Tese da UFBA que discute adesão de jovens ingleses ao Estado Islâmico vence Prêmio Capes

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Photos of the destruction in the old city of Shingal (Sinjar) after war with the Islamic State (Foto: Levi Clancy - Wikipedia)Levi Clancy

Foto da destruição da antiga cidade de Shingal (Sinjar) após guerra com o Estado Islâmico (Foto: Levi Clancy – Wikipedia)

Do trio da UFBA que conquistou a 16ª edição do Prêmio Capes neste ano, a tese “Algo em que acreditar: trajetórias de seguidores do Estado Islâmico na Inglaterra”, de Hannah Romã Bellini Sarno, venceu na categoria interdisciplinar. A pesquisa, defendida em 2020, analisou a adesão de quatro jovens ingleses ao grupo Estado Islâmico. “Eu queria entender o que o fenômeno nos dizia sobre o nosso tempo, sobre a contemporaneidade”, explica a autora. O trabalho foi realizado no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Pós-Cultura), do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (Ihac), sob orientação do professor Messias Guimarães Bandeira.

“Quando os seguidores do Estado Islâmico passaram a se multiplicar nas plataformas digitais, comecei a acompanhar o desenvolvimento das redes de comunicação que surgiam, seguindo, com atenção especial, os perfis de autodeclarados apoiadores que se comunicavam em inglês”, conta a pesquisadora. Ela queria investigar “quem eram essas pessoas, apoiadoras do grupo no Ocidente, e, então na Inglaterra, o que as motivava”.

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Hannah Romã Bellini Sarno venceu o Prêmio Capes de Tese 2021 na categoria interdisciplinar.

Para Bellini, a trajetória dos jovens ingleses mostra um processo heterogêneo, que “pode ser mais adequadamente compreendido pela diversidade de gênero, de raça, de origem étnica, de experiências pessoais, de origem social e de intensidade de compromisso religioso dos personagens envolvidos. Ao mesmo tempo, de forma geral, todos eles foram atravessados por questões similares”.

“Negociações referentes a pertencimento no contexto e ideário multicultural britânico, dilemas existenciais, impasses relacionados à formação da identidade particularmente em momentos de crise, mobilização político-ideológica envolvendo demandas de grupos subalternizados, impossibilidade ou indisponibilidade de se engajar com as narrativas vigentes no ambiente em que se encontravam para a materialização de suas aspirações, viés anti-establishment e desejo de antagonizar de forma performática sensibilidades dominantes, busca por excitação e/ou aventura e a adoção de uma alteridade radical informam, em maior ou menor grau, os processos vivenciados pelos quatro jovens”, explica a ganhadora do prêmio Capes.

Hannah Bellini residiu por 15 anos na Inglaterra, vivência que a ajudou a entender o contexto de sua pesquisa. Lá trabalhou como assessora e pesquisadora do principal fórum de organizações e agentes culturais da sociedade civil do Reino Unido, no UK Coalition for Cultural Diversity. Na tese, seu recorte analítico também foi motivado pela centralidade do Reino Unido no fenômeno, sendo o quinto país do mundo em número de acessos a conteúdos extremistas online e o primeiro lugar na Europa, de acordo com dados de 2017.

O orientador da pesquisa, professor Messias Bandeira, enaltece o percurso singular da pesquisa de Hannah Bellini, e reconhece o protagonismo do Pós-Cultura e da UFBA no âmbito dos estudos interdisciplinares em culturas.

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Defesa da tese de Hannah Bellini, com os professores Messias Bandeira (UFBA), Arlene Elizabeth Clemesha (USP), Joanildo Burity (UFPE), José Roberto Severino (UFBA) e Leandro de Paula Santos (UFBA)

“Desde o projeto de pesquisa, a construção dessa trajetória foi caracterizada por inovações metodológicas amparadas pelo diálogo de expedientes de investigação consagrados e outros emergentes da própria pesquisa. Assim, aspectos comunicacionais, tecnológicos, discursivos e de sociabilidade se prestaram a um arco de análises sobre um fenômeno tão sensível quanto atual como o Estado Islâmico. Este não pode ser estudado sem considerar as dinâmicas das culturas políticas, midiáticas e dos movimentos de juventude que conformam a contemporaneidade”, comenta Messias, que pesquisa nas áreas de comunicação, governança universitária e música e tecnologia.

O interesse pelo tema da pesquisa surgiu durante o mestrado, desenvolvido na School of Oriental e African Studies (SOAS) da Universidade de Londres, quando Bellini investigou o papel das chamadas novas mídias na disseminação de ideias e na ação política em lugares onde as mídias convencionais são fortemente controladas. Na dissertação (que se intitula “Between the sword and the keyboard: culture and content control in Saudi new media”), concluída em 2009, ela investigou o papel dessas formas de comunicação no intercâmbio de opiniões e na atividade cultural e política na Arábia Saudita.

“Encontrar uma abordagem adequada para um tema tão difícil foi um dos principais desafios. Eu queria adentrar a dimensão humana do fenômeno, sem humanizar ou relativizar a barbárie”, explica Bellini. A ideia, portanto, era explorar, de forma mais complexa, as questões envolvidas na atração que o grupo exercia em relação aos jovens ingleses. Compreensão que ela buscou a partir de “um prisma menos sensacionalista e unidimensional”.

Hannah Bellini conta que o acesso às fontes de pesquisa foi desafiador, pois o material é difuso e de difícil alcance. “Como os relatos em primeira pessoa – entrevistas em profundidade, publicações em redes sociais e letras de música em que os jovens versam sobre eles mesmos – eram imperativos para mim, foi necessário construir a maior parte dos perfis com base em um mosaico de informações que combinavam esses relatos com outras informações coletadas em uma variedade de plataformas”, afirma.

Os ganhadores do prêmio Capes receberão bolsa de até um ano para estágio pós-doutoral em instituição nacional. Atualmente, Bellini pesquisa um conjunto de aspectos socioculturais que atravessam o Centro Cultural Islâmico da Bahia (CCIB), com foco na conversão de mulheres baianas ao Islã no século XXI.

Confira abaixo a live com Hannah Bellini, Messias Bandeira e Leandro Colling, que explorou diversos pontos da pesquisa vencedora da Capes, na categoria interdisciplinar. O evento foi uma ação do Pós-Cultura e IHAC Digital:

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