Novos Mestre e Doutora revelam avanços da pluralidade na UFBA

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Nesse mês rosa de outubro, segundo do semestre letivo suplementar 2020, a Universidade Federal da Bahia graduou, remotamente, um novo mestre em Música e uma nova doutora em Engenharia Civil que, embora de áreas aparentemente distintas, revelam, nas suas trajetórias de conquistas, a face de uma Universidade preocupada, cotidianamente, com a redução das desigualdades e, consequentemente, com o aumento da pluralidade dentro do seu espaço acadêmico.

O primeiro doutoramento do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil – O PPEC, da Escola Politécnica da UFBA foi conquistado por Fernanda Nepomuceno Costa. A nova doutora tem dois filhos, Lucas com 14 e Lara com 5 anos, e o desejo de participar da construção da ponte Salvador/Itaparica.

O novo mestre em Etnomusicologia da Escola de Música da UFBA é Andeson Cleonardo, indígena do povo Pankararu, que vive no estado vizinho de Pernambuco. Pai de Iaponã, de 3 anos, quer fazer da sua música instrumento de luta musical pela emancipação do seu povo, que perversamente tarda. São as suas trajetórias de vida que os novos mestre e doutora da UFBA nos contam, usando as suas próprias palavras.

Trajetória da doutora por ela mesma

Foto 01 -Doutora Fernanada Nepomuceno Costa (Acervo pessoal)

Fernanda Nepomuceno Costa, doutora em Engenharia Civil pela Escola Politécnica

Meu interesse pela área de Exatas começou na 5ª série do antigo primeiro grau. Tive dificuldades com a disciplina Matemática, mas com uma excelente professora que me motivou a não ficar em recuperação, me dando o desafio de tirar 10 na última prova do ano.

O desafio foi aceito e consegui a aprovação. A partir desse momento, passei a gostar muito de Matemática e ao concluir o ensino médio me dediquei muito aos estudos, pois acreditava que este seria o único caminho para melhorar a situação de vida difícil que eu e minha família levávamos.

Minha mãe veio de família pobre, da cidade de Pedrão-BA. Prestei vestibular para Engenharia Civil, sendo aprovada na UEFS em 1997. Foi um momento de muita alegria e esperança por um futuro melhor, pois eu como filha caçula segui um caminho diferente dos meus três irmãos e fui a primeira a concluir um curso superior.

Enquanto estudante universitária tive algumas experiências em estágios: na área administrativa (DCIS/UEFS), na secretaria de planejamento da Prefeitura de Feira de Santana (SEPLAN) atuando com projetos, em contato com arquitetos e engenheiros, e numa obra de edificação vertical.

Na UEFS, nos últimos dois semestres, tive a oportunidade de me aproximar de três professores brilhantes que foram minha inspiração para seguir a carreira acadêmica: Profº Cristóvão Carneiro, Profª Visitante Tamara Avellan (Estrangeira) e Profº Washington Moura, além de fazer Iniciação Científica de forma voluntária.

Antes mesmo da colação de grau em Engenharia Civil, eu já havia sido aprovada no Mestrado em dois programas de pós-graduação no país, escolhendo a UFRGS/NORIE, em Porto Alegre. Após a conclusão do Mestrado, em 2005, fui convidada para desenvolver um trabalho numa grande construtora de Sergipe, sendo Engenheira de Tecnologia e Inovação.

Lá em Aracaju, passei na seleção para professor substituto no CEFET-SE, quando comecei minha atuação com a docência. Foi um período muito enriquecedor, onde comecei a colocar em prática o aprendizado na graduação e na pós-graduação, sendo meu primeiro emprego e minha primeira fonte de renda.

Em 2007, com grande vontade de trabalhar na Bahia, retornei para minha residência em Feira de Santana, mas a oportunidade de trabalho foi em Salvador, numa empresa de Engenharia, para atuar no setor de tecnologia dos materiais (concreto e argamassa).

Mais uma vez, foi um grande momento da minha carreira profissional, com enorme aprendizado, com um chefe maravilhoso, o engenheiro e também professor da UFBA, Antônio Sérgio Ramos da Silva. Nessa mesma época, juntamente com o profº Antônio Sérgio, lecionei na Universidade Católica de Salvador, no curso de Engenharia Civil, e no SENAI, no curso de Edificações. A cada dia eu estava realizada e encantada com as oportunidades que a vida estava me dando!

