Pesquisa aponta aumento de depressão e ansiedade em pais após início da pandemia

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Fonte: Shutterstock

A pandemia de Covid-19, que já matou mais de 2,7 milhões de pessoas no mundo, sendo mais de 310 mil Brasil, trouxe também uma série de desafios de natureza comportamental e psicológica à população. Na esfera doméstica, os pais de crianças entre 5 e 12 anos de idade também sentiram o impacto do vírus. Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Psicologia da UFBA, com a participação de 69 pais de crianças dessa faixa etária, registrou o aumento dos níveis de depressão e ansiedade de pais e filhos durante a pandemia.

Intitulado “Saúde mental parental e regulação emocional infantil durante a pandemia de Covid-19”, a pesquisa investigou a saúde mental de pais e filhos antes e depois da pandemia. Os pesquisadores buscaram também em estudar a relação entre saúde mental e percepção de risco, medidas preventivas e isolamento social, além da percepção dos pais sobre a saúde emocional dos filhos durante a pandemia. O estudo foi publicado em inglês na última edição da revista científica “Psicologia: Teoria e Prática” da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

“A pandemia age como um estressor com impacto tanto em pais quanto nas crianças”, observa Neander Abreu, coordenador do Laboratório de Neuropsicologia Clínica e Cognitiva (Neuroclic), do Instituto de Psicologia da UFBA. Abreu também comenta sobre outra conclusão a que chegou com a pesquisa: “quanto maior a ansiedade e depressão dos pais, menor a regulação emocional das crianças”.

De acordo com o artigo, o desafio de educar, trabalhar e ainda reduzir possibilidades de contágio elevou a ansiedade e sintomas depressivos dos pais, o que traz como consequência uma maior vulnerabilidade emocional dos pequenos. “Como um estressor surge durante a pandemia, há chances de que a saúde mental dos pais (níveis de ansiedade e sintomas depressivos) impactem negativamente no comportamento das crianças”, informa o artigo. Conforme explica a pesquisa, a regulação emocional diz respeito a processos internos e externos responsáveis pela gestão emocional. Um dos principais fatores de desenvolvimento emocional dos filhos está ligado à saúde mental dos pais.

Além de Abreu, assinam o artigo outros cinco membros do Neuroclic: Cíntia Martins, professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), a doutora Ana Carolina Neiva, a mestranda Andrea Bahia, a psicóloga Maria Isabel Cardoso e a estudante de psicologia Clara Oliveira.

O estudo foi feito a partir da análise de questionários respondidos por pais um pouco antes do início da pandemia no Brasil, em 20 de fevereiro, quando os pesquisadores estiveram presentes em escolas, e entre 60 e 75 dias após o surgimento da Covid-19 no país, registrado em 26 de fevereiro de 2020, dessa vez, em razão das medidas de segurança, de forma virtual.

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Os 69 pais que participaram da pesquisa tinham entre 18 e 62 anos, a maioria do sexo feminino (85,5%). Do grupo, 37,7% trabalham de modo informal, 34,8% estavam desempregados. A maioria dos entrevistados, 60,9%, foram classificados como da classe econômica C, ou seja, com renda familiar mínima de dois salários mensais.

Ao todo, além do questionário sociodemográfico e socioeconômico, a pesquisa utilizou outros três métodos para avaliação da saúde mental dos pais. Entre eles, uma lista de verificação da regulação das emoções (do inglês Emotion Regulation Checklist – ERC), com 24 perguntas sobre o comportamento das crianças e a frequência; um questionário sobre a percepção do risco e do perigo da exposição ao vírus, que contou também com perguntas sobre distanciamento social; e, por fim, uma escala hospitalar de ansiedade e depressão (do inglês, Hospital Anxiety and Depression Scale – HADS), com 14 itens de múltipla escolha. Os dados foram analisados por meio de um programa chamado SPSS Statistics.

Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre ansiedade e depressão dos pais antes e depois da pandemia. A partir de respostas dos pais aos questionários da pesquisa, e de acordo com a escala adotada pelo estudo, verificou-se que, antes da pandemia, a média de ansiedade era de 7,16, saltando a 10,06 após a pandemia. Já os sintomas de depressão passaram de 8,54 para 9,29.

O estudo corrobora resultados de outra pesquisa realizada no Reino Unido, com foco no público adulto. O paper enumera alguns dos motivos que ocasionaram o aumento da ansiedade e depressão durante a pandemia, a exemplo da interrupção de planos imediatos na esfera pessoal, diminuição e ausência de mobilidade, preocupação com a própria saúde e da família, amigos e vizinhos, incapacidade de trabalhar, entre outros. “O aumento também pode estar associado a mudanças inesperadas na rotina das crianças, que são obrigadas a permanecer em casa, levando a uma sobrecarga emocional para os pais e um impacto negativo correspondente em sua saúde mental”, descreve o artigo.

Ao reconhecer que os impactos da pandemia têm efeitos graduais em pais e filhos em todos os estados comportamentais, a curto, médio e longo prazos, os autores descrevem como “imprescindível a adoção de medidas de preservação, prevenção e promoção saúde mental como uma questão prioritária”.

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