“Tô te ouvindo, Gregório” – crônica de uma entrevista inusitada

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“A UFBA faz parte da minha utopia, de um Brasil utópico que eu acredito.” A frase dita pelo humorista e cronista Gregório Duvivier, na entrevista concedida à estudante do curso de letras da UFBA (e também cronista) Indra Ijuí, marcou o Congresso Virtual UFBA 2020. Mas como será que Gregório Duvivier veio parar no Congresso? O Edgardigital convidou Indra Ijuí – que encantou o público quase tanto quanto o entrevistado – a contar, com uma crônica, como surgiu o convite a Gregório e como foi a experiência de entrevistá-lo.

“Tô te ouvindo”

Indra Ijuí

“Tá me ouvindo?”, Gregório me perguntou nos segundos iniciais da entrevista. Essa seria só mais uma pergunta de só mais uma chamada de vídeo, não fosse Gregório me perguntando e não fosse eu sendo perguntada. “Sim, tô te ouvindo direitinho”, respondi, parecendo me referir àquela chamada de vídeo e escondendo sob o sorriso o fato de que eu me referia a uma vida inteira.

A primeira vez que ouvi Gregório, eu tava na casa da minha vó. Ele aparecia na TV e eu ouvia sua voz junto com o barulho de bife fritando. Minha vó estava na cozinha fazendo almoço, até que veio pra sala, curiosa para saber o que eu assistia com tanta atenção. Sentou do meu lado e, instantaneamente, ficou também vidrada e encantada ouvindo Greg, só saindo dali depois de alguns minutos, quando começou a sentir o cheiro do bife queimado.

A partir daí, eu ouvi Gregório por anos, volta e meia acompanhada pelo cheiro de alguma comida queimando. A voz de Gregório se tornou tão familiar para mim que, mesmo quando não estou ouvindo, consigo ouvir. Tem mensagem escrita dele que eu leio ouvindo sua voz. Tem poema que só ganha beleza sendo recitado na voz dele. A música “Menina Amanhã de Manhã”, conhecida na voz de Tom Zé, toca na minha mente na interpretação de Gregório. Os melhores conselhos de que eu me lembro nos momentos de medo soam mais encorajadores na voz dele.

Eu ouvi áudio de Gregório enquanto estava internada, muito doente. Eu ouvi Gregório quando ele me deu toques sobre tomar uma ou outra decisão com mais autonomia, e quando ele deu dicas de livros que mudaram a minha vida. Eu ouvi Gregório quando comecei a entender alguma coisa sobre esse país. E quando desentendi tudo sobre o amor, ao ver que um amor que seria pra sempre acabou. De política à desilusão amorosa, passando por literatura e MPB, eu ouvi Gregório.

Acostumada, mas nunca enjoada da minha voz preferida, encontrei no Congresso Virtual da universidade uma oportunidade de ouvi-lo falar um pouquinho mais, vai que ainda não tivesse ouvido o suficiente nessa vida. A entrevista foi maravilhosa. O diálogo me trouxe muitas respostas, menos uma: já ouvi Gregório o suficiente? Na dúvida, o jeito vai ser ouvir muito ainda, feito um mantra incansável. Como se fosse a narração que acompanha uma vida inteira.

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano, dizia Paulo Mendes Campos. Eu, que tenho percebido dentro de mim e nos olhares dos meus amigos o reflexo desse mundo virado de ponta-cabeça, encontro no meu mantra uma fuga ao espanto. Acho que se a coragem tivesse um timbre, seria o dele.

O autor ainda dizia: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Diante do surto da pandemia e das ameaças constantes à democracia, me flagro supondo que o sentido talvez seja ouvir. Ouvir e abraçar a arte de quem faz o mundo ainda parecer bonito, reescrevendo no meio desse enredo caótico algum sentido.

“Tá me ouvindo?”, Gregório me perguntou. Sim, tô te ouvindo direitinho. Há muito tempo. Sempre. Que sorte a minha.

3 thoughts on ““Tô te ouvindo, Gregório” – crônica de uma entrevista inusitada

  1. Maravilhosa essa crônica da Indra Injuí sobre/com Gregório Duvivier. Um momento muito especial no isolamento da pandemia. Tenho 70 anos, sou jornalista, vivo sózinho porque “desentendi tudo sobre o amor, ao ver que um amor que seria pra sempre acabou”. Pois essa crônica de uma entrevista inusitada, fez meu dia. Uma epifania. Pois é.

  2. Belíssimo texto, Indra, e excelente entrevista. Gregório é uma das pessoas que nos ajudam a seguir em frente no meio dessa loucura que se instalou no País. Parabéns!

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