Mas o meu grande objetivo era seguir a carreira acadêmica e eu sabia que meu lugar era na universidade. Foi quando em 2009 participei de quatro concursos públicos para professor efetivo, sendo aprovada em todos!

Minha escolha foi tomar posse na UFRB, em Cruz das Almas, no Recôncavo baiano. Uma universidade jovem e que, em poucos meses de trabalho, fui convidada a implantar e coordenar o curso de Engenharia Civil. Foi um momento muito desafiador, mas que desenvolvi com afinco e dedicação.

Grupo do LEDMa

Com necessidade de aumentar minha capacitação, iniciei em 2016 o doutoramento na UFBA, no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil (PPEC), com a orientação do Profº Daniel Véras Ribeiro.

Minha pesquisa de doutorado foi desenvolvida no LEDMa/UFBA (Laboratório de Ensaios em Durabilidade dos Materiais), pesquisando sobre a reutilização de resíduo de construção civil (RCC) como matéria-prima alternativa para produzir cimento, reduzindo a necessidade de extração de argila e calcário, materiais naturais de uso tradicional na indústria cimenteira.

Dessa forma, a pesquisa aborda dois grandes problemas da sociedade contemporânea: os impactos ambientais causados pela indústria cimenteira e a destinação inadequada de RCC.

Mesmo com o cancelamento do calendário letivo na UFBA e interrupção das atividades presenciais, por causa da pandemia da COVID-19, a defesa final só foi viabilizada a partir de um acesso excepcional solicitado à Escola Politécnica da UFBA, autorizado pela diretora Profª Tatiana Dumet, seguindo um protocolo de segurança.

Assim, foi possível a retomada das atividades da pesquisa e finalização do programa experimental e da tese, que já se encontrava num nível avançado da escrita. A defesa final ocorreu em 2 de outubro de 2020.

Foi um momento histórico para o Programa de Pós Graduação, uma vez que esta foi a primeira defesa de doutorado em Engenharia Civil da Universidade Federal da Bahia em seus 123 anos de existência.
O PPEC possui apenas 4 anos de existência e substituiu o Programa de Pós Graduação em Engenharia Ambiental e Urbana (MEAU), fundado em 1997.

Com atuação na área de Tecnologia da Construção e Materiais, uma obra na Bahia que eu gostaria de ter participado da equipe técnica foi a construção da Arena Fonte Nova e uma obra na Bahia que eu gostaria de participar do corpo de especialistas é a Ponte Salvador-Itaparica. (Esta foi a resposta à única pergunta que o Edgardigital fez à Fernanda).

Marco

Para a Diretora da Escola Politécnica, Professora Tatiana Bittencourt Dumet, “é emblemático que a primeira doutora em Engenharia Civil da UFBA seja uma mulher, é um sinal de mudança na nossa profissão. O curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica foi um dos primeiros no Brasil, iniciado em 1897, e formou seu primeiro egresso em 1902. Entretanto, a primeira Engenharia Civil formada em nossa Escola foi em 1939, quase quarenta anos depois do primeiro homem. Até a década de 1970, a presença feminina na Escola Politécnica era ínfima.

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Professor Daniel Véras Ribeiro, orientador da tese, professora Miriam de Fátima Carvalho, vice coordenadora do PPEC, e Fernanda Nepomuceno

Hoje, as mulheres representam menos de 30% dos alunos de graduação de Engenharia Civil e em torno de 22% dos profissionais de Engenharia Civil registrados no CREA-BA. Ainda é um percentual pequeno, longe da equidade de gênero na nossa profissão, mas que vem crescendo ao longo do tempo. Eu, como Engenheira Civil, fico muito orgulhosa de termos uma mulher como nossa primeira Doutora em Engenharia Civil”.

O Professor Daniel Véras Ribeiro, orientador do primeiro doutoramento concluído da Escola Politécnica, acha que o impacto desta primeira defesa pode ser percebido pelo número de pessoas que a assistiram remotamente (68), representando um marco para a engenharia civil baiana, segundo ele.

