Programas de pós da área de saúde desenvolvem cerca de 100 projetos relacionados à pandemia

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Teleconsultoria especializada, apoio a pais para lidar com suas crianças durante o isolamento social e pesquisa sobre causas de adoecimento e hábitos dos profissionais de enfermagem em meio à pandemia de Covid-19. Esses são alguns dos projetos desenvolvidos pelos programas de pós-graduação da área de saúde da UFBA neste período de emergência sanitária.

São quase cem projetos de saúde (veja lista abaixo) voltados à temática específica do coronavírus, em meio aos 163 projetos de pesquisa e extensão mapeados pelo relatório “Impacto da Pandemia da Corona Vírus no Ensino de Pós-Graduação”,  recentemente divulgado pelas pró-reitorias de Ensino de Pós-Graduação e de Pesquisa, Criação e Inovação da UFBA.

Destacando a relevância social desses projetos, o Edgardigital dá continuidade à série de reportagens sobre a atuação da pós-graduação da UFBA durante a pandemia, apresentando três iniciativas e suas ações de impactos positivos para a sociedade. Confira:

 Telessaúde da Faculdade de Medicina viabiliza cuidados para doenças crônicas e raras

FAMED - Professora Liliane Lins-Kusterer e Sr Jucivaldo dos Santos

Professora Liliane Lins-Kusterer e o lavrador Jucivaldo dos Santos (Foto e texto autorizados pelo paciente).

O lavrador Jucivaldo Santos, residente no povoado de Fogador – próximo ao município de Novo Triunfo, na região nordeste da Bahia, a 360 km de Salvador – tinha duas grandes tumorações no maxilar e mandíbula, que o impediam de fechar a boca e se alimentar normalmente. Devido à pandemia, os acessos aos centros de referência para tratamento ficaram restritos, dificultando assim o tratamento do lavrador, contou a professora Liliane Lins-Kusterer, que atua nos Programas de Pós-graduação em Medicina e Saúde e em Saúde, Ambiente e Trabalho da Faculdade de Medicina da UFBA.

Então, “o Sr. Jucivaldo chegou ao projeto TeleFMB-UFBA pelo sistema de regulação, trazido pela prefeitura de Novo Triunfo, e mobilizou toda equipe de Saúde da Família local, desde a agente comunitária à profissional dentista”, segundo Lins-Kusterer. “Por meio do nosso projeto e da atuação dos diferentes atores do SUS, foi possível realizar sua cirurgia no Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes)”, disse ela, ressaltando que “este caso exemplifica como o projeto TeleFMB/UFBA mobiliza todo sistema de saúde pública”.

O TeleFMB/UFBA presta assistência em diversas especialidades médicas, por meio de teleconsultorias especializadas como foco do projeto Telessaúde e Cuidados em Doenças Crônicas e Doenças Raras no Estado da Bahia, durante e após a Pandemia da Covid-19. Noticiada pelo Edgardigital em abril de 2020, quando foi lançada, a iniciativa conta com a atuação de médicos especialistas e cirurgiões-dentistas estomatologistas.

Realizado pela Faculdade de Medicina da Bahia, em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde (SESAB), o TeleFMB/UFBA representou a primeira experiência de teleconsultoria especializada do estado da Bahia de forma ampla, aprovado pela Resolução da Comissão Intergestores Bipartite – CIB Nº 107/2020. O projeto também foi contemplado pelo Edital FAPESB PPSUS 2020.

O TeleFMB/UFBA “busca melhorar a resolutividade das demandas reprimidas de saúde especializada no Estado da Bahia, sobretudo de pessoas com enfermidades crônicas que tiveram seus tratamentos descontinuados, por falta de acesso a especialistas médicos e dentistas estomatologistas”, explicou Lins-Kusterer.  “Ao mesmo tempo, busca-se otimizar o uso de recursos em saúde, em tempos de escassez devido à pandemia da Covid-19”.

TELEFMB-UFBA

TeleFMB/UFBA – http://telessaude.ba.gov.br/telefmb-ufba: assistência em diversas especialidades.

Segundo a docente, o TeleFMB/UFBA contabilizou, até junho de 2021, um total de 788 teleconsultorias especializadas, abrangendo a capital e municípios do interior da Bahia. “Com base nessa experiência, está sendo desenvolvido um instrumento de avaliação do sistema de Teleconsultoria do TeleFMB UFBA, sob a perspectiva dos usuários e familiares, visando à melhoria da assistência no SUS”, disse a coordenadora.

