Grupo integrado por pesquisadoras da UFBA funda a rede “Mulheres na Zoologia” para combater machismo na ciência

Download PDF

Posts mulheres na ZoologiaIncentivar mulheres pesquisadoras a manterem-se firmes diante de comentários pejorativos sobre seus trabalhos, dúvidas quanto à sua capacidade de pesquisa e assédio moral de colegas de laboratório, pelo fato de ser mulher, são objetivos da Rede de Apoio às Mulheres da Zoologia, aberta no último Dia Internacional da Mulher (08 de março) e que conta, no grupo de fundadoras, com uma professora da UFBA.

O coletivo nasceu a partir do trabalho de elaboração do artigo “Why we shouldn’t blame women for gender disparity in academia: perspectives of women in zoology (Por que não devemos culpar as mulheres pela disparidade de gênero na academia: perspectivas das mulheres na zoologia), realizado por 15 mulheres pesquisadoras, entre elas a professora do Instituto de Biologia da UFBA Priscila Camalier e a pós-doutora pelo Instituto de Biologia da UFBA Luisa Maria Diele-Viegas.

Dias depois da publicação do texto, na revista Zoologia – An International Journal for Zoology, as autoras começaram a estruturar o projeto da rede de apoio e criaram perfis no Instragram  e Twitter.  E, no dia em que se comemorava a luta pelos direitos da mulher, elas publicaram uma chamada para a adesão de novas integrantes, disponibilizando formulário de inscrição a partir das mídias sociais.

A professora Priscila Camalier considera que “esta rede é um sonho que, há tempos, estava sendo idealizado por muitas zoólogas. Como a rede acabou de ser construída de forma oficial, ainda estamos definindo grupos de trabalho específicos e seus respectivos objetivos e frentes de atuação. Neste momento, estamos discutindo como podemos contribuir para que os eventos científicos da nossa área (Zoologia) sejam, de fato, inclusivos e diversos”, afirma.

“Para tal, visamos desenvolver iniciativas que promovam mulheres zoólogas pelos seus trabalhos; apresentem propostas aos locais de tomada de decisão (como Sociedades Científicas e Universidades) para a redução da disparidade de representação de grupos sub-representados na Zoologia; incentivem meninas a fazer parte da zoologia e jovens pesquisadoras a se manterem nesta área; e desenvolver pesquisas acerca da disparidade de representação de grupos sub-representados na Zoologia”, conta a professora do Departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB) Veronica Slobodian, que liderou o processo de escrita do artigo.

A intenção é “que mais mulheres zoólogas entrem para o grupo e, assim, desenvolvam novas pesquisas na área”, afirma Slobodian. Como a Zoologia é o ramo da biologia que estuda os animais, nessa área, mulheres pesquisadoras enfrentam obstáculos ainda maiores, devido à necessidade de realizar trabalhos em campo e de lidar com animais de todos os portes, explicou Slobodian, focalizando que, por isso, “a rede foi proposta para funcionar como uma rede orgânica que busca reunir pesquisadoras com o intuito de combater as desigualdades na Zoologia Brasileira”.

Priscila Camelier

Priscila Camalier (professora do Instituto de Biologia da UFBA) em vários momentos da pesquisa em Zoologia.

Camalier assegura que a ideia é “reunir o que a gente tem discutido no grupo com aquilo já proposto na literatura e/ou por outros coletivos e transformar estas discussões em ações pragmáticas que sejam, efetivamente, colocadas em prática nestes eventos”. Por mais que a rede se chame “Mulheres na Zoologia”, entendemos também a necessidade de trabalhar a sub-representação de diversas minorias: de gênero, sexualidade, etnia, classe, pessoas com deficiência e etc. Com isso, visamos lutar para tornar a Zoologia um local mais diverso e inclusivo”, disse Slobodian.

Para validar a iniciativa, as pesquisadoras argumentam que “várias pesquisas científicas já demonstraram que equipes de pessoas com histórias e vivências diversas levam a maiores inovações científicas, que estão entre os principais motores da ciência”. Dessa forma, as docentes compreendem que “a aplicação de políticas de diversidade leva a um progresso científico, e isso vale para todas as áreas, não apenas a Biologia/Zoologia. Da mesma forma que algumas das propostas que trazemos foram inspiradas nas experiências de outras áreas, imaginamos que nossa experiência na particularidade da Zoologia possa fomentar propostas em outras áreas da ciência”.

