Abril Indígena discute inclusão de pessoas e saberes tradicionais

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Programação do Abril Indígena foi concebida pelos estudantes

A temática indígena estimula uma série de reflexões neste mês que marca o Dia do Índio, comemorado em 19 de abril. Mostra de filmes, debates, rodas de conversas, trocas de saberes e tradições culturais acontecem com o protagonismo dos estudantes indígenas da UFBA, que organizam anualmente a programação do Abril Indígena.

A abertura da programação contou com a apresentação dos rituais sagrados Awê e Toré. Também foi promovida uma roda de conversa com o título “Experiência do Ensino Superior Indígena na UFBA”, no campus de Ondina, onde os estudantes puderam trocar vivências sobre a trajetória universitária, e os veteranos deram dicas aos colegas recém-chegados.

Membro do Núcleo de Estudantes Indígenas (NEI/UFBA), que organiza o Abril Indígena, a estudante de fisioterapia Vanessa Pataxó conta que a edição deste ano foi reduzida, devido aos preparativos para o V Encontro Nacional de Estudantes Indígenas, que será sediado em setembro na UFBA (leia mais abaixo).

“É importante demarcar espaços, promover a afirmação cultural, superar preconceitos e debater as temáticas indígenas”, afirma Vanessa, que considera ser preciso desconstruir a imagem romantizada do índio e assegurar a sua oportunidade de acessar o ensino superior.

Atualmente, 83 índios aldeados estudam na UFBA, distribuídos em 43 diferentes cursos, sendo a maioria composta por mulheres (60%), segundo a Pró-reitoria de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil (Proae). Estão representados 9 dos 16 povos existentes na Bahia: Pataxó, Tuxá, Pankararú, Kiriri, Tumbalalá, Pataxó Hã hã hãe, Xukurú, Payayá, Atikum. Os dados contabilizam apenas índios aldeados, que têm a sua condição comprovada através de declaração da Fundação Nacional do Índio (Funai) e de documento fornecido pelo cacique da aldeia. Certamente, o número de estudantes indígenas na universidade é muito maior, mas não há dados oficiais.

Na organização do Abril Indígena e do V Encontro Nacional de Estudantes Indígenas, o NEI conta com a parceria do Programa de Educação Tutorial (PET) Comunidades Indígenas. Criado em 2010 e composto por graduandos de diversos cursos da UFBA, o grupo de bolsistas desenvolve pesquisas temáticas, cartografia, registros, diálogos de saberes culturais e políticas públicas para a diversidade.

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Rituais sagrados Awê e Toré forma realizados no campus

Outros eventos ligados à temática indígena estão programados para este mês no Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA (MAE), sempre a partir das 14 horas. “Ensinando a historiografia indígena na sala de aula” será o tema da professora do departamento de história da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) Ana Carolina Barbosa, no dia 25/04.

No dia 27/04, será a vez da professora Maria Rosário de Carvalho, do departamento de antropologia da FFCH, falar sobre “Pedro Agostinho e Etnologia Indígena”. No dia 20, o professor Cláudio Pereira, do departamento de história, falou sobre as fotografias de Agostinho no Xingu. Antropólogo e professor da UFBA, Pedro Agostinho da Silva desenvolveu relevantes trabalhos no campo indigenista: suas pesquisas no Parque Nacional do Xingu, na década de 1960, resultaram na reunião de 268 artefatos indígenas que foram doados ao MAE, em 1983, e são parte do acervo permanente do museu.

Visibilidade, acessibilidade e incorporação de saberes

“As ações afirmativas e a reserva de vagas nos processos seletivos têm contribuído para o crescimento do número de estudantes indígenas na universidade, mas ainda há muito o que melhorar. Além de entrar (no ensino superior), o estudante precisa ter condições de permanecer e concluir os seus estudos”, observa Vanessa Pataxó.
Através dos editais abertos pela Proae, a universidade oferece aos estudantes indígenas a possibilidade de participar de programas como o bolsa permanência e ter acesso a benefícios como auxílio acolhimento, bolsa moradia, serviço de alimentação, serviço de residência universitária, entre outros.