Lins-Kusterer informou ainda que “um espaço específico de Teleconsultoria especializada TeleFMB/UFBA em multiuso pela graduação e pelas residências médicas e programas de pós-graduação está em fase de montagem para integrar ensino e serviço com as tecnologias de informação e comunicação à distância”. A expectativa da docente é “mobilizar mais municípios do interior baiano para dar acesso a pessoas com condições crônicas, que tiveram seus tratamentos descontinuados na pandemia”.

Junto com Lins-Kusterer, são cogestores do projeto com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb); os professores da FMB Ailton Melo, Larissa Monteiro e Luís Fernando Fernandes Adan, diretor da unidade; a equipe do Telessaúde da Sesab, formada por José Cristiano Sóster e Érica Menezes; e a equipe do Telessaúde FESF, formada por Daiana Cristina Alves e Gladys Reis.

Apoio psicológico para promoção de relações positivas entre pais e filhos

Por meio de chamadas de áudio, pais de crianças de 0 a 11 anos receberam dicas de estratégias para enfrentar problemas associados ao distanciamento social imposto pela pandemia de Covid 19. A ação foi realizada pelo projeto “Queixas de Pais e Crianças de 0 a 11 anos de idade em um serviço de Apoio Psicológico durante a Pandemia de Covid-19”, desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa Parentalidade e Desenvolvimento Socioemocional na Infância – O Parapais – , do Instituto de Psicologia (IPS) da UFBA. A iniciativa teve início em abril de 2020, conforme noticiou o Edgardigital.

rupo de pesquisa Psicologia_Parapais

Grupo de Pesquisa Parapais, do Instituto de Psicologia da UFBA.

Coordenado pela professora Patrícia Alvarenga, o projeto de extensão e pesquisa atendeu e ofereceu apoio a 144 famílias, entre os meses de abril e agosto de 2020. A equipe executora do projeto foi formada por quatro estudantes de pós-graduação (três doutorandos e uma mestranda), supervisionados pela coordenadora do estudo.

De acordo com Alvarenga, a conclusão da pesquisa “é a recomendação de que serviços de apoio devem orientar os pais quanto ao uso de práticas responsivas e assertivas que promovam o bem-estar emocional da criança e estabeleçam expectativas comportamentais em contextos estressantes”. Ela ressalta que “a diminuição dos conflitos entre pais e filhos, resultante do uso dessas estratégias, tende a reduzir o sofrimento dos pais, aumentando sua sensação de bem-estar”.

A análise dos dados de 223 queixas relatadas pelos usuários, nas primeiras 130 ligações, revelou que 94% dos problemas referidos pelos pais foram contemplados pelo protocolo de atendimento e estavam relacionados a problemas emocionais e comportamentais das crianças, incluindo recusa em fazer tarefas escolares (65%), ou ao declínio do bem-estar psicológico dos pais (29%), informou a professora.

Outra recomendação apontada pelo estudo foi a eficácia da ampla divulgação deste tipo de iniciativa. Além da divulgação em sites e redes sociais, foram concedidas entrevistas em programas de TV das redes SBT/regional-BA e TVE, jornal A Tarde e BandNews FM Salvador. Adicionalmente, várias emissoras de rádio de Salvador veicularam um anúncio de um minuto que fornecia informações básicas do projeto de extensão, informou a coordenadora Patrícia Alvarenga.

Políticas de proteção ao trabalhado da enfermagem na pandemia

Adoecimento, riscos psicossociais no trabalho e hábitos de vida a que estão expostos os profissionais da enfermagem do Sistema Único de Saúde na Bahia durante a pandemia são temas de investigação de uma equipe de trabalho composta por mais de 24 pesquisadores, entre professores, gestores, pós-graduandos e graduandas de enfermagem da Escola de Enfermagem (EE) da UFBA.

Intitulado “Condições de Trabalho, Adoecimento por Covid-19 e Hábitos de Vida de Trabalhadora/es do Campo da Enfermagem da Secretaria Estadual da Saúde da Bahia”, o projeto tem a colaboração de três grupos de pesquisa vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde da EE e da Diretoria de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde (DGTES) da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab).

Encontro dos grupos de pesquisa da EEUFBA

Encontro remoto dos integrantes de grupos de pesquisa dos programas de pós-graduação em Enfermagem da UFBA.

