Aos 80, Paulo Ormindo reafirma sua trajetória pública em defesa da cidade

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Paulo Ormindo, 80 anos: “Não queria vender minha alma ao diabo da especulação imobiliária”

“Não queria vender minha alma ao diabo da especulação imobiliária”, disse o arquiteto, urbanista e professor Paulo Ormindo de Azevedo em entrevista no dia 14 março, quando comemorou seus 80 anos. Ele explicava a sua trajetória profissional e a opção pela área cultural, com foco em projetos arquitetônicos de prédios e monumentos históricos que incluem a restauração do Mercado Modelo, em Salvador, do Convento do Carmo, em Cachoeira, e do Centro Cultural Dannemann, em São Félix.

Paulo Ormindo foi homenageado pelo aniversário e pelos 50 anos de carreira dedicada à arquitetura e ao urbanismo, em uma cerimônia que aconteceu na quinta-feira, 16, no Palacete Góes Calmon, promovida pela Academia de Letras da Bahia em parceria com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia, Instituto dos Arquitetos do Brasil (Departamento da Bahia) e Universidade Federal da Bahia – instituições para as quais ele tem contribuído ao longo de sua trajetória. Na ocasião, Paulo Ormindo também lançou o seu livro “A Memória das Pedras”, que reúne contos e crônicas com reflexões que resultam de viagens a diversas cidades do mundo.

Professor titular da UFBA, aposentado da Faculdade de Arquitetura, onde continua colaborador no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Paulo Ormindo segue sempre atuante na discussão sobre o planejamento urbano e os problemas da cidade. Por mais de 30 anos, coordenou a elaboração do inventário de proteção do Acervo Cultural da Bahia (IPAC-BA). Foi consultor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Organização das Nações Unidades para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para assuntos de restauração de monumentos e sítios, com numerosas missões na América do Sul, Caribe e África. Na Itália, país que ele considera “um museu a céu aberto que reúne boa parte da história da humanidade”, recebeu o título de Doutor em restauração de monumentos e sítios pela Universitá Degli Studi de Roma.

Ligado a uma família que tem laços profundos com as ciências sociais, filho do antropólogo Thales de Azevedo e de Dona Mariá David de Azevedo, ele relembra a convivência com importantes personalidades ligadas à área, entre os quais Darci Ribeiro, Roberto DaMatta e Anísio Teixeira. A sua formação familiar ajuda em parte a explicar sua opção profissional pela preservação do patrimônio cultural e sua preocupação com as questões sociais.

Na luta cotidiana em defesa de suas convicções e ideais, o professor Paulo Ormindo mantém uma coluna quinzenal do jornal A Tarde em que aborda questões que afetam Salvador, como a falta de espaços públicos de socialização e a pouca participação popular na elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU). Na entrevista a seguir, ele faz uma série de críticas a projetos como a construção da ponte Salvador-Itaparica e do metrô:

 

Qual é a emoção de receber a homenagem da Academia de Letras da Bahia em parceria com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia, Instituto dos Arquitetos do Brasil e UFBA?

A homenagem me surpreendeu pela importância das instituições envolvidas. Acredito que não é porque eu seja o arquiteto da moda ou de grife, mas pela luta que represento em defesa da cidade de Salvador que vem sendo agredida por projetos comandados por grupos empresariais.

 

Poderia falar um pouco sobre o seu livro A Memória das Pedras?

O livro reúne contos e crônicas com reflexões que resultam de viagens que fiz a diversas cidades do mundo. Comecei a escrever muito cedo, antes de entrar na faculdade, e também produzia relatórios no trabalho de consultor para a Unesco e o Iphan. Com a convivência na Academia de Letras da Bahia, eu pude me entrosar mais nos mistérios do faz de conta da literatura e da poesia. Esse livro traz um pouco dessa experiência. 

 

Em sua coluna no jornal A Tarde, o senhor tem feito criticas a uma série de projetos da administração pública, por exemplo, a construção do metrô e da ponte Salvador-Itaparica.

Faço críticas a uma série de projetos que, no meu entendimento, não estão inseridos em um planejamento global para a cidade e para o Estado. O metrô que está sendo construído na Avenida Paralela, por exemplo, é uma fronteira intransponível que vai dividir a cidade ao meio. Os viadutos não permitem a passagem dos ciclistas e dos pedestres. Não sou contra o metrô, mas sim contra a forma como o projeto foi concebido.

Também sou contrário à construção da ponte Salvador–Itaparica, que foi pensada como um projeto viário para trazer a produção de grãos do oeste baiano para o porto de Salvador, que, no entanto, já está saturado e não tem capacidade de absorver essa produção. Em relação ao argumento de que a ponte vai estimular o turismo no Baixo Sul do Estado, a construção do aeroporto de Ilhéus já cumpre essa função de atração turística para a região e o avião deverá ser a opção escolhida pelos turistas. Será uma ponte em mão única em razão da atratividade de Salvador e do litoral, onde estão concentrados os investimentos. Por outro lado, núcleos comerciais como Santo Antônio de Jesus, Feira de Santana e Valença perderiam atratividade, sobrecarregando Salvador com uma grande demanda por serviços.