A Engenharia Civil, “é um dos mais tradicionais cursos da Universidade Federal da Bahia e finalizava o seu primeiro doutorado após 123 de história da Escola Politécnica, a sexta Escola de Engenharia mais antiga do país e quinta em atividade. Muito mais importante do que ser a pessoa que orientou esta primeira Tese é ver o primeiro fruto de um trabalho desenvolvido há muitos anos. Acredito que, neste dia, eu representei todos os docentes do PPEC, em um momento histórico para a engenharia baiana. Que seja a primeira de muitas!” destacou o Prof. Daniel.

Trajetória do meste por ele próprio

Foto 11 – Foto tirada durante graduação da UEFS. (Acervo pessoal) (2)

Andeson Cleomar dos Santos, mestre em Etnomusicologia pela Escola de Música

Sou Andeson Cleomar dos Santos, indígena do povo Pankararu, território localizado no alto sertão Pernambucano. Sou filho de Maria José da Silva, uma das lideranças da educação escolar Pankararu e Cleomar Diomedio dos Santos,liderança política, representante do povo na Câmara de Vereadores de Jatobá-PE.

Minha formação escolar aconteceu dentro do nosso território nas escolas de Pankararu; nos anos iniciais estudei na creche de tia Quitéria, e posteriormente na Escola Pankararu, ambas localizadas na aldeia Saco dos Barros.

Minha infância foi vivida dentro do povo, frequentando os espaços ritualísticos, participando do calendário agrícola, momentos esses de união e fortalecimento de laços afetivos. Nosso sistema de ensino-aprendizagem se dá por meio da oralidade, é observando e ouvindo, principalmente os mais velhos, detentores desses conhecimentos, que aprendemos e fortalecemos nossa cultura ancestral.

Foto 15 - Com meu filho Iaponã, minha avó Dasdores e minha bisavó Rosa Binga. Foto tirada durante o mestrado no ano de 2019, por Antonio Neto, em Pankararu.

Com o filho Iaponã, a avó Dasdores e a bisavó Rosa Binga, em Pankararu.

Nossos rituais são essencialmente musicais e desde o ventre da minha mãe participo desses momentos. Quando tinha nove anos, meu pai, assim como muitos nordestinos havia viajado para São Paulo em busca de emprego. Quando ele retorna, me trás um cavaquinho.

Fiz uma viagem à Brasília-DF ainda em 2002 junto a outros parentes do povo, organizada por minha tia Quitéria Maria de Jesus com o objetivo de reivindicar melhorias para nosso povo, sobretudo, na área da educação, saúde e território.

Gean Ramos , músico e compositor Pankararu, me deu as primeiras orientações no cavaquinho e alguns anos depois, já com 16 anos ele dividia comigo algumas de suas experiências vivenciadas em cidades do país por onde passou.

Esse meu contato com o violão aos 16 anos, acontece durante algumas oficinas realizadas por um grupo de teatro (Frederica) da cidade de Arcoverde-PE na escola onde estudava, hoje Estadual Indígena Pankararu. È quando então me aparece outro parente Pankararu também cantor e compositor, Janu Cardoso que foi meu primeiro professor de violão.

E em 2010 vou pela primeira vez a capital do estado realizar uma prova de aptidão no Conservatório Pernambucano de Música (CPM), onde iniciei meus estudos na música ocidental europeia, no segundo semestre do mesmo ano. Embora tenha conhecido pessoas acolhedoras, ali me deparei com preconceitos, discriminação e racismo; desrespeitos dos mais diversos. Foi neste espaço que percebi que as tentativas de extermínio dos povos indígenas ainda continuavam das mais variadas formas, desde as agressivas até as mais sutis.

Em 2013, fiquei sabendo que alguns parentes Pankararu estavam se organizando para realizar uma prova na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), então, pedi para realizar minha inscrição. Tempos depois da realização da prova, recebi a notícia por meu irmão, de que havia passado na primeira fase do vestibular em música da UEFS, onde passo quatro anos e meio e saio em 2017.1 graduado em Licenciatura em Música. A partir das conversas com meu professor de violão, percebi a riqueza da minha cultura. Esse professor me falava de seus trabalhos musicais com o coco junto a uma comunidade tradicional, e percebi que poderia fazer algo parecido com meu povo; valorizar nossa “música”.

Durante este período idealizei juntamente com outros parentes indígenas do estado da Bahia e Pernambuco o projeto musical “Coisa de Índio “, iniciando as atividades em 2014 com o objetivo de disseminar as questões indígenas por meio das artes.

