Pablo Boczkowski: com abundância de informações, experiência de consumir notícias está desvalorizada

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Qual a experiência de se viver em um mundo com abundância de informações? A pergunta, muito pertinente ao contexto atual, em que 4,5 bilhões de pessoas estão conectadas a alguma rede social, norteou a discussão conduzida pelo pesquisador argentino Pablo J. Boczkowski, professor da Northwestern University (EUA), em live a convite do Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line (GJOL) da Faculdade de Comunicação (Facom) da UFBA.

Boczkowski apresentou apontamentos de seu livro “Abundance: On the Experience of Living in a World of Information Plenty” (Abundância: sobre a experiência de viver em um mundo com informação em abundância, em tradução livre), publicado pela Oxford University Press em 2021 (ainda sem tradução no Brasil), fruto de estudos conduzidos na Argentina para entender como esse crescimento da informação disponível se incorpora nas experiências da vida cotidiana.

Diferentemente da costumeira forma de abordar a questão — que historicamente tem se dividido entre o dilema dos danos e dos ganhos que a crescente onda informativa gera —, Boczkowski traz um olhar mais compreensivo para o fenômeno. Segundo esse pesquisador da comunicação social, o mundo pleno de informações que conhecemos hoje, a nível informativo e de entretenimento, não é uma novidade do contemporâneo, tendo acontecido em outros momentos da história humana. Deve ser encarado, além disso, como uma experiência vivenciada a partir das particularidades de cada sujeito, seus contextos e objetivos de cada experiência: relacionar-se, informar-se, entreter-se.

Não é, portanto, a partir do quantitativo que o fenômeno deve ser plenamente compreendido, argumenta Boczkowski. “A ideia da sobrecarga informativa — de que há um nível de informações ideal para a tomada de decisões e que, portanto, qualquer unidade de informação a mais que isso constitui um problema — traz um viés negativo”, explica. É em contraste a esse olhar que o pesquisador busca direcionar a análise para o conceito de abundância, deixando de lado a noção da sobrecarga.

Essa investigação sobre as rotinas e dinâmicas culturais no contexto de abundância conduzida por Boczkowski revela, entre outros aspectos, que há uma desvalorização na experiência de consumo das notícias. Consumo esse que se caracteriza pela derivação — ou seja, acontece como consequência de uma outra rotina principal, como fazer compras, navegar pelo Twitter, cuidar da casa ou trabalhar. Também caracterizam esse consumo a notícia que chega ao usuário de maneira acidental, a desconfiança na informação passada e a vivência de sentimentos negativos associados ao consumo noticioso, como a angústia.

“As notícias estão por todos os lados, mas o valor das suas experiências estão desvalorizadas. Não significa que as notícias não valem nada, mas que, diante as práticas cotidianas, elas perdem o valor. Isso acontece pelo contraste entre a pobreza dos fatos e a riqueza das ficções. As ficções seguem sendo o foco primário quando consumimos nossas séries favoritas. Os fatos, nas rotinas, são secundários”, completa Boczkowski.

Debatedora na mesa, a professora da Facom Lívia Vieira destaca os méritos da obra de Boczkowski para pensar o jornalismo. “O contraste entre as rotinas de consumo de notícias e entretenimento é um ponto forte e original do estudo, que reforça a importância de se pensar a distribuição da produção jornalística ajustada às rotinas e aos hábitos dos leitores”, afirma a professora e pesquisadora na área de jornalismo digital. “Tudo isso não significa dizer que o jornalismo não é relevante, mas assumir que o consumo noticioso tem um aspecto acidental nos dias de hoje, talvez menos rotinizado e mais acidental do que nós jornalistas queríamos”, define.

Além da abundância de informação no contexto do jornalismo, a obra contempla também o fenômeno nas telas dos dispositivos tecnológicos, associado às plataformas mais populares na Argentina (Facebook, Snapchat, WhatsApp, Instagram e Twitter) e manifesto no entretenimento. O evento completo pode ser conferido no Canal do Youtube do GJOL. Além de Vieira, a atividade contou com a participação das professoras Suzana Barbosa – ambas do Gjol – e da professora Graciela Natansohn, do Grupo de Pesquisa em Gênero, Tecnologias Digitais e Cultura (Gig@) – grupos de pesquisa associados ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PósCom) da FACOM.

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