Uma aventura científica em busca do meteorito de Palmas de Monte Alto

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Meteorito

Sirlene, a dona do meteorito, e Márcia Eduarda, a filha, na Fazenda Água Branca

 

Uma espécie de “corrida do ouro” ou caçada ao tesouro, cheia de percalços e incertezas, mobilizou desde o fim da tarde do domingo, 28 de maio, um grupo de pesquisadores do Instituto de Geociências da UFBA, decidido a chegar o mais rapidamente possível à Fazenda Água Branca, na zona rural do município de Palmas de Monte Alto, que fica a 524 quilômetros (Km) de Salvador em linha reta ou, mais realisticamente, a 810 km por estradas. No fim desse caminho estaria um pequeno e precioso fragmento rochoso de 9x6x5 centímetros, pesando perto de 950 gramas, parte do meteorito que viera do espaço e caíra no local na sexta-feira, 26, provocando um formidável estrondo, ouvido, segundo testemunhas variadas, a até 100 km de distância.

(Da caderneta de campo de Fernanda Tourinho: “Sirlene contou como encontrou a pedra. Na sexta-feira, 26, por volta de 11h30, Euzane Silva Paz, sua mãe, ouviu um estrondo e pensou que o pneu da moto tinha estourado. Sirlene, da porta de casa, a 70 m de distância do local onde o meteorito caiu, viu um redemoinho de terra e foi averiguar. Viu uma pedra vermelha, diferente das encontradas na região e se abaixou para pegar, mas estava muito quente e jogou-a no chão.

Esperou alguns segundos e pegou novamente, dessa vez, já morna. A pedra agora era preta, com aspecto de massinha de modelar amassada com os dedos. João Kevin, seu filho, logo gritou: “É um meteorito!” – ver o relato completo de três dias mais abaixo.)

 

A pressa era mais que justificada: os chamados “caçadores” de meteoritos, agentes de compra e venda dessas peças que, eventualmente, representam museus, já tinham se posto a caminho. E caso um deles convencesse a “dona” da pedra, Sirlene da Silva Paes. 33 anos, filha de José Otílio Francisco Paes, 71 anos, dono da Fazenda Água Branca, a lhe vender o fragmento, a UFBA perderia a chance de dispor desse material, especialmente interessante para pesquisa porque fora achado logo depois da queda e não sofrera qualquer desgaste.

Diga-se desde já, acabando com o suspense, que na tarde desta sexta feira, 2 de junho, a aventura tinha se encaminhado a um final feliz para a UFBA, mais o Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, que deslocara uma respeitada pesquisadora para se juntar aos colegas baianos, e a Prefeitura de Palmas de Monte Alto, que entrara direto na negociação com Sirlene para evitar que ela vendesse o fragmento a um dos “caçadores” que tinham lhe feito proposta de compra por um valor entre R$4 mil e R$ 6 mil. As três instituições deverão ter cada uma um pedaço da peça, que assim fica para pesquisa e exposição em territórios brasileiros.

( Da caderneta de Fernanda, nesta sexta à tarde, 2 de junho: “A família recebeu uma gratificação pelo meteorito e ficou decidido que uma parte ficaria com a UFBA, uma com Museu Nacional do Rio de Janeiro e a última parte com a prefeitura. Réplicas também seriam feitas para exposições na cidade e no Museu Geológico da Bahia).

palestra

Palestra sobre o meteorito na escola na noite de sexta-feira, 2 de junho

 

Correria na partida

            Detalhes da queda do meteorito e dos planos de sua proprietária (segundo a legislação brasileira, dono é quem acha o fragmento) a respeito do que fazer com a peça, já estavam muito bem descritos no final da semana passada, graças ao bom trabalho do jornalista Vilson Nunes da Rádio Visão FM. Trata-se de emissora local da cidade que tem pouco mais de 22 mil habitantes. E foi assim que, no domingo, o grupo da Geociências da UFBA, liderado pela professora Débora Rios, já tinha ideia clara da importância do achado.

Na manhã da segunda feira, 29, Débora, juntamente com a diretora do Instituto, professora Olívia Cordeiro de Oliveira, começaram a montar a expedição científica em busca do meteorito. Inicialmente, a ideia era ir de ônibus até Vitória da Conquista, a 516,8 km de Salvador e a cerca de 300 km de Palmas de Monte Alto e, de lá, com apoio oferecido pela UFBA de Vitória da Conquista, seguir caminho.

“Falei na segunda pela manhã com Orlando Caires, diretor do Campus Anísio Teixeira, que disponibilizou dois carros, mas os motoristas estavam viajando, em outras missões. Os nossos também estavam em campo e procuramos outra alternativa”, conta Olívia. A solução foi depois oferecida por Dulce Guedes, pró-reitora de Administração da UFBA, que entendeu que valia a pena alugar um carro robusto, 4×4, para a missão.

