“Talvez o essencial não seja um mundo e muitas vozes, mas sim muitos mundos e muitas pontes”

Download PDF
iNTERCOM 10 - Muniz Sodré

O jornalista, sociólogo e professor, Muniz Sodré de Araújo Cabral, na conferência de abertura do Intercom 2020.

“Talvez o essencial não seja um mundo e muitas vozes, mas sim muitos mundos e muitas pontes”, sugeriu o jornalista, sociólogo e professor Muniz Sodré de Araújo Cabral, no que diz respeito à prática da comunicação na atualidade, na conferência de abertura do 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2020, no dia 01 de dezembro.

Citando versos de Alberto Caeiro, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa [“O essencial é saber ver / Saber ver sem estar a pensar / Saber ver quando se vê / E nem pensar quando se vê / Nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!) / Isso exige um estudo profundo”], Muniz Sodré enfatizou a necessidade de uma “aprendizagem de desaprender”, apontando que “a comunicação de hoje, talvez, vá nos ensinar a desaprender”.

A argumentação apresentada por Sodré [leia mais abaixo] pretendia entender “se estamos indo em direção à utopia ou à distopia”, considerando as ponderações apresentadas pelo relatório MacBride (publicado em 1980 pela Comissão Internacional para Estudo dos Problemas da Comunicação da Unesco), que permeou os debates do Intercom 2020, realizado pela UFBA virtualmente, cujo slogan foi “Um mundo e muitas vozes: da utopia à distopia?”.

Assista à conferência de Muniz Sodré no canal da Intercom no Youtube:

A conferência de Sodré deu-se após as saudações formuladas pela “mesa simbólica” de abertura, constituída pelo reitor da UFBA, João Carlos Salles; pela diretora da Faculdade de Comunicação da UFBA, Suzana Oliveira Barbosa; pelo diretor geral da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo; pelo presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e professor da UFBA, Giovandro Marcus Ferreira; pela presidente do Conselho Curador da Intercom, Margarida M. Krohling Kunsch; e pela coordenadora do Intercom 2020 e também professora da UFBA, Ivanise Hilbig de Andrade.

O reitor João Carlos Salles acentuou a importância da realização do Intercom 2020 virtualmente na UFBA, por se tratar de um “lugar especial de cultura, reflexão, debate, diálogo e defesa da palavra como preeminência da disputa de poder”. Para ele, o evento é “uma resistência ao obscurantismo e negacionismo que exemplifica a natureza e qualidade da universidade pública que amplia o mundo e a essência dos felizes”.

 

Mesa_abertura_ INTERCOM 2

A “mesa simbólica” da cerimônia de abertura do 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2020, na Facom/UFBA.

 

Partilhando o mesmo sentimento de Salles, a presidente do Conselho Curador da Intercom, Margarida Kunsch, reconheceu que esse momento de discussões “celebra a esperança e a vida”.  De acordo com ela, “vivemos num contexto histórico semelhante ao que foi produzido o Relatório MacBride, há 40 anos, devido aos mesmos problemas da atualidade: censura, perseguição, atentados, judicialização imprópria e assédios judiciais a jornalistas”.

Para Kunsch, defender a liberdade de expressão e o direito à informação é crucial neste momento, em nosso país, devido às consequências funestas da desinformação nas redes sociais, em plena pandemia, e ao excesso de informações não confiáveis. “Criar mecanismos para diferenciação de fontes confiáveis e não confiáveis é o maior desafio que temos”, assegurou a comunicóloga, apontando que o “Intercom quer refletir tudo isso, por isso, não podemos perder a esperança em dias melhores”.

Ao longo de mais de 40 anos de existência, o Intercom vem se debatendo tais questões, disse o atual presidente da entidade, o professor da Faculdade de Comunicação da UFBA Giovando Ferreira, frisando a importância de revisitar o legado de reflexões, nesse tempo de obscurantismo e adversidades. A coordenadora da edição do evento de 2020, Ivanise de Andrade, lembrou que “tais momentos de crise são ideais para encontrar novas soluções” e que, devido às dificuldades do momento, o evento, que normalmente atrai participantes de todo o Brasil, “dessa vez ficou global”, graças ao alcance planetário das transmissões das atividades pela Internet.

iNTERCOM 9 - Mario Ulloa

O violonista Mário Ulloa, na abertura do Intercom 2020.

A ocasião também proporcionou a união da ciência e cultura com a arte, mediante apresentação do violonista e professor da Escola de Música da UFBA, Mário Ulloa.

Período distópico para aprender a desaprender

“Como abordar o mundo e muitas vozes, no âmbito da comunicação, num período distópico e de dificuldades em que estamos vivendo?”, foi a indagação inicial da conferência de Muniz Sodré. Ao fazer uma releitura do Relatório MacBride, o conferencista pontuou a utopia positiva que “aposta em informação, desdobramentos tecnológicos, desenvolvimento das aptidões humanas, convivência e comunhão”.

“No solo utópico da reconfiguração das formas de vida e do ser humano, as esperanças sociais se reavivam com novas designações e a atmosfera emocional da globalização. A comunicação passou a ser vivida, graças ao desenvolvimento da tecnologia eletrônica como o território de uma nova utopia cultural”, ponderou Sodré.

O professor considerou que “desde a época do relatório MacBride, a comunicação passou a ser essencial à produção. Passou a criar trabalho, na proporção crescente da população ativa com a Internet, o advento da interatividade, que romperia com o monopólio da fala, ampliando o território utópico da expressão”. E citou a “hipótese de uma democracia eletrônica e possibilidade técnica de comunicação eletrônica e global que seria capaz de pôr as diferenças em jogo dialógico e facilitar o contato direto entre emissor e receptor”, uma vez que a “pluralidade das vozes, garantida pela moderna eletrônica suscitou uma utopia de interconexão cooperativa no campo da informação de alcance mundial”.

