De item de proteção a objeto de reflexão: os múltiplos significados da “máscara”

Download PDF

Bastaram apenas alguns meses sob a pandemia do novo coronavírus para tornar a máscara item básico de prevenção e cuidado com a saúde individual e coletiva. Mas que reflexões esse objeto pode provocar, deslocado de sua função elementar, protetiva, e entregue à reflexão livre de pensadores de diferentes áreas do conhecimento?

marca-colorida-GEINFOFoi em torno dessa instigante provocação que se reuniram, virtualmente, uma poeta, uma psicanalista e um filósofo, no evento “Por trás da Máscara: um olhar (en) quadrado”, promovido pelo grupo “Geinfo – Saberes e Fazeres em Informação e Conhecimento”, do Instituto de Ciência da Informação da UFBA, liderado pela professora Nídia Lubisco.

O evento integrou a atividade de extensão “Diálogos Contemporâneos”, coordenada pela professora Alzira Tude de Sá, que tem o objetivo de discutir assuntos transversais que provoquem a reflexão, o debate e a ampliação de conhecimentos não só da comunidade acadêmica, como do cidadão, na atualidade.

O tema teve como palestrantes a professora do Instituto de Letras da UFBA, Mirella Márcia Longo Vieira Lima, a psicanalista Urania Tourinho Peres e o filósofo João Carlos Salles, reitor da UFBA, os quais, em uma espécie de ágora adaptada à realidade virtual, em versão online, apresentaram possibilidades de reflexão sobre o que pode significar uma máscara, colocada além da sua face pandêmica.

A íntegra do evento está disponível no Youtube. A seguir, três breves recortes das palestras:

A horrível liberdade de não mostrar o rosto

A professora do Instituto de Letras da UFBA Mirella Márcia Longo Vieira Lima apresentou, a partir de da obra de Clarice Lispector e da cinematografia do sueco Ingmar Bergman, uma reflexão sobre conceitos da teoria literária, como persona, personagem e pessoa.

A professora falou sobre a sedução pelo tema, “que nos deixa a todos fascinados com o seu poder de enigma, por trás das máscaras”, e expressou sua alegria pela oportunidade de participar das comemorações pela passagem dos 100 anos de Clarice Lispector neste ano. Citou, entre outros textos de Clarice, “Persona”, que classifica como “magnífico”, e explicou que, como a escritora, também tem se voltado bastante para esta “sondagem da alma e do íntimo”.

Persona-1140x570

Cena do filme Persona, de Ingmar Bergman

Mirella confessa que “não amava Bergman (o cineasta Ingmar Bergman, diretor do filme “Persona”, de 1966)”, mas, neste momento, reconhece que “é preciso sair um pouco para realizar uma sondagem interna, de introspecção, e pensar no que está por trás da máscara que nos é involuntária ou imposta. E pensar que essas máscaras mudam e ampliam as nossas vozes”.

A professora Mirella recorda um fato pessoal que se conecta com o título que deu a sua fala, “A liberdade horrível de não mostrar o rosto”: “Era janeiro de 2020 e eu estava em um posto de gasolina, quando avistei um aviso proibindo o uso da máscara ou de qualquer outro objeto que dificultasse a visão do rosto. Imediatamente pensei ‘quem ocultaria o próprio rosto, salvo numa situação de assalto?’, posto que dar-se sem o rosto é privar-se de uma grande alegria.”

É o que não é

Homenageada com o título de doutora Honoris Causa da UFBA, “pelo seu papel de referência na constituição de “nichos” que ultrapassam e voltam para a Universidade”, nas palavras do Reitor João Salles, a psicanalista Urania Tourinho Peres, fundadora do Colégio de Psicanálise da Bahia, iniciou sua conferência a partir da reflexão acerca da máscara que é de cada um, mas também as máscaras de uma coletividade: “A máscara que é de todos e que não é de ninguém. A máscara que protege, que oculta, que revela e que engana. A máscara e sua pluralidade.”

Citando o livro recentemente lido “O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português”, do historiador português Eduardo Lourenço, Urania intui que, para a compreensão histórica, é necessário fazer uma autentica psicanálise do nosso comportamento global. Lourenço aponta para “um exame sem complacências que nos devolva ao nosso ser profundo, ou para ele nos encaminhe, ao arrancar-nos as máscaras que nós confundimos com o rosto verdadeiro”.