De acordo com uma das coordenadoras da pesquisa, a professora da EE Fernanda Carneiro Mussi, os integrantes dos grupos de pesquisa firmaram parceria para a análise dos dados que vêm sendo levantados pela Sesab durante o monitoramento dos trabalhadores do campo da enfermagem na pandemia.

Mussi informa que “o processo de trabalho tem sido construído conjuntamente e, neste momento, envolve etapas de pré-análise e organização de bancos de dados da Sesab, portanto, as análises serão feitas com dados secundários, definição e avaliação das variáveis de interesse e análises pretendidas e apreciação da proposta por Comitê de Ética em Pesquisa”.

Para tanto, a docente conta que “instituiu-se a realização de reuniões virtuais, criação de grupo em Whatsapp para facilitar a comunicação e reuniões presenciais de trabalho quando necessário e oportuno, seguindo as recomendações sanitárias”.

Mussi ressalta que “o apoio da Sesab tem sido essencial para a viabilidade da pesquisa nesse contexto de grave crise sanitária, o que reforça a essencialidade da ciência em produzir pesquisas e dar respostas à sociedade”.

Diante das adversidades acentuadas pelo cenário da pandemia – como estresse, cansaço, insegurança no trabalho, ansiedade, depressão, perda da qualidade do sono, sintomas psicossomáticos, medo da contaminação e transmissão aos familiares, mudanças dos hábitos de vida, entre outras relatadas pelos trabalhadores da enfermagem – o projeto visa a dar suporte à elaboração de políticas e ações governamentais que assegurem condições dignas e proteção no trabalho, assim como melhor qualidade de vida e reconhecimento do valor econômico e social da enfermagem.

Fernanda Mussi aponta que “esses trabalhadores precisam ser alvo prioritário da atenção no controle e disseminação da doença, a partir da adoção de medidas e estratégias de mitigação de riscos nos seus ambientes e processos de trabalho”.  Ela cita dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do International Council of Nurses (ICN), que reúne mais de 28 milhões de trabalhadores em enfermagem no mundo e mais de 3 milhões no Brasil, enfrentando incansavelmente e sob enorme pressão o combate ao novo coronavírus.

Além disso, “o Brasil ocupa a primeira posição em mortes de enfermeiros, técnicos e auxiliares em enfermagem na pandemia da Covid-19, e a propagação da infecção tem atingido expressivo número de profissionais da saúde, especialmente do campo da enfermagem”, enfatiza Mussi. Somente na Bahia, desde o início da pandemia, 49.881 profissionais da saúde foram confirmados com a infecção e quase a metade desses (23.344) foram auxiliares e técnicos em enfermagem (14.498) e enfermeiros (8.846), segundo o boletim emitido pela Sesab em 12 de junho de 2021.

“Esses (as) trabalhadores (as) estão mais expostos ao risco de contaminação, especialmente pela natureza do processo de trabalho. Eles (as) atuam na linha de frente no combate à Covid-19, 24 horas por dia, ininterruptamente, em muitos serviços de saúde.” Além disso, a professora enfatizou que a pandemia acentuou problemas pré-existentes, como subdimensionamento de pessoal, extensa jornada de trabalho e alta carga de trabalho, gerando cansaço físico e mental. Soma-se a isso o maior risco de contaminação e a inadequação e/ou falhas das medidas precaução e proteção no trabalho, potencializadas pela escassez e pela baixa qualidade dos equipamentos de proteção individual”, disse.

Portanto, “o impacto da contaminação para esses trabalhadores não envolve apenas questões biológicas, sendo necessário monitorar a incidência da infecção, desfechos, suporte ofertado para proteção no trabalho, mudanças provocadas pela pandemia, comorbidades e outros fatores associados para melhor direcionar as estratégias de prevenção e controle de agravos”, concluiu a pesquisadora, justificando a importância do projeto.

Junto com Mussi, também estão à frente da coordenação das pesquisas, as professoras Tatiane Araújo dos Santos, Cristina Maria Meira de Melo, Ana Carla Carvalho Coelho, Carolina de Souza-Machado, Ednir Assis Souza e Mariana Moraes. A equipe de profissionais da Sesab envolvida no projeto é formada por Bruno Guimarães de Almeida, Angélica Araújo de Menezes, Luciano de Paula Moura e Érica Cristina Silva Bowes. Do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da UFBA, participam os pós-graduandos Jones Sidnei Barbosa de Oliveira (doutorando) e Camila Lima Silva (Mestranda). Outros profissionais e estudantes poderão ainda ser parceiros no projeto.

Projetos Pós-graduação - Área da Saúde, na pandemia

 

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