Foto 17 - Grupo Musical Coisa de Índio se apresentado nos 40 anos da UEFS em 2016.(Acervo pessoal) (2)

Grupo Musical Coisa de Índio se apresentado nos 40 anos da UEFS

Nesta minha graduação tive meu primeiro contato com a Etnomusicologia, mais especificamente no segundo semestre (2013.2) no componente curricular “Elementos de Etno-musicologia” ministrado pelo professor Luciano Almeida .

Perceber que na graduação havia discussões sobre as músicas de povos tradicionais, ainda mais do meu povo, provocou curiosidade sobre essa tal Etnomusicologia. Hoje refletindo sobre essa minha primeira experiência com esta área do conhecimento, fica evidente que ela ocupou um espaço significativo. Ainda na graduação, tinha em mente que minha caminhada nos estudos acadêmicos seria por meio da Etnomusicologia; e em 2018.2 consigo entrar no Programa de Pós-graduação em Música da UFBA, tendo como orientadora a professora Angela Luhning, uma pessoa que tenho maior carinho e respeito, mesmo antes de tê-la conhecida pessoalmente.

Atualmente sou Doutorando em Música pelo PPGMUS-UFBA sob orientação da professora Laila Rosa (outra pessoa que tenho muito carinho e respeito, que conheci ainda na graduação durante o abril indígena da UFBA) e Angela Luhning passa a ser minha co-orientadora nessa nova etapa.

Trago em meus estudos, diálogos entre os conhecimentos tradicionais indígenas Pankararu com os conhecimentos acadêmicos etnomusicológicos, no sentido de dar visibilidade a grande riqueza cultural indígena, além de, levantar pautas essenciais para o movimento indigna político, estimulando reflexões críticas em torno de nossas culturas e histórias, a partir de sonoridades.

Nós povos originários, sobretudo do Nordeste, dentro de nossas cosmologias temos nossa fé voltada a Força Encantada, que são representados em Pankararu pelos Tonãkiá/Praiá, roupas feitas com a fibra do caroá. Nossas “músicas” que chamo de “sonoridades” estão intrinsecamente interligadas com nossa espiritualidade; são Toantes, Cantos e Torés sagrados.

Reduzindo desigualdades

Para o Diretor da Escola de Música da UFBA, José Maurício Brandão, a EMUS, que neste ano de 2020 completa 66 anos, “tem a honra de poder celebrar os 30 anos do seu Programa de Pós Graduação em Música, PPGMUS, como um dos programas acadêmicos pioneiros no Brasil, e é responsável por grande parte de docentes e pesquisadores hoje espalhados nas mais diversas IESs brasileiras. Seu pioneirismo não se restringe à sua idade, mas sim e principalmente no leque de pesquisas realizadas e na diversidade cultural de alunos das mais diversas origens”.

Foto 18 - Com minha orientadora do mestrado Professora Angela Elizabeth Luhning no evento do Paralaxe da UFBA em 2016. A foto foi tirada por Alex Araujo.(Acervo pessoal)

Andeson e sua orientadora do mestrado, professora Angela Elizabeth Luhning

É, portanto – continua José Mauricio “elo fundamental de conexão entre a academia (graduação, pós-graduação e extensão) e a comunidade, num diálogo cultural cujos desdobramentos concorrem para a redução das desigualdades e consolidação da pluralidade da UFBA”.

A Professora Angela Luhnning, doutora em Etnomusicologia pela Universidade Livre (FU) de Berlin e orientadora do mestrado de Andeson entende “a defesa de Andeson como paradigmática para o atual momento, em que os povos originários do Brasil são ameaçados e agredidos de todas as formas no seu direito à existência, povos ainda tão desconhecidos por tantas pessoas da sociedade brasileira e talvez, em especial, os povos do Nordeste, supostamente dizimados ou inexistentes há muito tempo.

A dissertação de Andeson traz justamente a discussão acerca de sua existência e importância a partir do conceito da emergência étnica, em grande parte ancorada na reconquista da terra e na manutenção dos seus rituais, além de todos os seus diálogos com a sociedade urbana e a tecnologia. Um desses rituais do povo pankararu, a corrida do Imbu, tornou-se o tema principal de Andeson para discutir processos de afirmação e de identidade desse povo”

 

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