Todos os detalhes acertados, inclusive a ida da professora Elisabeth Zucolotto, curadora da coleção de meteoritos do Museu Nacional, diretamente para a região, onde se encontraria com o grupo baiano, o carro pode partir para seu destino ao meio dia da quarta feira, 31. Hora e meia antes, contudo, ficou decidido que Fernanda Tourinho Caldas, bolsista do Edgardigital  integraria a expedição (ver abaixo notas de sua caderneta de campo).

débora

Débora Rios no Museu Geológico; na liderança do grupo de pesquisa, mas longe do campo

Havia entretanto uma baixa: Débora Rios, a líder das pesquisas com meteoritos no Instituto de Geociências, recebera estritas ordens médicas para não fazer essa viagem cheia de aventuras, em razão de problema na coluna vertebral. Daí, dois orientandos seus se tornariam personagens chave da viagem: o recém doutor  em Geologia Wilton Carvalho, 71 anos, funcionário da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, e a estudante de graduação Cristine Pereira, 25 anos. Wilton formou-se em administração, é um especialista em políticas públicas e gestão governamental, mas um completo apaixonado por geociências e, especialmente, meteoritos.

Enquanto o grupo não chegara ao local, de Salvador, Débora Rios tentava convencer por telefone a dona do meteorito a não vendê-lo aos “caçadores”.  Procurava sensibilizá-la apelando inclusive ao “amor à ciência”.

Já mais aliviada pelo rumo que as coisas tomaram, nesta sexta Débora contou que o meteorito achado em Palmas do Monte Alto é o sexto já descoberto em território baiano, e “o segundo já encontrado no mesmo município, um caso raro, só registrado antes em Crateús, no Ceará, e em Patos de Minas, Minas Gerais”. Ressaltou que ele é o primeiro meteorito “achado” na região, uma das  duas categorias desse material, “Há os achados, com testemunho da queda e coleta imediata, e os os encontrados, em que não há o registro da queda e depois alguém topa com eles”.

Esse “depois” pode ser muito tempo. Por exemplo, no caso do primeiro e bem grande meteorito de Palmas de Monte Alto, aparentemente sua queda ocorreu no final do século XIX, e só em 1940 foi encontrado.

Débora informou também que a equipe que viajou à região está procurando outros fragmentos, porque como se trata agora de um meteorito rochoso, ao entrar em contato com a atmosfera ele certamente se fragmentou em várias partes menores, a cerca de 20 km de altura. “Um meteorito metálico, como, por exemplo o de Bendegó, se mantém em partes maiores”.

Elisabeth Zucolotto também destacou que poucas cidades no mundo tem mais de um meteorito, e isso compõe mais uma das razões de interesse científico do meteorito achado em Palmas de Monte Alto. ”O Brasil só tem 70 meteoritos, essa foi a primeira queda observada na Bahia e é da maior importância mantermos esse meteorito no país”, ela diz. Elizabeth acredita que o grande trabalho de divulgação científica sobre meteoritos dirigido à população brasileira pelo Museu Nacional em 2009, sob sua coordenação, terminou resultando na rápida informação sobre as quedas. “Antes, levávamos 20 anos sem ser informados de nada assim, agora a média registrada de quedas é de dois em dois anos”, diz.

 

A caderneta de campo de Fernanda Tourinho

Dia 1 – 31/05

12h

Cheguei ao Instituto de Geociências da UFBA para esperar pelo carro, uma Hilux 4×4. A professora Débora Rios, coordenadora do Laboratório de Petrologia Aplicada à Pesquisa Mineral (GPA), me recebeu e explicou que não poderia viajar devido a um problema de coluna, então eu acompanharia Wilton Carvalho, doutor pelo Programa de Pós-graduação em Geologia da UFBA, e Cristine Pereira (25), bolsista de iniciação científica do grupo e graduanda em Geologia. Conversamos um pouco sobre a situação – o meteorito tinha caído na zona rural de Palmas de Monte Alto, uma cidade do extremo oeste baiano – e ela me mostrou os materiais (pôsteres, cartilhas, amostras, um capacete de astronauta) que seriam levados para a exposição que seria organizada para alunas nas escolas de Palmas de Monte Alto. Falamos também sobre o “caçador” que aparentemente estaria na Bahia em busca do mesmo meteorito.

13h30

Saímos de Salvador e pegamos a estrada.

Primeiro dia

Na estrada, rumo a Maracás

18h30

Chegamos em Maracás, 332 km distante de Salvador, onde paramos para passar a noite. Cristine recebeu a notícia de que o pretenso caçador já estaria na cidade na qual o meteorito caiu. Ela me explicou que iríamos a campo caçar esses fragmentos, antes que outras pessoas pegassem.

 

Dia 2 – 01/06

7h30

Saímos de Maracás e partimos em direção à Palmas de Monte Alto, 398 km distante.

