Concurso internacional de flautistas será decidido com “peça de confronto” de professor da UFBA

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“Nde Re He America” (Por ti América, em língua guarani), solo para flauta composto pelo professor titular de composição da Escola de Música (Emus) da UFBA Paulo Costa Lima será a peça de confronto para os flautistas que vão participar do Concurso Internacional La Flauta Latinoamericana 2021, que acontece virtualmente, a partir da Colômbia, de 28 de novembro a 4 de dezembro. Uma peça de confronto decide a premiação final de uma competição musical.

O compositor e professor baiano acredita que cerca de 80 flautistas deverão concorrer, o que significa que “Nde Re He America, cantos e lutas”, composta especialmente para atender ao convite dos organizadores do evento, deverá ser conhecida por todos os seus intérpretes, além dos professores, orientadores e da audiência, durante as apresentações.

“Não sei quantos compositores hoje podem reunir, digamos, 60 a 80 interpretações distintas de uma obra! Vou querer ouvir todas elas e aprender com o processo. A peça escolhe algumas referências melódicas, fragmentos, de vários contextos, inclusive um fragmento de Soy Loco por ti America (do compositor e poeta baiano Carlos Capinam) para transformar e tecer sua viagem de imaginário e simula, com esses aportes, uma viagem por montanhas e planícies andinas e amazônicas”, informa Costa Lima. A estreia da peça acontecerá, portanto, na final do concurso, quando será executada pelos cinco finalistas.

O compositor e professor da Emus Paulo Costa Lima (Foto: Reprodução Fundação Pedro Calmon)

“Jeitão” latino americano

“Esse concurso tem mesmo o ‘jeitão’ de um movimento que é, ao mesmo tempo, inusitado e ansiosamente desejado por muitos de nós, músicos latino americanos”, comenta o compositor. Trata-se, segundo Costa Lima, de “uma costura entre países reunindo suas lideranças de ponta no campo da interpretação da flauta, permitindo que discutam critérios de qualidade, projetando novos e incríveis valores jovens. Mas tudo isso com ênfase na criação (invenção) autóctone, ou seja, em torno de um repertório de compositores latino americanos”.

Paulo Costa Lima diz que “é emocionante ver que isso se tornou possível, e que todos entendem as implicações culturais, sociais e políticas desse esforço de trabalhar conjuntamente, e assim fazer frente à pressão colonizadora, que tanto nos uniformiza como nos separa em ilhas de um grande arquipélago com relações apenas com os grandes centros.”

Presença da UFBA

Outro compositor e também professor da Emus que participa do concurso é o flautista principal da Orquestra Sinfônica da Bahia Lucas Robatto, que, neste ano, será um dos onze jurados do certame. “A edição de 2021 – informa Robatto – será realizada nos mesmos moldes da edição anterior [realizada em 2020 também na modalidade remota, através de gravações transmitidas online para todo o público nas datas das etapas do concurso], desta vez contando com um júri composto por 11 flautistas da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, México, Peru, Porto Rico e Venezuela.”

Flautista e professor Lucas Robatto está entre os jurados (Foto: Gabriel Camões)

Obras latino americanas unindo o mundo 

O professor Robatto conta ao Edgardigital um pouco sobre a historia do Concurso Internacional La Flauta Latinoamericana, criado em 2020 por iniciativa de flautistas colombianos com o objetivo principal de disseminar e valorizar o repertório de obras para flauta de compositores latino-americanos. Trata-se de um concurso internacional para jovens flautistas, de até 28 anos de idade, de qualquer nacionalidade, mas cujo repertório se constitui exclusivamente por obras latino-americanas.

A primeira edição do concurso em 2020 contou com um júri composto por 8 flautistas da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, México, Porto Rico e Venezuela. Além de avaliarem os candidatos, os jurados também foram responsáveis pela indicação de composições de seus países de origem, que passam a formar o repertório do concurso.

Participaram, no ano passado, 54 concorrentes de 13 países da América Latina, Europa e América do Norte. Além das transmissões dos vídeos dos concorrentes da semifinal e final, o concurso também promoveu lives abertas, em datas anteriores às etapas, sendo cada transmissão dedicada a um país. Estas lives reuniram os compositores e os jurados dos países participantes, comentando e respondendo a questões sobre aspectos estéticos e técnicos de cada obra.

As inscrições para a edição de 2021 estão abertas até 22.11.21. Todas as gravações das transmissões da edição de 2020 estão disponíveis através da página do concurso no Facebook.

 

Foto: NASA/Divulgação

A flauta: de Pan ao espaço

A flauta é um instrumento de sopro da família das madeiras. Sua origem remonta ao período neolítico da civilização humana, quando, com a intenção de imitar o som dos pássaros, foram produzidos os primeiros instrumentos de sopro de que se tem registro, utilizando-se bambus perfurados. Segundo Robatto, a flauta mais antiga que conhecemos tem mais de 40 mil anos, tendo sido encontrada em uma caverna na atual Eslovênia, feita de osso de um urso por Neandertais.

Ainda segundo o professor e flautista baiano, as flautas tinham com frequência, nas culturas antigas, um significado mágico e religioso, o que deve ter contribuído para a disseminação do instrumento por todo o mundo, “assim como para a sua permanência nas culturas musicais através dos tempos”, afirma Robatto, tendo sido inclusive levada ao espaço por astronautas.

Robatto lembra que “muitas culturas antigas utilizavam os canudos de bambus para construir flautas, e um dos formatos mais encontrados é o de vários tubos de comprimentos diferentes unidos lado a lado. Este formato é chamado de flauta de Pan, pois na cultura grega clássica, o deus Pan (divindade dos pastores e bosques, meio homem, meio cabra) tocava uma flauta deste tipo”.

O deus grego Pan tocando sua flauta

 

 

 

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