Pesquisadores devem fugir de “facilidades” oferecidas para a publicação de trabalhos

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Quanto custa publicar um artigo? Muito estudo, trabalho, tempo, dedicação, recursos humanos e materiais. Mas também pode custar centenas de reais ou de dólares, caso o processo habitual de submissão, em periódicos de boa qualidade, pareça difícil e inacessível para alguns pesquisadores, docentes e estudantes de pós-graduação.

ronaldo oliveira

O professor Ronaldo Lopes Oliveira

Diante da necessidade que pesquisadores têm de publicar papers, artigos, capítulos e livros como divulgação científica de seus estudos, proliferam “facilidades” em troca de pagamentos, que podem se transformar numa “armadilha para acadêmicos desavisados sobre este mercado editorial desonesto”. O alerta é do assessor adjunto para Assuntos internacionais da UFBA e professor da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia da UFBA Ronaldo Lopes Oliveira, na palestra “Revistas, eventos, livros, más práticas editorias e seus prejuízos à pesquisa e à pós-graduação”.

Os riscos de se figurar em periódicos cujo critério último é a quitação de boletos foram apresentados na atividade, promovida pela disciplina Ciência e Sociedade, do Departamento de Química Analítica, com a mediação do pró-reitor de Ensino de Pós-Graduação Sérgio Ferreira. O tema também será debatido numa mesa sobre publicações científicas que a Propg promoverá no Congresso dos 75 Anos da UFBA, a ser realizado de 07 a 11 de dezembro de 2021.

A “predação científica” é uma disfuncionalidade que se origina do fato de que, “desde a instituição da pós-graduação no Brasil, a produção de conhecimento e sua publicação com o maior alcance possível faz parte dela”, explica Oliveira, que também é coordenador da área de zootecnia e recursos pesqueiros da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Como há custos para a manutenção dos periódicos, existem vários modelos de sustentação, como o pagamento de assinaturas e de licenças por instituições, o “aluguel” de artigos por certo período ou a disponibilização dos textos completos em formato PDF. No Brasil, o Portal de Periódicos da Capes é custeado com impostos do contribuinte e está aberto às instituições de pesquisa e universidades públicas.

Mas, com a política do open acces (acesso aberto), em que a publicação fica disponível por todo o tempo, o próprio autor é quem paga os custos da manutenção. Assim, “abriu-se a porta para essas práticas predatórias”, disse ele. Embora essas revistas sejam chamadas já há algum tempo de “predatórias”, Oliveira esclarece que “o termo atualizado é ‘más práticas editoriais e organizacionais’, pois a predação é um fenômeno natural e honesto na natureza, entre os animais, mas o quê esse mercado faz, é criminoso”, pondera o professor de veterinária e zootecnia.

Segundo Oliveira, essas iniciativas “atiram para todos os lados” e se sustentam com base na fragilidade existente no próprio meio acadêmico, “que é o desconhecimento sobre como elas atuam”. O professor aponta que grande parte dos pesquisadores dos programas de pós-graduação da UFBA não têm esse conhecimento e, junto com seus orientandos, “podem cair nessa armadilha”.

Os editores desses periódico costumam enviar e-mails genéricos, após caçar os dados e contatos de pesquisadores em artigos publicados anteriormente. Depois de informar sobre um pré-aceite do trabalho para publicação, apresentam valores variados e, diante de recusa ou demora da decisão do pesquisador, até os negocia.

“A pessoa que publica num desses veículos é uma vítima e jamais deveria sofrer algum tipo de discriminação no meio acadêmico. Ela não cometeu um delito, mas caiu num processo malicioso. A revista que se vale das práticas ruins é que é ‘o vilão da história’. Além disso, não podemos julgar, mas sim apoiar, orientar e conscientizar sobre esse problema”, pondera Oliveira.

Mas também existem revistas e editoras legais que cobram taxas honestas para publicação de artigos ou livros, a partir de dissertações e teses. Para saber discernir, é preciso ter conhecimento sobre o funcionamento desse segmento. Aí está a importância de apresentar, novamente, o tema no Congresso.

Artigos já publicados devem ser retirados?

O doutorando Marcos* e seu orientador, Paulo*, são pesquisadores num curso de pós-graduação UFBA. Eles receberam um desses convites por e-mail e publicaram artigo numa revista nacional, mediante o pagamento de um boleto de R$ 399,00, que seriam destinados a “cobrir custos de diagramação e manutenção da revista”, segundo alegação dos editores da publicação online.

Antes do envio do texto, eles ponderam, analisaram o periódico e conferiram sua presença e classificação na Plataforma Sucupira (Sistema Nacional da Pós-Graduação brasileira – que reúne análises e dados do segmento). Dividiram os custos e, após a disponibilização do artigo, inseriram o novo item em ambos os currículos Lattes, apontando devidamente para o DOI (Digital Object Identifier – Identificador de Objeto Digital –  registro para arquivo digital, trabalhos científicos, revistas, livros, imagens e músicas catalogadas que passam a ter um link permanente do documento digital publicado).

Como o texto já tinha sido avaliado por pares da área que estudam, foi apresentado em evento e figura nos anais, “pode ser que o material deles não tenha sido publicado numa iniciativa predatória, pois já tinham submetido o texto a um congresso, que passou por críticas e sugestões de melhoria do trabalho”, considerou professor Ronaldo.

“Mas se a publicação for numa revista predatória, o pesquisador deve buscar todas as medidas possíveis para retirar, imediatamente, o material publicado e sem tentar tirar vantagem da informação.  Caso contrário, poderá perder a oportunidade de publicar numa revista de boa qualidade e também estará contribuindo para que o periódico desonesto continue enganando outras pessoas que, por acaso, identifiquem seu nome e sintam-se incentivados por isso. O Melhor a fazer é que tirem logo a indicação inserida em seus currículos Lattes”, aconselhou.

(*Nomes fictícios para personagens reais de cursos da pós-graduação UFBA).

Por que publicamos?

Alcançar números para conquistar uma bolsa de produtividade? Cumprir critérios para progredir na carreira profissional? Exibir um currículo Lattes recheado? Atender à vontade dos orientadores ou manter a tradição de publicar? Os motivos são muitos, mas “a verdadeira razão para publicarmos deve ser porque a sociedade precisa de soluções para os problemas e como podemos contribuir, mediante a divulgação dos resultados de nossas pesquisas”, afirma Oliveira.

Devemos publicar porque nossos estudos podem impactar a sociedade e impulsionar outros novos estudos e não por satisfação pessoal. Se não tivermos a visão de estar “a serviço da sociedade, poderemos abrir espaço para essas ‘práticas predatórias’”, completou. Por isso, “é melhor ter paciência e cumprir todos os trâmites da submissão dos resultados de árduos esforços de pesquisa somente a periódicos confiáveis”, orienta o professor.

 

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