 

 

 

11h30

Depois de quase um dia de viagem e 771 km percorridos, chegamos em Palmas de Monte Alto, quase na divisa da Bahia com Minas Gerais. Nos acomodamos no hotel e logo Nilton, professor de história da cidade e a pessoa que estava em contato com a senhora que encontrou o meteorito, chegou para conversar. Almoçamos e voltamos para a pousada

Meteorito antigo

O meteorito mais antigo

 

 

14h30

Nilton chegou para nos levar para a Prefeitura. Chegando lá, nos mostrou onde estava o primeiro meteorito, encontrado na década de 1940 e objeto de estudo do mestrado de Wilton. O meteorito metálico, feito de ferro e níquel e pesando quase 150 kg, foi encontrado  por um lavrador e ficou por quase 60 anos em uma escola do município. O meteorito foi utilizado como brinquedo pelas crianças por muitos anos e está manchado de tinta, por causa das reformas por que a escola passou. Hoje, a peça fica em uma sala escondida na prefeitura, no chão, encostada em altas prateleiras, quase um peso de porta. Entramos para conversar com  o prefeito, que se mostrou pronto para ajudar e dar apoio na obtenção do meteorito. Ficou acertado que nós, juntamente com a professora Elizabeth, o prefeito e seu secretário iríamos à casa da senhora na sexta (02/06) pela manhã.


19h30

A professora Elizabeth chegou com um outro “caçador” de meteoritos. Na nossa pousada, está hospedado um uruguaio que também é “caçador”.

Dia 3 – 02/06

 

8h

Saímos do hotel em direção à fazendo Água Branca,, local onde o meteorito caiu, a 22 km de distância de Palmas de Monte Alto

wilton grupo

Moradores da região e o grupo de pesquisadores (Elizabeth Zucolotto de blusa verde)

 

8h30

Chegamos à fazenda e  a família Silva Paz nos esperava. Fomos em um carro, Wilton, Cristine, eu, e Edgard dirigindo; em outro, a professora Elizabeth e André Moutinho, dono da maior coleção de meteoritos do Brasil, e o professor Nilton. Quem nos recebeu foi Sirlene da Silva Paz (34), a primeira pessoa que pegou no meteorito. A professora Elizabeth logo falou “Eu quero ver a pedra”, analisar o objeto seria a única forma de realmente confirmar se de fato era um meteorito. Sirlene contou como encontrou a pedra. Na sexta-feira, 26, por volta de 11h30, Euzane Silva Paz, sua mãe, ouviu um estrondo e pensou que o pneu da moto tinha estourado. Sirlene, da porta de casa, a 70 m de distância do local onde o meteorito caiu, viu um redemoinho de terra e foi averiguar. Viu uma pedra vermelha, diferente das encontradas na região e se abaixou para pegar, mas estava muito quente e jogou-a no chão.

Esperou alguns segundos e pegou novamente, dessa vez, já morna. A pedra agora era preta, com aspecto de massinha de modelar amassada com os dedos. João Kevin, seu filho, logo gritou: “É um meteorito!”. Ele tirou uma foto e mostrou para um vizinho. Esse vizinho foi ao salão e comentou sobre o fato. Reginaldo, que estava lá, ligou para seu irmão, Nilton , professor de história da escola municipal, e explicou a situação. Nilton rapidamente foi até a fazenda, tirou fotos e filmou o meteorito. Ele enviou para André Coutinho, no site Meteorito Brasil. André respondeu em cinco minutos e entrou em contato com a professora Elizabeth e essa, por sua vez, contactou a professora Débora.

Nilton sempre conversava com a família sobre a importância científica do meteorito e a necessidade de ele parar nas mãos corretas, pois era também um patrimônio da cidade e deveria permanecer aqui. Elizabeth e Wilton explicaram o que eram meteoritos, de onde vinham, para que serviam e o valor deles para a pesquisa científica. A família mostrou o local onde o meteorito caiu e a pequena cratera que formou no chão de terra batida. “Talvez eu pegasse a pedra e jogasse nas vacas, como faço com as outras, se não tivesse visto a queda”, comentou Sirlene. Wilton e Cristine calcularam a área que os outros fragmentos poderiam ter caído. Como o meteorito da família era relativamente grande, os fragmentos menores estariam em uma área anterior à fazenda e, provavelmente, em maior quantidade.

 

10h

Percorremos uma área próxima à fazenda em busca de fragmentos. A região é um bioma de transição entre a caatinga e o cerrado, tem um relevo plano, com vegetação essencialmente rasteira. Essas características ajudaram no trabalho de busca, mas, mesmo assim, não tivemos sorte.

11h30

O prefeito chegou na fazenda e conversou com a família, reforçando  a importância do meteorito para a cidade. Palmas de Monte Alto é uma das poucas cidades do Brasil que viveram a experiência da queda de um meteorito duas vezes. A família recebeu uma gratificação pelo meteorito e ficou decidido que uma parte ficaria com com a UFBA, uma com Museu Nacional do Rio de Janeiro e a última parte com a prefeitura. Réplicas também seriam feitas para exposições na cidade e no Museu Geológico da Bahia

 

13h

Almoçamos com a família

wilton familiares

Encontros, conversas e almoço com a familia

 

14h

A professora Elizabeth saiu à cavalo e Cristine e André foram à pé explorar a região.

 

17h

Todos voltaram de suas expedições mas nenhum teve sorte, Voltamos para o hotel em Palmas. Às 19h, Wilton e Elizabeth darão uma palestra para os habitantes da cidade e amanhã será a vez das crianças das escolas municipais tentarem a sorte, em uma expedição mirim,

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