Recrudescimento da pandemia de Covid-19 no Brasil: o que é mesmo que temos que deixar de ser?

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Eduardo Mota*

No período do recente aumento da frequência diária de novos casos e de novos óbitos pela COVID-19, entre a semana epidemiológica (SE) 43 (18/10 a 24/10) e a SE 47 (15/11 a 21/11), foram registrados 828.424 novos casos confirmados e 15.314 novos óbitos pela doença, alcançando-se, naquele momento, os totais de 6.052.786 casos e 168.989 óbitos acumulados desde o início da pandemia no Brasil.

Essa mudança na evolução da pandemia alterou por completo a tendência de descenso consistente do número diário de novos casos e óbitos por Covid-19 que se observava a partir do pico da curva epidêmica, ocorrido na SE 30 (19/7 a 25/7). Essa alteração significa que houve maior exposição ao vírus, transmissão, infecção e doença para um número crescente de pessoas a cada dia, tendência que segue nos últimos dias.

A redução progressiva, embora lenta, na ocorrência da doença entre julho e setembro, representava uma perspectiva muito boa de que poderíamos chegar ao final desse ano com uma situação epidemiológica favorável ao controle da pandemia, como já ocorreu em outros países. Dessa maneira, se os meses de verão não trouxessem a intensificação da transmissão viral, poderíamos ainda realizar a retomada gradual das atividades comerciais e sociais, de maneira controlada, para aguardar a vacinação específica que já se anuncia para o primeiro semestre do próximo ano.

Todavia, embora tenha sido um aumento detectável desde aquela semana do mês de outubro e que se ampliou rapidamente nas semanas seguintes, nada foi feito até o momento. Ao contrário, planos de abertura, de retomada de atividades e de flexibilização do isolamento social foram continuados e ampliados por todo o País, principalmente nos grandes centros urbanos. Declarações oficiais estimularam a população a retomar suas atividades e se sinalizava que o auxílio emergencial iria ter continuidade somente até dezembro próximo. Diante de mais de 140 mil novos casos e de mais de 3,4 mil óbitos, registrados em uma única semana por todo o País, em meados de outubro, o que se praticou, como uma demonstração de verdadeira contra gestão da crise sanitária, foi precoce, irresponsável e revelador do desprezo para com a vida das pessoas.

O resultado, previsível, poderá ser devastador, como sugerem os dados recentes da pandemia, e não faltaram alertas, aliás, como a segunda onda da pandemia na Europa já indicava que poderia acontecer no Brasil. Porém, estávamos a um mês das eleições municipais (15/11/2020) e o surrado e conhecido argumento da “recuperação econômica” pressionava e pressiona contra a contenção da pandemia.

Assim, entre retomar empregos e renda e enfrentar necessidades na ausência de apoio social e econômico, a população foi para as ruas, e sem máscara e sem os cuidados mínimos necessários, realizando aglomerações festivas cada vez maiores e mais frequentes. Não sem razão, afinal, porque os longos meses de isolamento social se tornaram de fato insuportáveis na ausência de atividades de lazer, enfrentando-se um processo epidêmico prolongado e “achatado”, para em tudo se adequar às enormes deficiências e dificuldades de acesso aos serviços de saúde especializados na rede pública.

Caso a tendência de descenso tivesse sido mantida, quantos casos e óbitos a menos teriam sido registrados, a partir da SE 43 até o momento? Para responder a esta pergunta, pode-se aplicar métodos de projeção de dados – que, contudo, não são precisos, porque se baseiam em pressupostos que podem não se confirmar para longos períodos. Porém, é possível fazer uma estimativa com uma simples projeção da tendência linear, com base na evolução do número semanal de casos e óbitos por Covid-19, a partir da SE 30 até a SE 43, aplicando-se uma taxa de descenso correspondente à média de cinco semanas anteriores ao início da intensificação da pandemia. Assim, o recrudescimento da transmissão e da infecção teria resultado, nas últimas cinco semanas em, aproximadamente, 336 mil casos a mais e 3.350 óbitos a mais do que se deveria esperar numa situação de descenso mantido da pandemia. Métodos diferentes dariam resultados diferentes, mas apontariam sempre que a mudança na tendência da evolução da pandemia resultaria em um excedente de casos e óbitos em relação ao que vinha ocorrendo, e que se poderia considerar como minimamente evitáveis.

Esses números não revelam o impacto da doença sobre as pessoas acometidas, sobre a saúde e bem-estar delas, inclusive pela ocorrência de sequelas como tem sido descrito, sobre os custos sociais e econômicos para pessoas, famílias e comunidades, que se agravam nos casos de morte, considerando ainda que os mais vulneráveis socialmente são os mais duramente atingidos pela morbidade e mortalidade da Covid-19. E diante disso, o presidente pretende que deixemos de ser “um país de maricas”![1] Para que, se fosse o caso? Para considerarmos que alguns poucos milhares de mortes a mais são fatos “naturais”, em nome dos lucros e das receitas fiscais? Não. Todas as vidas importam muito.

Em meio as denúncias recentes de que perderão a validade em dezembro próximo 6,86 milhões de testes da Covid-19, estocados e sem utilização, que custaram 290 milhões de reais, o Ministério da Saúde e os governos estaduais e municipais devem tomar iniciativas imediatas para conter a nova expansão da pandemia, promovendo a adesão da população às medidas protetivas, e exercitando responsabilidade sanitária. Afinal, temos ainda longos meses pela frente até que uma vacina possa nos livrar da pandemia e, quem sabe, de declarações estapafúrdias.

* Epidemiologista pesquisador do Instituto de Saúde Coletiva e pró-reitor de Planejamento e Orçamento da UFBA

[1] Tudo agora é pandemia. E acabar com esse negócio. Lamento os mortos, lamento, todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer. O Sérgio vai morrer um dia, não é Serjão? Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas. Olha que prato cheio para a imprensa. Prato cheio para a urubuzada que está ali atrás. Trecho do Discurso do Presidente da República, Jair Bolsonaro, na Cerimônia de Lançamento da Retomada do Turismo – Palácio do Planalto, Brasília, em 10/11/2020, disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/discursos/2020/discurso-do-presidente-da-republica-jair-bolsonaro-na-cerimonia-de-lancamento-da-retomada-do-turismo-palacio-do-planalto

 

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