A coordenadora de Ações Afirmativas, Educação e Diversidade da Proae, Iole Vanin, aponta que um dos desafios identificados a partir das demandas dos estudantes é a implantação de um núcleo de acompanhamento pedagógico que contemple programas de monitoria em parceira com os colegiados dos cursos. Esse núcleo ficaria responsável, por exemplo, pelo acompanhamento do itinerário acadêmico e orientação estudantil, acompanhamento psicológico e preparação dos estudantes para a vida após a conclusão do curso universitário, desenvolvendo ações com foco no empreendedorismo, na preparação para concursos públicos e na formação para atuar na pós-graduação.

Pesquisadora da história indígena, a diretora da FFCH, Maria Hilda Baqueiro, avalia que a realização de eventos como o Abril Indígena é importante para dar visibilidade à temática e por demonstrar da capacidade desses atores de repensarem seu papel na sociedade. Para ela, é necessário modificar a imagem estereotipada construída sobre os índios. “A historiografia tradicional apresenta o índio no passado e transmite uma imagem de seres selvagens, que desapareceram de repente dos relatos, fortalecendo a visão de que em nada contribuíram na construção do país. Negam o protagonismo histórico desses povos e o reconhecimento de sua identidade e direitos historicamente constituídos.”

Maria Hilda destaca o pioneirismo da UFBA, primeira universidade a adotar as cotas para indígenas abertas para todos os cursos e a ter a disciplina de história indígena na graduação e pós-graduação. “Graças a isso, hoje temos mestres e doutores formados e que atuam na disseminação desta perspectiva crítica espalhados em várias instituições. É um trabalho de formiguinha, porém com resultados crescentes”, afirma.

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Ações de inclusão e permanência estiveram em debate

Coordenadora do Programa de Pesquisas Sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (Pineb) e também professora da FFCH, Maria Rosário de Carvalho observa que “a inserção dos jovens indígenas nas várias universidades no país tem tido grande repercussão nas suas comunidades e no ambiente universitário – até então quase exclusivamente branco e, portanto, profundamente etnocêntrico”. Mas, pondera que ainda é preciso ampliar a incorporação de saberes indígenas à universidade. “Os povos indígenas detêm conhecimentos e experiências próprias, que podem enriquecer o conhecimento científico, alargando as fronteiras. O mesmo pode ser dito no que concerne aos quilombolas e populações tradicionais”, observa.

Rosário destaca a importância de medidas como a reserva de vagas para estudantes indígenas nos cursos de graduação e pós-graduação, “que atestam a sintonia da UFBA com a agenda do movimento indígena e dos movimentos populares à l
uz do amplo espectro étnico e racial que os caracteriza”. E alerta: “É necessário entendermos que, ao longo de anos, as expectativas de indígenas, negros e segmentos tradicionais, predominantemente pobres e desassistidos, foram represadas, desconsideradas, mas o cenário mudou e não se pode admitir retrocessos. Daqui para frente, a palavra de ordem terá de ser ampliação crescente de direitos, nunca o oposto. O combate a todas as modalidades de racismo deverá ser sistemático, sob pena de uma conflagração social”.

V Encontro Nacional e marcha para Brasília

A UFBA sediará o V Encontro Nacional de Estudantes Indígenas (ENEI) no mês de setembro deste ano. O evento reunirá estudantes do ensino superior de todo o Brasil, proporcionando a troca de saberes, discussão e socialização de experiências e pesquisas no ensino superior sobre saberes locais, educação, saúde, gestão territorial, direito, entre outros.

Estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores indígenas e não indígenas terão um espaço de encontro para debater as questões indígenas, particularmente no que tange às práticas educacionais. O encontro terá como tema “Espaço de afirmação, protagonismo e diálogos interculturais: descolonizando o pensamento”, com o propósito de valorizar o movimento indígena nacional, sobretudo o movimento indígena do Nordeste, e mostrar o protagonismo dos estudantes indígenas no contexto acadêmico. Também pretende dar visibilidade e demarcar os diferentes espaços no ensino superior, descolonizar o conhecimento e saberes sobre os povos indígenas e mostrar as especificidades dos povos indígenas do Nordeste, suas lutas e resistências. Para mais informações, consulte o site do evento.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil está convocando as organizações e povos indígenas de todo o país para uma mobilização que será realizada em Brasília, entre os dias 24 e 28 de abril. O movimento conhecido como Acampamento Terra Livre tem entre as suas pautas de reivindicações a demarcação de terras e pela garantia de direitos originários dos povos indígenas.

 

Fotos: PET Comunidades Indígenas 

 

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