Além disso, a proposta de substituição do transporte fluvial pelo terrestre, com a construção da ponte, também não deve acontecer. Veja o exemplo da ponte Rio – Niterói, que não substituiu o transporte por água entre as duas cidades, devido ao fato de as pessoas preferirem essa opção para evitar os congestionamentos e pela dificuldade de estacionamento para carros na cidade do Rio de Janeiro.

Outro projeto que critico é a reforma do bairro da Barra. O que se fez ali foi um palco para o trio elétrico durante os cinco dias do ano [do carnaval]. Os bares, comércios e hospedarias sentiram a falta de movimento no local.

 

Como alternativa à ponte Salvador – Itaparica, sua sugestão seria um cinturão rodo-ferroviário envolvendo a Baia de Todos os Santos?

A construção de uma estrada envolvendo a Baia de Todos os Santos, ligando Salvador ao Recôncavo, seria uma alternativa com muito mais possibilidades de desenvolvimento para o Estado. Um cinturão rodo-ferroviário em volta da baia teria a vantagem de integrar quatro portos (Salvador, Aratu e Temadre e São Roque) e criar uma bifurcação nas proximidades de Santo Amaro, articulando-se à ferrovia de Nazaré por um lado, e a Feira de Santana e Alagoinhas, por outro, beneficiando ainda uma série de regiões, como o estaleiro do Paraguaçu, onde estão a refinaria Landulpho Alves e o centro de Aratu.

 

Qual a sua avaliação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de Salvador?

O PDDU foi elaborado por uma equipe de São Paulo, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), sem nenhuma vivência na cidade, e traz uma visão economicista e com o foco em arrecadação de dinheiro. Não reflete a cidade e não considera as questões sociais. Apenas vem atender a exigências legais para receber recursos do governo federal.

Falta participação popular na elaboração do Plano. A aproximação da comunidade com a discussão do projeto se deu apenas através de equipes de especialistas que passavam informações em power point, com um tipo de linguagem pouco acessível à população em geral. O único grupo que teve acesso à minuta do documento e que influiu efetivamente na construção do PDDU foi a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi).

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“A sociedade tem que se mobilizar, de fato, para criar um projeto para a cidade”

 

E qual a importância da participação popular no planejamento da cidade?

A sociedade tem que se mobilizar para elaborar um projeto, de fato, para a cidade. Participo do fórum ‘A Cidade Também é Nossa’, que está envolvido em ações como a luta contra a retirada dos moradores dos imóveis da Ladeira da Conceição da Praia – muitos que estão lá há 50 anos, para dar lugar a empreendimentos de luxo. [O movimento desenvolve ações na busca por soluções focadas na responsabilidade social, no debate das políticas públicas do Município de Salvador e Região Metropolitana e na inserção de entidades na discussão dos temas de interesse da sociedade, visando exercitar o controle social].

 

Em uma de suas colunas mais recentes no jornal, o senhor faz uma reflexão sobre a falta de espaços de socialidade em Salvador. De que maneira esses espaços são importantes para a cidade e sua população?

A coesão de uma sociedade depende da convivência da sua população. Sempre houve espaços como as feiras da Água de Meninos, a rampa do Mercado Modelo, feira da Lenha, no Bonfim, Barra, Rio Vermelho e Itapuã. Feiras e festas populares aconteciam com as ruas fechadas, mas tudo isso foi se acabando com a ditadura do automóvel. Não se pode mais fechar as ruas.

Salvador sempre foi uma cidade com uma cultura muito forte, com feiras e festas de largo que estão desaparecendo. A administração tem que considerar essas tradições. As grandes cidades do mundo mantêm as suas feiras e festas vivas. Enquanto em muitos desses lugares o poder público paga para os músicos tocarem em espaços como metrôs e praças, aqui a administração quer cobrar dos músicos para a se apresentarem nos espaços públicos. A questão da segurança, por exemplo, está muito ligada à ocupação desses espaços, e a presença dos ambulantes também cumpre essa função.

Algumas pessoas me acusam de ser saudosista, mas há muitas feiras atualmente em todo o mundo, em países como Portugal e França, e em grandes metrópoles como São Paulo, que mantêm esses espaços onde se vende frutas, verduras, artesanato, lugares em que os vizinhos se reúnem e os feirantes encontram os seus clientes. A Bahia perdeu muito disso. Hoje apenas algumas praças inóspitas têm sido construídas, sem sombreamento, sem prestação de serviços, sem nada.

 

Quais a principais mudanças na arquitetura e urbanismo observadas ao longo dos seus 50 anos de carreira?