A rede quer entender um pouco melhor o cenário de disparidade de representatividade de grupos sub-representados na Zoologia Brasileira. “Certamente, um dos nossos objetivos principais é entender e analisar a disparidade de gênero na Zoologia brasileira de forma geral, publicar estes dados e propor ações que reduzam esta disparidade. Mas, ainda precisamos nos estruturar, criar os grupos de trabalho e definir nossos objetivos e próximos passos de forma mais pragmática”, afirma Slobodian.

A pós-doutora com pesquisa realizada no Instituto de Biologia da UFBA Luisa Diele-Viegas informa que uma das ideias do grupo é fazer um levantamento de quem realiza pesquisa na zoologia brasileira hoje. “Dessa forma, pretendemos quantificar a desigualdade de gênero, que sabemos ser real, mas ainda faltam dados numéricos. A partir desses números, pretendemos desenvolver estratégias para evitar que o desvio de gênero se mantenha e, assim, promover uma zoologia mais inclusiva. Há um mundo de possibilidades pela frente, e vamos aos pouquinhos fazendo a diferença e lutando por uma zoologia mais inclusiva.”

O grupo afirma já conseguir “ver o efeito positivo da iniciativa, mesmo em pouco tempo”. Elas contam que, após a publicação do artigo e da oficialização da rede, já receberam inúmeras mensagens de agradecimento e muitas pesquisadoras já se inscreveram para fazer parte.  O coletivo que começou com as 15 autoras do artigo, em “‘sete dias de vida’ já estava com mais de 700 seguidores e muita adesão de zoólogas, por isso, penso que a rede está sendo bem aceita e que excelentes frutos virão”, comemora Camalier.

Como nasceu o artigo que originou a rede 

Luisa Viegas

A pós-doutora pelo IBIO/UFBA Luisa Diele-Viegas em trabalho de campo com animais.

O artigo Why we shouldn’t blame women for gender disparity in academia: perspectives of women in zoology (Por que não devemos culpar as mulheres pela disparidade de gênero na academia: perspectivas das mulheres na zoologia) foi escrito a partir da perspectiva das mulheres na zoologia com o objetivo de questionar as conclusões do artigo The association between early career informal mentorship in academic collaborations and junior author performance (A associação entre a orientação informal no início da carreira em mentorias acadêmicas e o desempenho do autor júnior) de AlShebli et al, publicado na revista Nature Communications, em novembro de 2020, indicando que mulheres devem ser orientadas por homens para que tenham sucesso na academia, explica Diele-Viegas.

Priscila Camalier destaca que “algumas cientistas, especialistas no estudo de animais, ficaram indignadas com as conclusões enviesadas do trabalho de AlShebli e colaboradores. Foi um grande reboliço e, em pouco tempo, só se falava sobre isto em meus grupos de WhatsApp e redes sociais. Lembro que parei tudo que estava fazendo para ler o tal artigo. Fiquei chocada e revoltada, lógico, mas estava muito sobrecarregada com as demandas da Universidade e sem forças para tocar alguma ação mais pragmática (além de postagens em redes sociais). Foi, então, que falei com a professora Veronica Slobodian (UNB) e ela me animou a fazer alguma coisa, afinal de contas, o artigo estava contradizendo toda a nossa luta como mulheres cientistas”, contou a pesquisadora do Instituto de Biologia da UFBA.

Por conta da experiência de Diele-Viegas em estudar os vieses implícitos e explícitos na academia, como uma das linhas de pesquisa desenvolvida desde seu doutorado, concluído em 2017, ela foi contactada por Slobodian para produzir, junto com outras especialistas, uma resposta sob o ponto de vista das mulheres zoólogas. Diele-Viegas, por sua vez, já tinha liderado outras duas respostas ao mesmo texto: a da Rede Kunhã Asé de Mulheres na Ciência, da qual também é uma das cofundadoras e que hoje engloba mais de 60 mulheres cientistas de diversas áreas e regiões brasileira e de outros países; e a do grupo de mulheres da herpetologia brasileira, área da zoologia que estuda anfíbios e répteis.

A partir do mês de novembro de 2020, Verônica Slobodian liderou a elaboração do texto, e Diele-Viegas contribuiu com o arcabouço teórico e experiência com o trabalho em equipe. Finalmente, o material foi publicado no dia 26 de fevereiro.

