadas representam um risco para o crescimento de problemas pulmonares, e se preocupa com uma sobreposição de casos que pode haver devido aos efeitos provocados pela pandemia de Covid-19. Ele critica a negação dos fatos e defende que a ciência precisa ser priorizada para o desenvolvimento do país. “Quando se trata de questões científicas, não existe autoridade acima da soberania da ciência”, disse.

Participaram da videoconferência a professora Suani Rubim de Pinho, do Instituto de Física, e o professor Francisco Barros, do Instituto de Biologia, ambos da UFBA. Suani ressaltou a importância do trabalho de Ricardo Galvão à frente do Inpe, com a sua postura firme em defesa da ciência e da Amazônia. E agradeceu pela suas contribuições no debate sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global. “Temos uma figura de grande projeção para todos nós”, celebrou.

O professor Francisco Barros falou sobre os impactos das mudanças climáticas. Citou estudo desenvolvido do Instituto de Biologia, segundo o qual podem ser extintas mais de 4 mil espécies de vertebrados até o ano de 2040, entre mamíferos, aves, peixes e répteis, em razão da degradação de seus habitats. Ele julga que será preciso repensar modelos de desenvolvimento, novas formas de fazer negócios, com sustentabilidade e distribuição de renda.

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