Trazendo o tema da máscara de um povo, o melancólico povo português, para nossa realidade, a psicanalista sugere que “vamos encontrar, aqui, ao contrário do povo português, uma mensagem de uma suposta alegria. A Bahia é apresentada como a terra da felicidade. Lembrem-nos dos outdoors que nos recebem quando tomamos o caminho de chegada à nossa cidade”.

“Será que somos tão felizes e alegres assim? E podemos mesmo nos perguntar: escondemos nossa tristeza? A Bahia esconde sua melancolia?” A essas perguntas, Urania responde: “Para Portugal, a máscara de um luto pelo que de fato nunca teve. Aqui, na Bahia, a máscara da alegria encobridora de uma história sofrida de colonização e escravidão”.

1200px-Saida_do_Olodum_(Carnaval_de_2010)

Alegria baiana pode ocultar melancolia de sua origem portuguesa, sugere a psicanalista Urania Tourinho (foto: Roberto Viana/AGECOM)

E mais adiante, conclui:”Vivemos um momento em que a máscara objeto incorporou-se a nossa imagem como protetora de uma epidemia, e sempre foi assim ao longo de todas as epidemias que a humanidade atravessou. Mas as máscaras que falamos contêm outra materialidade, elas são, de fato, também, epidêmicas, em nosso acontecer pela vida, (….) de fato, sempre foram epidêmicas no sentido de que elas nos constituem, elas nos modelam , nos escondem, elas nos falam. Afinal a máscara é, em sendo o que não é. Ela é o que não é”.

Apagamento da Beleza, questões da Ética e da Estética

Em sua conferência, o professor João Salles pensa numa tradição ocidental onde o belo, o bom e o verdadeiro “estariam unidos e se solicitariam”, para mencionar em seguida uma clivagem no campo da razão que separa essas dimensões, reduzindo a razão ao seu papel meramente instrumental. Salles toma como exemplos Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, filósofo austríaco, autor do Tractatus Logico-Philosophicus, de 1922, que influenciou o desenvolvimento do positivismo lógico, e o matemático e filósofo britânico Bertrand Russel, como enunciadores precisos desse processo de desunião.

Revisitando imagens platônicas, como as do mito da caverna e da escada do amor, Salles demonstra como esses laços desunidos se interconectam, reconstruindo os fios que foram separados socialmente, em instituições estanques: “Eu acho que se esses equipamentos sociais separam. Nós temos um lugar especial, único e singular, que precisa ser cultivado como lugar de possibilidades de discussões com certa dimensão de cultura e de cultivo da palavra e das possibilidades do sentido.”

A partir desse ponto, Salles passa a defender a Universidade como sendo esse ambiente propício o pensamento, onde as dimensões da razão não estão separadas e onde a busca da verdade não se descola da produção do sentido, aqui lembrando o sociólogo e filósofo francês Émile Durkhein, “para quem coisas e ideal não são realidades apartadas”. E cita como exemplo: “Sempre que defendo o financiamento para as pesquisas na UFBA, estou defendendo o lugar onde essas pesquisas são realizadas e não só as pesquisas nas áreas da Ciência e da Tecnologia, mas também da Cultura e da Arte”.

E finaliza: “Temos toda a razão de nos unirmos na defesa desse lugar único e singular, onde gerações se reconhecem e se confrontam e os indivíduos se formam e se vêm até fora de si, tragados e envolvidos numa trama de linguagem que os soterra e revela, que é a Universidade”.

Diálogos Contemporâneos

A Universidade, por ser um espaço pluricultural, oferece não só formação profissional, como ambientes de pesquisa e serviços à comunidade, sobre temas e formatos os mais diversificados. Nessa perspectiva é que o grupo de pesquisa Geinfo, desenvolve a atividade “Diálogos Contemporâneos”.

Na opinião da coordenadora da atividade, professora Alzira Tude de Sá, “a aceitação do projeto pode ser medida pelas nove versões já realizadas, em espaços, como o Museu de Arte da Bahia, auditórios de unidades da UFBA e, agora, se adaptando à realidade pandêmica, em formato on-line. Destas versões, participaram palestrantes de alto nível e um considerável e diversificado público”.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*
Website