“Por meio da rede eletrônica, a mediatização interpõe um novo paradigma, em que tudo é ao mesmo tempo ligação e passagem. As tecnologias da informação e comunicação convertidas em dispositivos de machine learning e inteligência artificial, em que as cosias aderem-se ao corpo humano, que se converteu virtualmente em tela”, disse Sodré. Para o pesquisador, está se inaugurando um “novo paradigma de estrutura de interconexão invisível (…) Trata-se de uma reconfiguração da vida humana, entre sujeitos, coisas e sistemas, alimentados pelo big data, que está nas mãos de empresas privadas com tendências monopolistas”.

Portanto, “a real articulação, nesse momento, não se faz por direitos humanos nem por cooperação internacional, como sonhava MacBride”, acentuou, mas sim “pela volatilidade voraz do capitalismo financeiro, em que plataformas digitais constituem um novo tipo de vida com redes sociais planetariamente controladas”.

Nesse cenário, o docente percebe que a palavra, o discurso e a linguagem vêm sendo regidos por uma espécie de distopia. Por isso, ele acredita que é importante refletir a respeito da exortação papal, presente na última encíclica, para que “sejamos capazes de reagir como o novo compromisso da fraternidade e amizade social que não se limite a palavras”.

A partir disso, Muniz Sodré chamou atenção que “talvez o essencial não seja um mundo e muitas vozes, mas sim muitos mundos e muitas pontes”, onde “o essencial não é tanto falar, persuadir, mas “saber ver, sem estar a pensar”. Então, ele sugeriu um desnudamento educativo de alma para a “aprendizagem de desaprender” e finalizou a palestra – que reuniu uma audiência de mais de 1,5 mil pessoas – com o prognóstico de que “a comunicação de hoje, talvez, vá nos ensinar a desaprender”.

O Intercom 2020

O 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2020 tem apoio institucional da Universidade Federal da Bahia e teria sido sediado presencialmente na Faculdade de Comunicação da UFBA se não houvesse a pandemia. O evento acontece até 10/12 em plataformas digitais com transmissão pela Internet, respeitando assim os melhores protocolos sanitários de combate à Covid-19.

Com o tema “Um mundo e muitas vozes: da utopia à distopia?”, a edição de 2020 foi concebida como o objetivo de revisitar com uma reflexão científica, o Relatório MacBride, que está completando 40 anos de lançamento. Os debates lembraram “ideias utópicas” do documento, que impactaram em intensas mudanças no universo comunicacional, a fim de identificar de quais “extremos” do relatório, o fazer comunicacional da atualidade, principalmente no contexto brasileiro, se aproxima.

Neste ano, o evento bateu recorde na quantidade de estudantes de graduação apresentando trabalhos e na quantidade de realização de oficinas e minicursos, comemorou a coordenadora, Ivanise de Andrade. Os números também contabilizam 4.500 congressistas, 340 conferencistas, 1.109 artigos submetidos, 645 papers no Intercom Júnior (voltado a estudantes da graduação), 22 conferências e 74 oficinas e cursos, informou o presidente da Intercom, Giovando Ferreira.

O evento é realizado pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) em parceria e com o apoio institucional da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Também conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Universidade Católica do Salvador (Ucsal), Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e Governo do Estado da Bahia.

Relatório MacBride

O Relatório MacBride foi elaborado pela Comissão Internacional para Estudo dos Problemas da Comunicação, instituída em 1977, pelo então diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Ahmadou-Mahtar M’Bow.  O grupo era presidido pelo irlandês, Seán MacBride que foi presidente da Anistia Internacional e vencedor do prêmio Nobel da Paz 1974, com a participação de representantes de 15 países, escolhidos entre ativistas de mídia, jornalistas, acadêmicos e gestores de mídia como por exemplo, Gabriel García Márquez, Hubert Beuve-Méry e Betty Zimmerman.

O texto final, que ficou conhecido como “Um Mundo e Muitas Vozes”, foi entregue em abril de 1980 e aprovado por consenso na 21ª Conferência Geral da Unesco, em Belgrado (Sérvia). Trazia metas consideradas “utópicas” como: a democratização e consolidação de uma nova ordem da informação em meio aos fluxos da comunicação de massa e imprensa internacional.

O relatório MacBride Identificava, também, problemas como a concentração da mídia, a comercialização da informação e o acesso desigual à informação e à comunicação e o desequilíbrio gritante dos fluxos de informação entre o primeiro mundo e os países em desenvolvimento, propondo uma maior democratização da comunicação e o fortalecimento das mídias nacionais para evitar a dependência de fontes externas, entre outras sugestões. Por tais pontuações, foi condenado pelos Estados Unidos e Reino Unido acusado de atacar a liberdade de imprensa e a doutrina do livre fluxo de informações.

Segundo Muniz Sodré, “o relatório MacBride, sobre a nova ordem mundial da comunicação, elencava diversidade da comunicação como condição prévia para a participação democrática, necessidade imperativa da comunicação”. É um documento sobre a contribuição dos meios de comunicação para o fortalecimento da paz, da compreensão internacional, promoção dos direitos humanos, para a luta contra o racismo/apartheid.

O documento preconizava também, “a proteção a jornalistas de todo o mundo, necessária e fundamental e guarda traços de uma utopia cristã, referente à unidade do mundo em meio à pluralidade democrática das vozes ou das formas de expressão.  Seu fundo doutrinário está no cristianismo”, compreende Sodré.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*
Website