IN-TREE: estudos interdisciplinares e transdisciplinares em ecologia e evolução

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Um estudo, coordenado pelo professor Pedro Rocha do Instituto de Biologia da UFBA e publicado na Biodiversity and Conservation em outubro de 2013, mostra que, à medida que se perde vegetação em um bioma, há a extinção de espécies de forma não linear, ou seja, as espécies extinguem-se a princípio gradualmente mas, quando só restam 30% da vegetação original, tendem a extinguir-se por completo. “Esse resultado coloca em xeque a resolução do Código Florestal, que prevê o desmatamento de até 90% da área vegetal original. Se essa resolução for realmente posta em prática, é criado um fragmento morto”, disse o professor Charbel El-Hani, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares em Ecologia e Evolução (IN-TREE) .

Forest cover, extinction thresholds and time lags in woody plants (Myrtaceae) in the Brazilian Atlantic Forest: resources for conservation, uma das publicações resultantes do estudointegrava o Projeto de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), que, em 2015, deu nascimento ao IN-TREE.

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Charbel El-Hani, coordenador do IN-TREE

O INCT, que conta com 49 laboratórios e mais de 250 pesquisadores atuantes, já apresentou resultados em poucos meses de funcionamento. Dois artigos do professor Domingos Cardoso, em colaboração com pesquisadores de instituições internacionais, foram publicados em importantes revistas científicas. O primeiro saiu na Molecular Phylogenetics and Evolution e tratou da presença da tribo Brongniartieae na Austrália e na América Latina, enquanto o segundo, publicado na Annals of Botany, discutiu a morfologia de flores para entender as relações filogenéticas, ou seja, a posição de cada organismo em relação ao seus antepassados. Outros dois artigos do INCT também foram publicados na revista Filosofia e História da Biologia.

O IN-TREE é uma continuação do Pronex, que funcionou de 2009 a 2015. O Pronex apresentou resultados importantes e trabalhou com temas diversos. O impacto da poluição química na Baía de Todos os Santos foi estudado através de uma pesquisa em parceria com o Governo da Bahia pelo professor Francisco Barros, também do IBIO.

Washington Rocha, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), realizou um mapeamento de desertificação a partir de sensoriamento remoto, encontrando vários núcleos de desertificação. A partir desse resultado, foi possível discutir as fragilidades que o bioma da Caatinga tem por causa de determinadas práticas agrícolas danosas ao meio ambiente. Ao todo, foram 66 artigos publicados, de 9 laboratórios, e ainda foram criados 6 registros de softwares de análise de sistemas. A revista Caititu, idealizada no Pronex mas que continua a ser utilizada no INCT, publica trabalhos em ecologia dirigidos ao setor aplicável e é outro importante resultado do projeto, configurando-se como  ponte entre a pesquisa e uso desse resultados na sociedade, com responsabilidade social.

Outro importante resultado foi o uso da interdisciplinaridade para a criação de um método de pesquisa inovador, que utilizou modelagem computacional, estudos epistemológicos sobre conceitos-chave em ecologia e a interação com a sociedade na tomada de decisão e gestão ambiental. “Os cinco anos seguintes foram muito interessantes pois os líderes dos laboratórios realmente mudaram as práticas de pesquisa, para incorporar a proposta de interdisciplinaridade do Pronex. Pessoas que nunca tinham feito uma análise conceitual passaram a utilizar análises de conceitos junto com a abordagem empírica. Ou nunca tinham feito uma modelagem, se juntaram com o pessoal da física, e passaram a fazer modelagem matemática. Foi muito interessante poder estabelecer essa prática de pesquisa diferenciada”, comenta o professor Charbel.

 “Em 2009, eu estava trabalhando no laboratório e uma série de pessoas da área de ecologia aqui do instituto – Pedro Rocha, Francisco Barros, Blandina Viana e outros – me procuraram e propuseram que eu coordenasse um Pronex, porque achavam que, por um eixo de discussão epistemológica e metodológica, nós poderíamos unir todos os projetos numa perspectiva interdisciplinar”, explica o professor Charbel. O professor Francisco Barros é coordenador de pesquisas voltadas para a ecologia bentônica, comunidade de organismos que vivem nos substratos dos oceanos. Já a professora Blandina Viana coordena um projeto de pesquisa que busca dados empíricos para a proposição de abordagens que combatam a perda de polinizadores em áreas agrícolas.

“Isso foi bem desafiador pois não estava no meu plano de carreira, mas o grupo de pessoas que propôs era um grupo de que eu tinha certeza que sairiam coisas de qualidade. Eu percebi que era uma situação que só teríamos ganhos, mesmo se não conseguíssemos realizar a pesquisa interdisciplinar.” Mandaram o projeto e ele foi aprovado, e de fato conseguiram realizar a pesquisa interdisciplinar proposta.

O Pronex deu toda a base para o INCT, que tem uma configuração muito maior. Um elemento importante para a formação do INCT foram as seis reuniões de avaliação externa do Projeto Pronex realizadas com pesquisadores nacionais e  internacionais de renome, que produziram relatórios muito positivos sobre o trabalho do projeto, constituindo a base para a criação da rede de relações internacionais do INCT. Ao montar o INCT, contataram novamente esses pesquisadores, dessa vez, chamando para participar do projeto e muitos aceitaram.

Além da modelagem, dos estudos epistemológicos e da interação com a sociedade, no INCT foram acrescentadas as dimensões de comunicação estratégica, prospecção tecnológica e ética. O INCT também incorporou um projeto de pesquisa e extensão de interação com a educação básica, trabalhando, por exemplo, com pesquisa estudantil baseada no protagonismo juvenil, com a inclusão de conhecimentos tradicionais de pescadores e marisqueiras na educação básica, e com o ensino de evolução, genética e biologia celular.

O IN-TREE ficou na décima colocação, entre 252 projetos aprovados, na nova lista de INCTs divulgada pelo CNPq em maio de 2016. O projeto está planejado para durar 6 anos mas, a curto prazo, a demanda é reunir os coordenadores para fazer um plano de metas para 2017 e 2018.

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