O extinto Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador (EPUCS) desenvolveu, nos anos de 1940, um projeto para a cidade com uma formação sanitarista e sem uma visão social, investindo na construção das grandes avenidas de vale que se transformaram em corredores comerciais. Até os anos 1960, o setor imobiliário não estava estruturado de uma maneira capitalista, com a participação das Ademis da vida [Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário]. A partir de então, a coisa ficou disputada e feia. O exemplo disso é a verticalização do Corredor da Vitória, que hoje não preserva quase nenhum dos seus antigos casarões. Isso se estendeu para toda a cidade e tem vezes que não sei se estou em Salvador ou São Paulo, pois não consigo ver o mar.

A indústria imobiliária sempre teve uma grande ambição pela orla atlântica da cidade. Embora existam fatores que tornam essa região pouco adequada para moradia, como a salinidade muito forte devido à arrebentação das ondas e à maresia, decorrente também da destruição da vegetação local, isso não diminui o interesse do mercado pela região.

 

O que o senhor pensa da atual crise imobiliária no país?

Fatores como a diminuição do crescimento demográfico e a consolidação do processo de urbanização brasileira há algumas décadas têm a ver com a crise imobiliária. A pressão habitacional não é mais tão grande quanto nos anos 1970, mas há ainda um significativo passivo habitacional que precisa de melhores condições de moradia.

 

O que podemos esperar das ações para revitalizar o Centro Histórico de Salvador com empreendimentos como o Palace Hotel?

Acho interessante a ideia de revitalizar o Centro Histórico com novos empreendimentos, mas falta acessibilidade e infraestrutura. Sem um plano básico nesse sentido não vai se recuperar aquela região. A prefeitura nunca se ocupou do Centro Histórico de fato. O Palace Hotel, na rua Chile, teve a sua inauguração adiada porque não tinha água. Por aí você pode imaginar a falta de estrutura básica para aquela zona. Soube, por exemplo, que o Banco Itaú quer passar a administração das salas de cinema que mantém na praça Castro Alves para o governo do Estado. Faltam vagas de estacionamento e segurança.

O então governador Antônio Carlos Magalhães expulsou a população do Centro Histórico em uma reforma promovida no ano de 1992. Mas boa parte dessas pessoas não saiu de lá. O que aconteceu foi uma favelização de algumas áreas que passaram a abrigar essa população mais vulnerável. No Centro Cultural da Barroquinha existem atualmente muitos imóveis escorados que não se sabe nem quem são os proprietários. Há risco de desabamentos e mortes. Muitos casarões poderiam ser recuperados e destinados a famílias de baixa renda através do programa Minha Casa Minha Vida. Mas não querem a população de baixa renda naquela região.

 

Como o sistema de planejamento urbano pode ajudar no combate à corrupção, especialmente em relação às obras públicas?

A redução do estado, com a ascensão do neoliberalismo, provocou um desmonte da administração pública no país, que acabou com o seu sistema de fiscalização e ordenamento, com o fim de entidades como o Departamento de Infraestrutura de Transportes da Bahia (Derba). Antes existiam grandes empresas que faziam o planejamento das obras públicas para que fossem executadas por outras empresas.

O Estado precisa ser modernizado, com a atualização de funcionários, criação de entidades de fiscalização e modernização do sistema de gestão. Nas obras realizadas para a Copa do Mundo/2014 e as Olimpíadas/2016, foi decretado um regime especial de contratação que não demandou nem sequer o projeto básico. Veja o exemplo do viaduto feito para a Copa do Mundo em Belo Horizonte, que caiu antes de ser inaugurado, e do estádio do Maracanã, que foi devolvido ao Estado pela Odebrecht, que não quer mais administrá-lo. Muitos desses estádios hoje estão acabados, sucateados. Quando você não tem um projeto, não tem como fiscalizar.

O problema da corrupção no Brasil decorre de um regime político híbrido – nem propriamente presidencialista e nem parlamentarista, em que para governar o país tem que subornar, pois não existe a fidelidade partidária, que é negociada em troca de obras, cargos públicos e emendas parlamentares.

 

Qual o sentimento de poder contribuir com a preservação do patrimônio cultural com projetos como o inventário de proteção do Acervo Cultural da Bahia, a restauração do Mercado Modelo, em Salvador, e do Convento do Carmo, em Cachoeira?

Coordenei, por mais de 30 anos, a elaboração do inventário de proteção do Acervo Cultural da Bahia, o maior já realizado no Brasil. Considero que ajudei as pessoas a se darem conta do valor do patrimônio histórico, com obras tombadas e o reconhecimento de outros tantos bens de valor cultural que foram preservados da especulação imobiliária. A preservação dos prédios tombados, no entanto, depende muito também da contribuição dos proprietários e usuários dos imóveis. Alguns preferem deixar os imóveis desabarem e retornarem à condição de solo urbano, que tem um maior valor de mercado.

 

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