Reitoras e reitores debatem papel da universidade no enfrentamento da pandemia

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Fernanda Caldas e Josemara Veloso

Reitoras e reitores de instituições de ensino superior marcaram presença no Congresso Virtual UFBA 2020, integrando e mediando mesas de discussão. O papel e a importância da Universidade no contexto de pandemia do novo coronavírus deram o tom dos debates da série “Universidade e Pandemia”, que reuniu vários deles em mesas sobre aspectos diversos da temática. Em comum à maior parte das falas apareceram o destaque à ciência e à pesquisa como caminhos para enfrentamento da crise, que apresenta múltiplas faces e afligem o campo da saúde, sobretudo, mas também da economia e da educação.

A série “Universidade e Pandemia” teve quatro mesas durante os dez dias de evento. Destaque também para a apresentação feita pelo reitor da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal, do projeto de pesquisa que faz um raio-x sobre a Covid-19 no país, o Epicovid19-BR, que recentemente foi alvo da hostilidade de grupos obscurantistas e anticientíficos contrários à realização do estudo.

Universidade e pandemia I

A primeira mesa da série foi realizada em 19 de maio e debateu sobre os desafios do “novo normal” e outras alternativas para o retorno das atividades universitárias, com qualidade e inclusão, no pós-pandemia. O debate, que reuniu as reitoras das Universidades Federais do Acre (UFAC), Margarida Aquino; de Brasília (UNB), Márcia Abrahão; de Minas Gerais (UFMG), Sandra Goulart e do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Pires, contou com a apresentação do anfitrião, o reitor da UFBA, João Carlos Salles.

As docentes defenderam mais investimentos em ciência e tecnologia para que as universidades cumpram sua missão e realize pesquisas e estudos para conhecer mais sobre o novo coronavírus, na busca de vacinas e medicamentos para tratamento da Covid-19. A professora Sandra Goulart (UFMG) afirmou que “a ciência nunca foi tão urgente como nesse tempo de pandemia.  A pesquisa e a extensão tornaram-se visíveis e centrais para a sociedade e estão a serviço do país”.

Segundo Margarida Aquino (UFAC), “foram muito relevantes as ações de comunicação com instruções sobre o enfrentamento da pandemia e desmitificação de fake news, mostrando os resultados de descobertas científicas”.

A reitora Denise Pires, da UFRJ, enfatizou que a pandemia “escancarou as desigualdades sócias do país, que poderia ter se preparado melhor para evitar milhares de mortes”. Ela também citou a luta contra fatos referentes à negação da ciência, o que impede investimentos que podem levar à descoberta de uma vacina contra a Covid-19.  Sem esse recurso, Pires não vê possibilidade de retorno à normalidade das atividades das comunidades universitárias.

Universidade e pandemia II

A ênfase no cumprimento da missão social das universidades, mediante a realização de ações nas comunidades de seus entornos, foi o mote da segunda mesa da série “universidade e pandemia”, que reuniu, na noite de 21 de maio, os reitores das Universidades Federais de Alfenas (Unifal), Sérgio Cerqueira; de Juiz de Fora (UFJF), Sandro Cerveira; do Piauí (UFPI), José Arimatéia Dantes Lopes e de Uberlândia (UFU), Valder Steffen.

O professor Cerveira mostrou como a Unifal fez adaptações de projetos de extensão, adequando-os ao momento, observando o cuidado com a segurança e saúde de professores, técnicos e alunos envolvidos, ao mesmo tempo que presta serviços às comunidades das três cidades em que a instituição tem campi, a fim de apoiar os serviços de saúde locais no combate à Covid-19.

O professor José de Arimateia ressaltou que a UFPI foi a instituição de ensino de seu estado que mais contribui com as autoridades no enfrentamento da pandemia. Segundo Arimateia, foram criados diversos grupos tratando de temas específicos para implementação de ações, principalmente, na informação da comunidade e promoção do isolamento social.

Levar um bálsamo e alívio para a preocupação e ansiedade das pessoas, nesse momento de incertezas da pandemia, tem sido uma das fortes atuações da Federal de Uberlândia (UFU).  Segundo o reitor Valder Steffen, a instituição tem investido no trabalho intenso de atendimento psicológico e atividades no campo da cultura e culinária.

Universidade e pandemia III

Em 27 de maio, a terceira mesa da série contou com as falas dos reitores Marcus David, da universidade federal de Juiz de Fora (UFJF); de Dácio Matheus, da Universidade Federal do ABC (UFABC), e teve moderação de Edward Madureira, reitor da Universidade Federal de Goiás (UFG).

O reitor da UFJF falou sobre as consequências econômicas da pandemia e seus impactos no financiamento da educação e da ciência. Economista, David fez reflexões sobre a dimensão econômica da crise, os impactos da crise na estrutural fiscal do país, estratégias econômicas para superação da crise, por fim, falou sobre educação superior e ciência na crise. Em sua visão, o mundo vive uma das maiores crises econômicas da história. Contudo, observou que “a origem da crise econômica não é o isolamento social, mas a própria pandemia”. Para ele, o enfrentamento da crise demonstra a importância estratégica das universidades e da ciência.

