Artistas trocam experiências em roda de conversa no Mafro

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Mulheres no Mafro 2 (2)

Lindete Souza observada por Graça Teixeira e Shirley Sanjeva

 

Poetas, atrizes, cantoras, dançarinas, escritoras, produtoras. A mulher em toda forma de expressão artística foi celebrada na roda de conversa que aconteceu na quinta-feira, 30, no Museu Afro Brasileiro – Mafro. Participaram a atriz e poeta Shirley Sanjeva, a jornalista e multiartista Lindete Souza e a bailarina e produtora cultural Inah Irenam. O evento fez parte do ciclo de celebração dos 35 anos museu e também da programação do mês de março pelo Dia Internacional da mulher.

Cada uma das artistas falou de sua trajetória profissional e, juntas, reafirmaram a importância da representatividade da mulher negra nos diversos campos de atuação, inclusive nas artes. Na busca por referenciais de mulheres negras, foram destacados exemplos de artistas talentosas como a cantora e professora de dança Inaicyra Falcão, a diretora teatral Fernanda Júlia e a cantora Virgínia Rodriguez.

Shirley Sanjeva, que também é graduada em Biologia, recordou as dificuldades de conciliar a faculdade com os ensaios do teatro. Ela conta que houve uma resistência inicial de seus familiares diante de sua opção pelo teatro, em virtude da preocupação com a questão financeira. Além disso, a família de formação evangélica estranhava alguns de seus espetáculos inspirados em religiões de matriz africana – o que acabou sendo superado.

Shirley começou sua carreira fazendo teatro de rua e só depois subiu aos palcos, chegando ao Bando de Teatro Olodum, onde vivenciou novas linguagens artísticas e ampliou sua visão sobre a questão da mulher negra na sociedade. Ela lembra emocionada do dia em que a sua mãe foi assisti-la no teatro pela primeira vez: “Foi como um reconhecimento pela carreira que escolhi e pelo amor que tenho pela arte”.

Em sua fala, Shirley denunciou o preconceito racial que existe nos processos de seleção de elenco, nos quais os atores negros têm pouco espaço e são privilegiados os “traços finos”. Ela ressaltou a importância dos eventos promovidos pelo Mafro, que possibilitam debates tão necessários, mobilizações e intervenções artísticas, citando como exemplo a realização do congresso de mulheres negras. “Aqui, neste espaço, eu pude trocar experiências e conhecer pessoas incríveis como (a escritora) Conceição Evaristo”, disse. Para encerrar sua fala, interpretou um trecho da música “Maria da Penha”, de Alcione, que diz: “Se me der um tapa / Da dona “Maria da Penha” / Você não escapa…”

A jornalista e multiartista Lindete Souza, que fez carreira internacional dançando na Europa e nos Estados Unidos, falou da força da cultura brasileira e do orgulho de representar o país. Ela conta que foi por muito tempo a única brasileira e negra em grandes espetáculos de que participava em Las Vegas e que sempre se sentiu muito valorizada no exterior. “Minha alma gritava para esse lugar (da arte). Eu não queria ser médica, nem advogada e nem engenheira”.

Lindete também é atriz, cantora e faz trabalhos de dublagem. De volta ao Brasil, decidiu se dedicar ao jornalismo como uma forma de compartilhar um pouco de toda experiência que viveu. A arte lhe proporcionou o aprendizado de outras culturas e teve um papel muito importante no seu processo de afirmação. “A arte e a dança negra me deram régua e compasso. O empoderamento é não desistir de você mesmo”, destacou. Um dia após o aniversário dos 468 anos de Salvador, a artista declamou um poema de Gregório de Mattos, que diz “o que falta nesta cidade? Verdade…”.

Inah Irenam contou que começou a dançar aos nove anos de idade e logo se encantou pelas danças populares. Como muitos artistas em início de carreira, tentou conciliar sua vocação com outra profissão que lhe assegurasse alguma estabilidade financeira, por isso cursou a Faculdade de Enfermagem por alguns semestres, mas decidiu seguir sua paixão pela arte, mesmo enfrentando todo tipo de adversidade.

A opção pela dança  lhe ajudou a entender seu lugar no mundo e sua aproximação com o candomblé. Hoje ela é filha de santo, tem um trabalho voltado para as danças regionais como o samba de roda e o samba de caboclo, manifestações que carregam uma memória afetiva de seu falecido pai que, como relembra, sambava muito bem. Sua mãe foi a figura central em sua formação e a fonte de inspiração e força destacadas por ela.

Inah considera que o pagode é a dança mais afro que existe na Bahia. “É uma coisa muito nossa, do baiano. Tenho restrições a algumas letras que são machistas, mas sou uma militante do ritmo que reúne matrizes da gente africana tanto nas manifestações sonoras quanto corporais”, afirmou a bailarina que apresentou ao público células rítmicas marcadas com os seus pés, frutos de seu trabalho de pesquisa.

Graça Teixeira, diretora do Mafro, avaliou o encontro como uma rica experiência que proporcionou largo aprendizado. Após ouvir os relatos das convidadas, ressaltou a importância do apoio familiar e institucional para o desenvolvimento de novos artistas. Por fim, disse que o museu está aberto a todos. “O Mafro tem esse caráter de receber todas as tribos. Somos uma espécie de quilombo”.

A urgência de as mulheres negras estarem representadas nos espaços de poder e romper preconceitos que ainda hoje existem foram evidenciadas pelas artistas presentes, que reivindicaram que cada vez mais mulheres possam comandar companhias artísticas e assumir postos de liderança. Cada uma das participantes da roda de conversa disse ter a consciência da missão de ser um modelo de representatividade que servirá de espelho para que muitas meninas negras tenham em quem se espelhar e acreditar no seu potencial e no seu futuro.

 

 

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