A aceitação do artigo, que cita a “estrutura patriarcal e seus equívocos refletidos no ambiente científico” e que “todos os cientistas fazem parte de uma sociedade sexista e regidos pela conduta social”, “no geral, tem sido muito boa”, relataram as professoras-autores. Viegas informou que a publicação científica tem sido uma das mais acessadas em plataformas de artigos científicos como o ResearchGate, por exemplo, tendo figurado duas vezes seguidas como o item mais lido, de acordo com as métricas da plataforma.

“Eu, particularmente, só tenho recebido elogios e mensagens de apoio ao artigo”, revelou  Camalier, atestando que “ao menos aqueles que entraram em contato conosco trouxeram palavras positivas. Mas é claro que ouvimos dizer que comentários sarcásticos foram feitos por alguns colegas. Como a estrutura da sociedade beneficia os homens, reconhecemos que alguns apresentam dificuldades de entender e apoiar as demandas por uma sociedade mais justa”.

Por isso, ela enfatiza que “é importante conversar sobre isso, principalmente com cientistas, que muitas vezes acham que a academia se encontra à parte do restante da sociedade, quando, em realidade, reflete suas injustiças”. “Nosso intuito é alcançarmos cada vez mais pessoas e sensibilizar cada vez mais pesquisadores acerca da temática, de modo a conseguirmos mudar esse padrão histórico de desigualdades que enfrentamos na academia”, concordam as docentes.

“Uma coisa que ficou bem clara com o desenvolvimento do artigo e a construção dessa rede foi quão necessárias são essas iniciativas”, afirmou Viegas, entendendo que “ainda há um longo caminho pela frente na busca pela igualdade de gênero”. E Priscila Camalier admite ter “plena consciência que escancarar fatos como estes incomoda, mas, como todo nosso artigo é embasado em estudos científicos e não em achismos, precisamos entender que todos e todas nós fazemos parte desta sociedade e que, por isso, somos todos machistas”. Para ela, “a diferença está em, conscientemente, desconstruir-se e procurar melhorar. Por isso precisamos falar alertar, conscientizar e comover”.

Vivências na academia levaram à elaboração do artigo e formação da rede

“Como mulher cientista, já ouvi diversos comentários que diminuíam meu trabalho, ou minha capacidade, apenas pelo fato de ser mulher. Já ouvi de colegas de laboratório que as pessoas conversavam comigo num congresso científico, não por se interessarem pelo meu trabalho, mas porque eu sou mulher. Também já fui assediada por pesquisadores mais velhos em eventos científicos e sofri com assédio moral por colegas. Situações como essa me fizeram duvidar do meu próprio trabalho e capacidade no passado. Hoje, percebo que foram atitudes machistas, sofridas por diversas mulheres na ciência. Por isso, acabei por me envolver nessas questões: para que futuras cientistas não tenham que passar pelas mesmas situações constrangedoras que passei”, afirmou a professora Veronica Slobodian.

Assédio moral, assédio sexual, ameaças de violência física em campo foram constrangimentos vividos por Diele-Viegas desde a graduação. “Mulheres têm o tempo todo a sua capacidade intelectual questionada e comigo nunca foi diferente dentro da academia. Tive experiências mais leves e mais graves, que me impactaram em diferentes instâncias da vida. Em relação às coisas que poderiam ter sido feitas, acho que o principal é a impunidade para situações de assédio. Essa impunidade faz com que tais comportamentos sejam normalizados e continuem acontecendo, o que muitas vezes é a porta de saída de excelentes pesquisadoras que acabam desistindo da carreira acadêmica”, relatou a pesquisadora.

“Eu costumo dizer que há assuntos sobre os quais eu gostaria de não precisar falar, e este é um deles”, ressaltou Camalier.  Entretanto, “quando eu me toquei que o mundo estava perdendo muitas mulheres cientistas para o machismo e a misoginia, quando me toquei que muitas meninas e mulheres deixavam de lado seus sonhos profissionais por causa desta nossa sociedade sexista, preconceituosa e estruturalmente equivocada em muitos aspectos, eu percebi que não podia deixar de estar nessa luta”.

E todas elas concordam que “no dia em que a disparidade de gênero na Ciência deixar de ser uma pauta necessária, ficarão extremamente felizes e realizadas”. Por enquanto, entretanto, ela não é só necessária quanto urgente e, infelizmente, precisamos falar sobre isso, as pessoas gostando ou não”, disse Camalier. Para esse objetivo, foi criada a “Mulheres na Zoologia – Rede de Zoólogas do Brasil”.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*
Website