A pandemia diminui a cada dia. O que é preciso fazer para que continue assim?

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Eduardo Mota*

Por volta dos últimos dias de junho de 2021, teve início o descenso da frequência média diária de novos casos da Covid-19 no Brasil, tendência que se registra até o momento de maneira consistente e em todas as regiões. A vacinação contribuiu para isso, sem dúvida; porém, o que impulsionou essa evolução favorável foi certamente a permanência das medidas protetivas, de distanciamento e do uso de máscara. Portanto, manter isso agora poderá assegurar que tenhamos a continuidade dessa evolução, evitando uma terceira onda da pandemia.

É importante entender o significado disso em vidas poupadas. A média diária, em 14 dias, de pouco mais de 25 mil casos e 542 óbitos pela doença registrada em 27 de setembro de 2021 – ainda em patamar elevado – é, respectivamente, 66% e 73% menor do que as médias de 23 de junho deste ano. Considerando que as frequências de casos e óbitos tivessem continuado as mesmas durante os pouco mais de 90 dias desse intervalo, teriam ocorrido 3,6 milhões de novos casos e 92 mil mortes a mais. A vacinação e as medidas protetivas evitaram mais doentes e mortes pela Covid-19.

Ainda em junho, uma terceira onda da pandemia foi observada no Reino Unido. Nas primeiras semanas de julho, outros países registraram também uma terceira onda de novos casos, como Israel, Itália, França e Estados Unidos. E no início de agosto, foi a vez de Canadá e Alemanha. Em todos esses países, essa terceira onda foi atribuída à ampla circulação da nova variante viral indiana, identificada como variante Delta do vírus Sars-Cov-2, já registrada também no Brasil e que tem maior transmissibilidade do que as demais.

No Brasil, todavia, diferente do que ocorreu naqueles países, a média diária de novos casos da Covid-19 continua diminuindo – o que indica que o avanço da vacinação tem contribuído para a atual situação sanitária. Já se alcançou cobertura de 69% da população que tomou a primeira dose – isto é, foram vacinadas 145,2 milhões de pessoas. Quando se compara esse quantitativo com a população considerada vacinável (os que têm 18 anos e mais, que representam 158,1 milhões de pessoas), a cobertura com a primeira dose se eleva para 92%. Já a cobertura vacinal com a segunda dose e dose única alcançou, até o momento, 42% da população.

Ainda há grandes diferenças na cobertura da vacinação com a segunda dose entre os estados brasileiros. A variação atualmente vai de 21%, em Roraima, até 53%, em São Paulo. Na Bahia, a cobertura da segunda dose e dose única está em 35%. Estados do Nordeste – como Piauí (32%), Maranhão e Alagoas (33%), Paraíba (34%) e Pernambuco (36%) – ainda têm coberturas vacinais completas relativamente baixas. Reduzir essas diferenças, aumentando a cobertura vacinal em todo o país, será decisivo para manter a evolução favorável ao controle da pandemia.

Contudo, a proporção de pessoas completamente vacinadas segue aumentando, inclusive entre adolescentes, e esse é um importante fator de proteção coletiva contra a possibilidade de que ocorra uma nova onda da Covid-19. Todos devem realizar a vacinação completa tão logo seja possível. Outra medida, já iniciada e que irá aumentar ainda mais a proteção da população, será a aplicação da terceira dose da vacina para as pessoas dos grupos de risco de doença grave e que foram vacinadas há mais de seis meses.

Com efeito, embora a vacinação seja essencialmente necessária e importante, ela não será suficiente enquanto ainda ocorrer circulação viral, como no momento e, supõe-se, no futuro próximo. Por isso, tão importantes quanto a vacinação são as conhecidas medidas não farmacológicas de proteção e prevenção contra a Covid-19. Aí se incluem o distanciamento social, o uso de máscara, a higienização das mãos, dos objetos de uso pessoal e dos ambientes e a promoção da saúde em geral. Nunca antes, nessa pandemia, foi tão importante combinar os efeitos protetivos da vacinação específica com as medidas de prevenção individuais e coletivas. Isso poderá impulsionar a evolução da pandemia para uma situação de controle tolerável da situação sanitária. Temos a possibilidade de alcançar isso, e o momento é excepcionalmente propício.

Sabemos dos enormes benefícios sociais da redução dos riscos de transmissão e infecção do novo coronavírus. Não somente pela retomada das atividades econômicas, das escolas e de lazer, mas pela redução dos casos de doença grave e de mortes evitáveis. Duas semanas atrás, 22 estados apresentavam taxa de ocupação de leitos hospitalares para Covid-19 abaixo de 50%. Em 27 de setembro de 2021, a taxa de ocupação de leitos de UTI-adulto para coronavírus na Bahia foi 33% e em Salvador foi 29%, padrão de ocupação que se mantém há mais de um mês. Isso significa um alívio para os profissionais da linha de frente da assistência especializada aos casos mais graves, a redução da mortalidade pela doença e uma menor demanda aos serviços de saúde do SUS que a pandemia provocou.

No momento em que ocorre essa evolução favorável da pandemia, pensa-se em flexibilizar as medidas de restrição de circulação de pessoas e na plena retomada das atividades comerciais. Ademais, a proximidade dos meses de verão, quando se intensificam as atividades de turismo e de lazer, inclusive de festas populares, pode representar um aumento da exposição ao novo coronavírus. Nesse sentido, tornam-se diretrizes essenciais a cautela na modificação das medidas de proteção coletiva e a manutenção das medidas protetivas individuais. Ampliar a vacinação, manter o distanciamento e o uso obrigatório de máscara poderá possibilitar, em breve, o retorno gradual às atividades em geral com relativa segurança.

A persistir a situação atual e sendo possível antever sua progressão favorável, o Conselho Universitário da UFBA poderá, oportunamente, decidir sobre o retorno das atividades presenciais, amparado nas melhores informações epidemiológicas. Hoje, tudo indica que, após esse longo período de atividades remotas, devemos nos preparar para esse momento . A realização parcial de atividades presenciais em laboratórios e de aulas práticas de cursos de graduação e pós-graduação, recentemente efetivada, representou uma experiência valiosa, que contribuirá para programarmos os próximos passos , caso a situação sanitária permita. Para isso, os protocolos de biossegurança precisarão ser reformulados e ações de manutenção predial e de equipamentos devem ser realizadas, assegurando as melhores condições possíveis de proteção e prevenção, envolvendo, evidentemente, pessoas com vacinação completa e resguardando aquelas que perfazem grupos de maior risco de doença grave causada pela Covid-19.

28-09-2021

*Eduardo Mota é epidemiologista e pesquisador do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

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