O reitor da UFABC, Dácio Matheus, também enalteceu o papel das universidades no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus. Como exemplo, destacou a mobilização de mil projetos de enfrentamento da Covid-19 e suas consequências pelas universidades do país em apenas um mês. “Isso se dá pela capacidade já instalada, e sobretudo do investimento de formação de cientistas brasileiros que leva décadas”. Entre as iniciativas, pesquisas de ciência e tecnologia, estudos de estatísticas, monitoramentos, para fazer predições de estratégias de políticas públicas necessárias ao enfrentamento da pandemia, ações comunitárias, apoio a empresas, entre outros.

Universidade e pandemia IV

Na última mesa da série, os reitores Cleuza Sobral Dias, do Rio Grande (FURG); Rui Opperman, do Rio Grande do Sul (UFRGS), Alfredo Gomes, de Pernambuco (UFPE) trouxeram mais pontos à discussão sobre a importância da pesquisa e ciência no enfrentamento da pandemia. A ex-reitora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Maria José de Sena, mediou a conversa e ressaltou que “todas as competências precisam ser reunir para resolução de problemas para podermos sair fortalecidos dessa pandemia”.

O papel estratégico das universidades, “sobretudo as universidades públicas para o desenvolvimento social, econômico, humano, dentro de uma perspectiva de sustentabilidade para um projeto de um país” foi abordado por Alfredo Gomes (UFPE). “É preciso que o Estado brasileiro tenha um entendimento claro dessa questão para que assim aporte recursos, políticas educacionais adequadas, para que nós possamos continuar cumprindo a relevante tarefa de servir bem ao Brasil, de servir bem a todas as áreas de conhecimento”, afirmou. Ele também destacou que a liberdade acadêmica é necessária para a subsistência da Universidade.

Rui Opperman (UFRGS) avalia as universidades como um patrimônio da sociedade e lamentou que o país não apresenta atenuação do avanço do Covid, cujo pico está previsto para julho. Após citar alguns estudos, a exemplo do levantamento da população em isolamento no rio Grande do Sul – que atinge até 67% -, e ações múltiplas de ações contra a covid-19, atendimento em hospitais universitários, produção de insumos, atenção a pessoas em vulnerabilidade e mulheres grávidas, ele observou: “Antes da pandemia nós estávamos precisando defender a nossa razão de sermos públicas, gratuitas e inclusivas. Vocês se lembram dos ataques feitos às universidades federais? Estávamos sob um ataque injusto e equivocado. Pois a pandemia veio demonstrar como as universidades públicas são importantes na sociedade, seja pelos seus hospitais, seja pelas pesquisas ou atividades de extensão. Aliás, a pandemia veio mostrar que políticas públicas e financiamento público são estratégias imbatíveis para a superação de crises e para o desenvolvimento sustentável do país”.

Em diálogo com a contextualização das ações das universidades do Rio Grande do Sul feita por Opperman, Cleuza Sobral Dias (FURG) reforçou o papel social das universidades, citando ações realizadas no estado de combate à pandemia e seus efeitos, a exemplo do desenvolvimento de sistemas tecnológicos para auxiliar microempresários em vendas online, tele acolhimento psicológico e social, telecoronavírus, leitos hospitalares, entre outros.

Um raio-x da Covid-19 no Brasil

A mesa com Pedro Hallal, coordenador do maior estudo epidemiológico sobre covid-19 no Brasil e reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), foi realizada em 22 de maio e fez um raio-x da Covid-19 no Brasil. Os médicos Antonio Cláudio Nóbrega, reitor da Universidade Federal Fluminense (UFF), e Eduardo Mota, pró-reitor de Planejamento e Orçamento da UFBA, foram os debatedores. A moderação foi feita pelo reitor da UFBA, João Carlos Salles.

Hallal coordena o estudo acadêmico sobre o avanço da Covid-19 baseado em testes rápido, o Epicovid19-BR. “Esse é um estudo que tem um esforço da academia, representada por 13 universidades gaúchas; esforço do poder público, representado pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul e Ministério da Saúde; e da Sociedade Civil, representada pelas empresas que colaboraram no financiamento”.

A coleta de dados da primeira fase do projeto nacional foi encerrada o dia anterior à mesa, em 21 de maio, e realizou mais de 25 mil testes e entrevistas. Ele assegurou o importante papel da universidade, da ciência e do Sistema Único de Saúde (SUS). “Esses três conceitos saem fortalecidos, porque, quando o país está precisando, mesmo subfinanciados, mesmo desvalorizados às vezes pelos gestores, mesmo com os cortes rigorosos à ciência e tecnologia nos últimos anos, mesmo assim, quando o estado brasileiro se colocou numa situação de calamidade decorrente de uma pandemia, esses três órgãos ou conceitos estão respondendo”, afirmou. Ele enfatizou o papel do SUS especialmente pela sua característica de territorialidade, o que “faz com que a população brasileira tenha um ponto de contato, tenha onde ir no seu bairro, para ver se precisa de um atendimento especializado ou não, e isso evita que a pessoa circule mais”, dificultando a circulação do vírus.

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