Após vencer torneio na USP, alunos da UFBA querem mostrar ao mundo “biofábricas verdes” de tecido

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seda de aranha

Imagem: Pixabay

A SynBio UFBA – o nome vem de Synthetic Biology – é uma organização estudantil do curso de Biotecnologia do Instituto de Ciências da Saúde (ICS) que tem como foco divulgar e desenvolver estudos de biologia sintética, engenharia genética e biotecnologia. Em maio de 2021, puseram em teste o projeto SilCO2, inscrevendo-o em uma competição nacional de biologia sintética promovida pela Universidade de São Paulo- USP. A proposta foi utilizar a biologia sintética para criar bactérias que funcionam como “biofábricas verdes”, capazes de converter o gás carbônico atmosférico em um biotecido na seda de aranha. A equipe acredita que a inovação poderá reduzir significativamente a utilização de carbono pela indústria têxtil, além de diminuir os custos e aumentar a viabilidade da produção de biotecidos resistentes e versáteis para as roupas do futuro. O resultado foi um primeiro lugar unânime na competição da USP.

Agora, o grupo de sete universitários da UFBA orientado pelos professores Luis Pacheco e Thiago Castro quer apresentar o projeto na maior competição mundial de biologia sintética, o iGEM (International Genetically Engineered Machine) Competition, promovido pela fundação americana iGEM, que se dedica a transformar o mundo através da biologia sintética. A competição ocorre todos os anos em Boston-EUA, mas será totalmente online na edição 2021, em razão da pandemia de Covid-19. Para participar da competição, a equipe SynBio UFBA precisa levantar 1.500,00 dólares para a inscrição. Contribuições podem ser feitas através deste link.

Segundo o professor Pacheco, a realização da competição em formato online representa uma grande oportunidade para a equipe da UFBA. “Há algum tempo que nossa equipe planeja participar da competição iGEM, mas sempre nos deparamos com o alto custo associado à viagem de toda a equipe para os Estados Unidos. A mesma dificuldade é encontrada por diversas equipes na América Latina, que ainda tem uma participação muito modesta na competição internacional, quando comparado ao número de equipes europeias e asiáticas.” Sobre o projeto desenvolvido pelo time da UFBA, Pacheco completa: “Nosso projeto vem muito forte neste ano, abordando uma temática de extrema relevância para o desenvolvimento sustentável. Se conseguirmos nos inscrever, temos grandes chances de trazer uma medalha para a Bahia em 2021.”

synbio ufba produçãoJá o professor Thiago Castro destaca a relevância da participação da equipe na competição: “Esta é uma excelente oportunidade para que a UFBA se insira de vez no cenário da competição internacional. A equipe está preparada para mostrar seu potencial e representar a instituição em uma área de fronteira da biotecnologia. O projeto é inovador e demonstra como a biologia sintética pode ser explorada para solucionar alguns dos problemas que permeiam nossa sociedade nos dias de hoje”, declara.

Para o estudante Almiro Neto, que integra a equipe, “a biologia sintética vem sendo cotada como uma área da ciência crucial para o desenvolvimento e resolução de grandes problemas do século. Contudo, no Brasil e especificamente na Bahia, a biologia sintética ainda é pouco explorada. A participação da UFBA em competições grandes como o iGEM é extremamente importante para abrir portas e mudar esse cenário”.

Comentando sobre o desenvolvimento do projeto SilCO2, a estudante Adrielle Sacramento, outra integrante do time da UFBA, comenta: “A agenda 2030 da ONU prevê pontos de desenvolvimento sustentável para frear as consequências do aquecimento global e pensando nisso, nós do SynBio UFBA pensamos em um projeto que busca enfrentar alguns desses pontos através da biologia sintética e biotecnologia. Foi muito importante a vitória na competição da USP para mostrar o nosso potencial como Clube de Biologia Sintética e levar o nome da UFBA mais longe.”

Biologia sintética e o Clube SynBio UFBA

“Biologia Sintética é a Engenharia da Biologia: o design e a construção de novas peças biológicas, dispositivos genéticos e sistemas para realizar novas funções com propósitos úteis, utilizando princípios da biologia e da engenharia”, segundo definição do ERASynBio – FP7 European Research Area Network. É uma área em franca expansão nos dias de hoje. O princípio básico é compreender a “engenharia” dos sistemas biológicos naturais e então utilizar esse conhecimento para construir novos sistemas biológicos, ou até mesmo novos organismos modificados, utilizando a engenharia genética.

O objetivo do Clube de Biologia Sintética da UFBA, o SynBio UFBA, é construir equipes capacitadas e especializadas para participar de competições nacionais e internacionais de Biologia Sintética, incentivando o networking, a colaboração interestudantil e interinstitucional, além de trazer maior visibilidade para o curso de Biotecnologia e para a Universidade. Integram o grupo SynBio UFBA as estudantes Adrielle Sacramento, Carolina Silva, Clara Fernandez, Flávia Rodrigues e Flávia Sanches, além dos universitários Almiro Neto e Camilo Jonas, orientados pelos professores Thiago Castro e Luis Pacheco.

O grupo se reúne semanalmente para apresentar e discutir artigos, desenvolver projetos voltados para a biologia sintética e ações voltadas à divulgação científica. O público alvo do clube é constituído por estudantes e profissionais de Biotecnologia, ou áreas adjacentes, que desejem conhecer diferentes possibilidades de atuação profissional na área de Biotecnologia.

Através da divulgação científica utilizando mídias sociais como Instagram e Youtube, o grupo também tem alcançado estudantes do Ensino Médio e demais pessoas da comunidade externa à Universidade que têm interesse em inovação biotecnológica. O contato do grupo é o synbioufba@gmail.com

Projeto 2021 (SilCO2) – Invista no Verde, Vista o Ar

A indústria da moda é uma das maiores poluidoras do mundo. Suas matérias-primas estão relacionadas ao uso extensivo de pesticidas, consumo de água e emissões massivas de dióxido de carbono. Essas questões têm chamado a atenção para o desenvolvimento de materiais sustentáveis de nova geração, que requerem menos recursos e são obtidos por um processo de produção ecologicamente correto. A seda da aranha é um substituto proposto devido a propriedades como biodegradabilidade e resistência.

No entanto, a biofábrica mais utilizada na produção de seda artificial, a bactéria E-scherichia coli, apresenta alguns problemas, como altos custos de matéria-prima e purificação, que inviabilizam a comercialização. Além disso, o uso da principal matéria prima, a glicose, promove um impacto ambiental devido à sua produção. Daí a necessidade de se pensar na utilização da biologia sintética, para construir micro-organismos geneticamente modificados capazes de produzir a unidade estrutural da seda de aranha artificial utilizando como fonte de carbono o próprio gás carbônico do ar.

Além disso, o grupo propõe um processo sustentável que forneça os substratos simples para o cultivo das bactérias escolhidas, conhecidas como bactérias Knallgas: hidrogênio, (H 2) e oxigênio moleculares (O 2), além de gás carbônico CO2 como fonte de carbono para o crescimento e produção das proteínas. Assim inova-se na área de biotecidos através de uma atividade fabril mais verde e que cause menos ou nenhum impacto ambiental.

O primeiro teste

O projeto foi avaliado em maio passado, numa competição realizada pela Escola de Engenharia de Lorena (EEL) da USP e recebeu nota máxima de todos os avaliadores, professores especialistas na área de biologia sintética e engenharia genética, com comentários motivadores e impressionados com a ideia. Isso abriu os olhos para possibilidades maiores como participar da maior competição mundial de Biologia Sintética, o iGEM.

 

 

 

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