Itamar Vieira Junior, prêmio Jabuti de literatura: “Aonde eu vou, levo a UFBA comigo”

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“Aonde eu vou, levo a UFBA comigo. Lá fiz minhas graduações, conheci muita gente importante para a minha formação. Sempre que me pedem algo para a UFBA, eu atendo com o maior carinho. Afinal, foram 12 anos de boa convivência entre a graduação e o doutorado, cursados lá.”

A declaração é do escritor baiano Itamar Vieira Junior, geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA, que acaba de vencer a 62ª Edição do Prêmio Jabuti, premio literário mais tradicional do Brasil, com o romance Torto Arado (Todavia), na categoria Romance Literário. Nascido em 1979, Itamar formou-se em geografia na UFBA, onde também concluiu o mestrado. No doutorado, migrou para o Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), onde se doutorou em Estudos Étnicos e Africanos pelo Pós-Afro, com um estudo sobre a formação de comunidades quilombolas no interior do Nordeste brasileiro.

Examinando de perto, percebe-se que a formação acadêmica de Itamar Vieira Junior, que mescla geografia e antropologia, entrelaça-se à sua criatividade literária. Ele se formou em geografia em 2005, com a monografia “A expansão de Salvador: a produção do espaço urbano em uma via metropolitana”, e foi o primeiro bolsista da Bolsa Milton Santos, que deu origem ao Grupo de Pesquisa Produção do Espaço Urbano (PEU) – devido à boa produção dos alunos, hoje são cinco bolsas para geografia, oferecidas pela professora Marie Hélène Santos, viúva de Milton Santos, para apoio a estudantes de baixa renda.

Em 2007, Itamar Vieira Junior concluiu o mestrado com a dissertação “A valorização imobiliária empreendida pelo Estado e mercado formal de imóveis em Salvador”, sob orientação da professora Maria Auxiliadora da Silva, do Instituto de Geociências. Dez anos depois, Itamar concluiu doutorado em estudos étnicos e africanos no Pós-Afro/Ceao, com estudo sobre a formação de comunidades quilombolas no Nordeste brasileiro, intitulado “Trabalhar é tá na luta“: vida, moradia e movimento entre o povo Iuna, Chapada Diamantina”, sob orientação da professora Maria Rosário Gonçalves de Carvalho.

Para a professora Maria Auxiliadora da Silva, “o exemplo de Itamar nos apresenta uma lição sobre a importância do apoio institucional a estudantes pobres, para que realizem e concluam seus estudos e também é motivo de orgulho institucional quando um dos nossos recebe reconhecimento externo, em âmbito nacional e internacional”. A professora Maria Rosário de Carvalho afirma que “Itamar alia o seu conhecimento da Chapada Diamantina, contexto etnográfico também da sua tese de doutorado, a uma grande sensibilidade antropológica. Os dois prêmios outorgados a Torto Arado, em Portugal (Prêmio Leya 2018) e no Brasil reconhecem, indiscutivelmente, o seu talento literário””

Em recente entrevista, de 02 de outubro de 2020, ao jornalista Carlos Marcelo, do jornal “Estado de Minas”, Itamar Junior responde como incorporou os seus estudos éticos e africanos, realizados na UFBA, à ficção: ”Não incorporei apenas os estudos étnicos à ficção. Ali há muito do mundo, conhecimento que adquiri com meus estudos de geografia – sou geógrafo de formação. Há muito de filosofia, antropologia. Costumo dizer que todo meu percurso acadêmico, científico, além de toda a minha história pessoal e profissional, costumam atravessar minha escrita. Os métodos antropológicos e etnográficos, sobretudo, me permitiram a estudar as personagens como sujeitos plenos de vida. Para falar sobre elas, eu precisava conhecê-las. Para mim, o processo de escrita é muito longo, não é algo que se resolve em pouco tempo. Eu preciso conhecer as personagens em profundidade para poder escrever sobre elas”.

Além de geógrafo e antropólogo, Itamar também é analista em reforma e desenvolvimento agrário no Serviço de Regularização de Territórios Quilombolas do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), nos estados do Maranhão e da Bahia.

Torto Arado

O livro Torto Arado foi lançado inicialmente em Portugal e já vendeu mais de 11 mil exemplares no Brasil. “É uma história antiga, lembra Itamar, influenciada pelos romances brasileiros dos anos 30 e 45, que nasceu quando eu era ainda um adolescente, mas que não se concluiu, porque eu ainda era muito imaturo e não tinha o incentivo dos meus pais, que achavam que eu deveria me dedicar a uma atividade mais pragmática e menos artística. Muitas páginas se perderam, então, nesse caminho”, afirma Itamar.

“Passado o hiato, continua, retomei o projeto, agora voltado mais para o campo da ficção e da memória, já em forma de romance, tendo o interior da Bahia, mais especificamente a região pantanosa da Chapada Diamantina como cenário, através da voz de duas irmães Bibiana e Belonisia, em uma comunidade de trabalhadores do campo, posteriormente uma comunidade quilombola”. Desde o seu lançamento, no segundo semestre de 2019, Torto Arado já teve quatro reimpressões e é considerado um dos três livros mais vendidos pela editora em 2020.

O prêmio

O anuncio da premiação foi feito na quinta-feira (26/11), com Vieira confirmando o favoritismo e vencendo fortes concorrentes, como o escritor e compositor Chico Buarque de Holanda, além de Paulo Scott, Maria Valéria Rezende e Adriana Lisboa. O Livro do Ano foi “Solo para Vialejo”, da pernambucana Cida Pedrosa. A cerimônia on-line foi comandada pela jornalista Maju Coutinho, com transmissão ao vivo pelo canal da Câmara Brasileira do Livro (CBL) no YouTube.

“Eram nomes consagrados, admite o escritor, mas Torto Arado também tem um histórico de aceitação e boas vendas, além do prêmio LeYa, atribuído ao romance em 2018” – premiação literária de valor mais alto para originais em língua portuguesa, que atribui ao vencedor cerca de 100 mil euros. Vieira também foi finalista, na mesma categoria, no 60º Premio Jabuti, em 2018, com o livro de contos “A oração do carrasco”. O primeiro livro do autor foi publicado em 2012, o livro de contos “Dias”, vencedor do Concurso XI Projeto de Arte e Cultura.

E o que vem por aí? “Sempre costumo responder quando me fazem esta pergunta que todo livro realizado é parte de um projeto literário maior. Daí, poder afirmar que virá uma obra sobre a relação dos homens e das mulheres com a terra, além dos nossos graves problemas fundiários, e que reflitam as minhas experiências vividas no campo.”

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